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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Resenha: Religio Romana Handbook, de Lucius Vitellius Triarius

   Sinopse (na língua original): The Religio Romana Handbook: A Guide for the Modern Practitioner, 2nd Edition, is the first volume in the series, "The Modern Roman Living Series," by Lucius Vitellius Triarius. It is a guide for the practitioner of the cultus deorum Romanum, the ancient Roman religious system as practiced in the modern time. Not a congregational religion, the cultus deorum Romanum is a religious system based on individual practices, household and ancestor worship, and religion of the state.
This work is a compilation of writings, articles, opinions and beliefs from many practitioners of the Religio Romana in Nova Roma, the global Roman Reconstruction effort in our modern age. It has been compiled to assist those interested in learning more about the cultus deorum Romanum and related Roman culture, both ancient and modern, and has been designed to be of practical use by the religio practitioner and reference guide for the non-practitioner.
Unlike the ancient Greek belief system, the ancient Romans believed that achieving peace and harmony in society required maintaining a positive relationship with the gods and goddesses by all to achieve that equilibrium, as the gods and goddesses walked among us daily. Each person was responsible for doing their part, whatever that part was. If you are new to the religion or a seasoned practitioner, this handbook provides you with detailed information on most aspects of the religio on how you can begin participating the global movement to bring much needed sense and balance to our modern world.

Ficha Técnica


   Autor: Lucius Vitellius Triarius
   Ano: 2013
   Editora: -
   Páginas: 273

   Li, reli e continuo retornando a essa obra há meses para consultar seus fundamentos, e compreender melhor os alicerces dessa religião que admiro e tenho orgulho em dizer que é onde minha ancestralidade tem suas raízes. Se você tem interesse em reviver ou conhecer o culto moderno ideal dentro do paganismo romano, embasado em aspectos tradicionais e sólidos, essa obra é uma leitura obrigatória! É perfeita para dar os primeiros passos, e igualmente apropriada para se aprofundar com seriedade nos conceitos e práticas reconstrucionistas da Religio Romana.
   Religio Romana Handbook é o guia mais completo que conheço sobre a conexão cotidiana com os Deuses e as crenças antigas do Império, e inclui não apenas o panorama histórico para introduzir os leitores ao que é o reconstrucionismo romano, mas também orações, sugestões de rituais e atividades para os festivais e para o culto doméstico, instruções de como montar seu lararium (altar) e os instrumentos necessários, sacrifícios e oferendas dentro do paganismo antigo e atual, tabelas de correspondências, e uma lista bem extensa de divindades do panteão, acompanhada de detalhes sobre cada uma delas.
   Um dentre os vários pontos que considerei muito positivos são as citações em latim, sempre acompanhando a tradução correspondente em inglês, e também as referências clássicas e indicações de leituras para quem, assim como eu, aprecia explorar as fontes usadas pelos autores, ainda mais quando se tratam de obras do passado. São mais de 570 referências apresentadas na bibliografia! Até o glossário de termos latinos no final é incrível, e sozinho consegue ser capaz de elucidar sobre diferentes facetas do pensamento e filosofia romana sobre a própria religião, acrescentando imensamente para nós que buscamos reintegrar a pietas como virtude pessoal.
   Vi algumas críticas ao autor por compilar nesse livro algumas informações disponíveis no site Nova Roma, mas dou muito crédito ao autor pelo esforço em organizar tudo, em especial quando o resultado se mostra uma obra muito clara, concisa e descomplicada, que fornece detalhes adicionais valiosos e até reflexões muito inspiradoras.

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A honrar os Lares,
   Alannyë Daeris.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Pesdjentiu - Festival Egípcio para a Lua Nova (e uma sugestão de ritual!)

   Os antigos egípcios marcavam a passagem do ano usando tanto calendários solares quanto lunares. Os meses dos calendários lunares se iniciavam junto com a entrada da Lua na fase nova, e se encerravam no dia anterior à lua nova.
   O começo de um mês era celebrado com um festival denominado Pesdjentiu (termo reconstruído a partir de inscrições em templos do período Ptolomaico, significando algo como "festival de lua nova"), uma observância importante na antiguidade e também nos tempos modernos, para praticantes de Kemetismo, devotos dos Netjeru, reconstrucionistas ou até mesmo pagãos e wiccanos que trabalhem dentro do viés egípcio. Há pouca informação além da que trago nesse texto disponível em livros e na internet, mas é o suficiente para que saibamos como incluir em nossas práticas pessoais e façamos nossas adaptações.
   O Pesdjentiu é um momento de honrar seus Akhu (ancestrais honrados) com buquês de flores, alimentos, incensos e ervas aromáticas, bebidas e presentes. Divindades lunares como Djehuty (Thoth), Aah, Khonsu e Heru podem ser homenageadas, mas todos os Netjeru podem ser convidados para a celebração, ou mencionados em reverência. O ritual sugerido abaixo foi construído a partir da estrutura tradicional de Heka (magia) e usa também as invocações que eram faladas pelos egípcios, traduzidas para o português.

Pesdjentiu - Ritual de Lua Nova


Você precisará de:
• Uma vela branca para os Deuses.
• Uma vela branca para seus Akhu (opcional mas recomendado).
• Um sino, ou algum tipo de instrumento musical simples (triângulo, sistro, castanhola, até tambor ou chocalho podem ser usados). Se não tiver nada, não tem problema.
• Um incenso. Evite incensos de vareta, dê preferência para incensos naturais de bastão, smudge sticks, aromatizadores ou um recipiente com carvão litúrgico para queimar ervas aromáticas. Se você não puder fazer fumaça, unte sua testa e mãos com um óleo perfumado quando for a hora de oferecer o incenso.
• Oferendas de comer e beber; pelo menos uma de cada. Por exemplo, pão, bolo, biscoitos, carnes brancas, café, água gelada, cerveja, leite, sucos naturais, chás, enfim.

   Purificar o ambiente antes desse ritual é recomendado, mas não é obrigatório, portanto faça-o sob sua discrição. Respire fundo, acenda as velas e toque um sino ou bata palmas três vezes. Faça o henu de reverência e fale o encantamento abaixo, traduzido a partir do Livro dos Mortos - Capítulo 135:

"Que se abram as nuvens! O turvo Olho de Ra está coberto, e Hórus (Heru) segue alegremente dia após dia, Grandioso de Forma e Pesado em Poder, para dissipar o esmaecer do olho com Seu fôlego ardente. Testemunhe, ó Ra, eu venho navegando, pois eu sou um dos quatro deuses nos cantos do céu, e eu mostro a você Aquele que está presente de dia. Ajeite os aprestos e cordames, pois não há oposição a Você. Para aquele que conhece esse feitiço, ele será um espírito digno no reino dos mortos (Duat), e não morrerá novamente no Duat, e comerá na presença de Osíris (Wesir). E para aquele que o conhece em Terra, será como Thoth (Djehuty), será cultuado pelos vivos, não cairá para o poder do rei ou a fúria calorosa de Bastet, e prosseguirá para uma velhice afortunada."
 
   Agora é hora da oferta, e você pode usar esse momento para honrar seus deuses de culto, com orações ou conversas. Faça o henu de oferenda e diga:

"Recebam essa água fresca que é a Inundação
Recebam esse incenso, grande de pureza, aroma de purificação
Recebam esse alimento, o pão que os sustenta em adoração"

   Toque o sino ou bata palmas.

   "Uma oferenda de pão, cerveja, carne e ave, incenso e todas as coisas boas e puras das quais vive um deus, para Wesir, Khentiamentiu; para Ra-Horakhty; para a Grande e Pequena Enéada; para as Sete Hat-Hors e o Touro do Oeste; para os Bons Lemes nos quatro cantos do céu; para os Quatro Filhos de Heru; para todos os Netjeru em todos os seus lugares; todos os Guardiões do Duat; e o ka dos amados Akhu: [fale o nome dos falecidos que você deseja honrar]."

   Faça o henu de oferenda novamente e diga:

"Voltem-se para essas que são Suas oferendas; recebam-nas de mim."

   Toque o sino ou bata palmas. Prossiga o ritual até quando quiser; você pode meditar, interagir com os deuses e ancestrais, consultar oráculos, realizar feitiços, escrever ou recitar poemas e hinos, criar obras de arte, enfim. Quando quiser encerrar, beba e coma das oferendas - não precisa comer tudo, mas pelo menos dê algumas mordidas. Para encerrar, toque o sino novamente, diga "In-un-Ma'a (Assim é em verdade)", apague as velas e incenso e saia "de ré", sem virar as costas para o altar. Está feito.

Ritual adaptado a partir do livro "Circle of the Sun: Rites and Celebrations for Egyptian Pagans and Kemetics", de Sharon LaBorde.

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A celebrar os novos inícios,
   Alannyë Daeris.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Djehuty (Thoth)

   Um dos deuses egípcios mais conhecidos e também um dos mais antigos, Djehuty (também conhecido como Thoth) é o inventor da escrita, um deus lunar associado com o tempo e muitos outros conceitos extremamente importantes dentro do kemetismo. É até difícil falar de Thoth pois seu portfólio é muito extenso, seus feitos e envolvimento nos mitos é grandioso, e uma grande quantidade de conceitos e áreas estão sob seu domínio. Seu culto se iniciou no Baixo Egito no Período Pré-Dinástico (aproximadamente 6000-3150 a.C), e continuou até o Período Ptolomaico (323-30 a.C), a última era dinástica do Egito. Isso faz da veneração de Djehuty uma das mais longas dentre todos os deuses do Kemet, e provavelmente do mundo.
   Era popular em todo o Kemet, mas o centro de seu culto estava na cidade de Khnum (Hermopolis), onde ele era venerado como parte da Ogdoad. Conforme ganhou importância, uma variante do mito de criação surgiu, determinando que Djehuty na forma de Íbis pôs o ovo do qual Ra nasceu. Os gregos o identificaram com o deus Hermes, e o sincretismo de ambos os deuses gera Hermes Trismegistos, uma divindade muito importante no ocultismo antigo e ainda relevante no ocultismo moderno. Outros mitos, entretanto, sugerem que Djehuty criou a si próprio com o poder da palavra, e sua música deu origem às divindades da Ogdoad.
   Pode ser representado como um Íbis, um homem com cabeça de Íbis, ou um babuíno. De fato, seu nome deriva da associação com esse pássaro, e significa algo como "Ele que é como a Íbis". O babuíno também é um animal noturno e lunar, e quando Djehuty assume essa forma, representa o equilíbrio, o conhecimento transcendental, e a evolução da consciência humana. Pode receber o nome de A'an na forma de babuíno, e apresentar um rosto parecido com o de cão. Djehuty criou muitos saberes imprescindíveis para a humanidade, como a escrita, medicina, magia, as práticas civis e religiosas do Egito, purificação, o calendário de 365 dias (cuja história está explicada em uma lenda egípcia muito interessante), e até a música e a arte.
   Detém um papel importante no pós-vida, pois é o escriba do submundo, que registra e determina o veredito dos falecidos no salão de Ma'at - e recebe os epítetos de Aquele que Equilibra, Deus do Equilíbrio, Mestre da Balança (também ligados com a forma de babuíno A'an). Esses epítetos refletem outra face de Djehuty, o intermédio que esse deus faz entre o "bem" e o "mal", garantindo que tudo permaneça equilibrado para que a harmonia do universo se mantenha. Afinal, é o criador das leis, senhor da ética e juiz dos próprios deuses.
   Está inserido como personagem em várias histórias keméticas, aparecendo como conselheiro e sábio. Nos mitos, apenas duas divindades ficam ao lado de Ra na barca solar, e são elas Djehuty e Ma'at. O fato de ser geralmente considerado consorte de Ma'at, a deusa que personifica a verdade e a justiça para a cultura egípcia, só reforça sua conexão íntima e muito próxima daquilo que é realmente moral no universo. Também desempenha o papel de escriba divino, e é responsável pela percepção e os registros da passagem de tempo. Nesse aspecto, recebe os epítetos de "Aquele que Faz Cálculos Sobre os Céus" e "O Conhecedor do Tempo e das Estações".
   Thoth, além de todos os arquétipos e egrégoras citadas acima, ainda tem relação com a ciência e o pensamento lógico, e os egípcios o creditavam com a autoria de todos os trabalhos científicos, filosóficos, religiosos e mágicos. Ele pode ser honrado através da prática divinatória de consulta de oráculos, a qual ele rege, ou com feitiços e atividades mágicas de sua preferência. E tem também um laço muito íntimo com Seshat, por vezes citado como consorte e outros como pai dela, conforme o culto a Djehuty foi se ampliando, todas as atribuições de Seshat foram absorvidas pelos domínios de Thoth.
   Seus símbolos são a Lua crescente (mas todas as fases podem ser usadas para esse fim), papiros e pergaminhos, penas e canetas, ampulheta, calendário, paleta de tinta, palmeira, íbis, babuíno, ampulheta. Cores que podem ser usadas para lhe representar são o branco e o azul, o dia que lhe favorece é a segunda-feira, e corresponde às egrégoras dos planetas Mercúrio e Lua na astrologia; no zodíaco, corresponde às constelações de Gêmeos e Libra.

Arte por Leon Jean Joseph Dubois e Rawpixel.

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A apreciar a grandiosidade da Íbis,
   Alannyë Daeris.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Ornitomancia, parte 1 - Augúrios Tradicionais na Religio Romana

   A ornitomancia, ou divinação com aves, é uma prática divinatória que existe desde que existe divinação como ato mágico e intencional - afinal, pássaros eram, e ainda são, vistos como mensageiros divinos, capazes de fazer a conexão entre a terra e os céus, ou seja, mundano e divino.
   Por sua existência generalizada nos povos da antiguidade, esse tipo de divinação ocorreu de forma muito particular em cada cultura ou religião. Os gregos a praticavam desde tempos primordiais, pois aparece em vasos arcaicos e é citada por Hesíodo e Homero. Tribos Indígenas norte-americanas, druidas célticos, até entre os mesopotâmios há relatos de divinação envolvendo aves. Mas foi na espiritualidade do povo romano que essa arte se aperfeiçoou em muitos níveis, recebendo um local de destaque na estrutura social e religiosa do Império. Portanto, começaremos os estudos na ótica tradicional da Religio Romana, antes de partirmos para a ornitomancia moderna.
   Antes da fundação da cidade em si, já haviam sacerdotes denominados augurs, que "praticavam os auspícios" através da observação de aves. Nas Tábuas de Iguvine (que datam do terceiro século antes de Cristo), há inscritos religiosos que apresentam, dentre outras práticas, a da ornitomancia nas tribos latinas. A própria lenda de criação de Roma é baseada em um augúrio, no qual Romulus e Remus atuam como os augurs.
   O termo "auspicium" se referencia ao processo técnico da divinação, e o termo "augurium" se referencia à interpretação, a ação favorecida pelos deuses, o aconselhamento resultado da divinação. Existiam inclusive colégios sacerdotais dedicados a supervisionar essa atividade, que tinha papel central em grande parte das decisões públicas e privadas tomadas na sociedade romana - por exemplo, assuntos de guerra, comércio, e religião. No entanto, os augúrios romanos também eram praticados com outros animais ou fenômenos da natureza, e nesse texto manteremos o foco na divinação com aves e pássaros.
   Para os romanos, apenas algumas espécies de pássaros indicavam sinais divinatórios, e essas eram denominadas aves augurales. A mensagem varia de acordo com a espécie observada. Tradicionalmente, alguns dos pássaros incluíam: corvos, pica-paus, corujas, urubus, e águias. Havia uma hierarquia de importância também, com alguns pássaros representando sinais menos relevantes em relação a outros.
   Os sinais podiam ocorrer naturalmente, por vontade dos deuses (oblativa), ou podiam ser requisitados pelo sacerdote (imperativa). No caso dos avibus auspicia, os auspícios de aves, eram subdivididos em duas categorias:

Alites, do vôo. Incluíam a região do céu em que o pássaro estava (pois os sacerdotes delimitavam quadrantes no céu), altura e tipo de vôo, comportamento das aves e local onde possa ter parado para descansar.
Oscines, da voz. Incluíam o timbre, volume e direção do som. O tipo de chamado também tinha grande impacto no augúrio.

   Para a divinação imperativa, ou seja, requisitada pelos homens, primeiro se fazia a delimitação do espaço ritualístico (templum), que deveria ser quadrado e ter apenas uma entrada, e em seguida a purificação do ambiente. Depois, o augur se virava de frente para a direção Sul e fazia a enunciação de pedido de augúrio, sob rigoroso silêncio durante todo o processo.
   Há um protótipo para requisição de augúrio descrito na inauguração do rei Numa Pompilius, que dita que o sacerdote (augur) pergunta para a divindade: "Se for da justiça divina que certa coisa seja feita, mande-me um sinal", e então fala o auspicia que deseja ver, ou seja, o pássaro ou movimento que confirma a mensagem esperada. Assim que a confirmação é observada, o rei é coroado.
   Cícero também relata uma divinação por ornitomancia na história de Attius Navius, que serve como um ótimo direcionamento, ainda que simples,  para a prática da ornitomancia: "Ele havia nascido em uma família muito pobre. Um dia, perdeu um de seus porcos. Prometeu aos deuses que se o encontrasse, ofertaria a eles as maiores uvas de seu parreiral. Depois de recuperar o porco, ele ficou de pé no meio do seu vinhedo, de frente para o sul. Dividiu o céu em quatro seções e observou os pássaros: quando eles apareceram, ele andou naquela direção e encontrou uma uva extraordinariamente grande, que ofertou aos deuses. Sua história ficou imediatamente famosa, e se tornou o augur do rei. Portanto, é considerado o patrono dos augurs."
   A interpretação dos sinais era muito vasta e complexa, por vezes gerando sentimentos muito fortes nos sacerdotes quando indicavam mensagens negativas. Nesse caso, havia muitas técnicas aceitas oficialmente para evitar o augúrio, e negar a previsão. Entretanto, se tornaram fonte de manipulações e fraudes quando usadas por pessoas que desejavam alterar decisões públicas, ou que afetavam outros indivíduos. Algumas delas incluíam recomeçar do zero o processo de divinação, recusar com um gesto de mãos, evitar olhar para o auspício, alegar que pode ter havido um erro, declarar que não aconteceu, ou insinuar que os outros não prestaram atenção. Obviamente, essas técnicas devem permanecer no passado, onde nem mesmo deveriam ter existido!

Muitas informações do livro "De Divinatione", de Cicero.
Muitas informações daqui.
Algumas informações daqui.

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A dar amor ao meu filho de penas,
   Alannyë Daeris.

sábado, 2 de maio de 2020

Genius Loci - Os Espíritos da Terra, Guardiões dos Lugares

Afresco romano do Templo de Isis, em Pompeia, feito antes de 79 d.C. Está atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fonte da imagem, editada pela autora.
Afresco na Casa do Centenário em Pompeia,
acima da lararia, circa 50 d.C. Ao fundo, o
deus Baco ao lado do Monte Vesúvio; abaixo,
a cobra que representa o Genius Loci se
aproximando do altar para trazer sua
prosperidade e abundância. Fonte.
   Na tradição romana clássica, um Genius Loci (plural Genii locorum) é um espírito protetor, atrelado a algum lugar. Esse conceito parte de um princípio animista, se referindo à terra e aos espíritos do lugar como o próprio espírito da terra; no animismo, há a crença de que tudo possui alma, então o Genius Loci é essa alma associada com lugares e fenômenos geográficos.
   Por costume, esse espírito era representado em estátuas e pinturas como uma pessoa segurando uma cornucópia, uma tigela para libações (patera), ou uma cobra, como na imagem ao lado. A cobra tinha uma grande importância na representação de genii, e quase sempre estava presente. A simbologia vem do fato que a serpente é um animal da terra, que rasteja; representava a prosperidade e a abundância para os romanos, e também indicava o intelecto da casa, ou do dono do lar. Em casas de casais, duas cobras eram pintadas no altar. Em Pompeia, há um afresco que mostra um homem profanando um local sagrado, e duas cobras o atacando - ou seja, a cobra era capaz de proteger a pureza dos seus espaços sagrados. Locais importantes como vulcões ou rios também possuíam seus próprios genii locorum. Para os romanos, era muito importante agradecer apropriadamente os genii locorum por bençãos concedidas, e por sua existência.

Afresco romano no lararium da casa de Iulius
Polybius em Pompeia. As duas figuras ao lado
são os Lares, ao centro está o Genius loci, e
a cobra-genius se enrolando no altar também
indica a prosperidade e o intelecto na casa.
Fonte.
   As tropas provinciais de Roma expandiram a ideia de genii representando o Estado em si; por exemplo, na Britânia (província que ficou sob domínio dos romanos de 43 - 410 d.C), foram encontrados altares para os genii de Roma, Roma Aeterna (Eterna), Britannia, e além disso, haviam genii específicos para cada legião, coorte, ala e centúria do exército romano. Não parando por aí, eram erigidos altares também para o praetorum (tenda do general em um castrum, castellum ou acampamento militar) e para os vexillationes, destacamentos temporários de pessoal para lidar com situações de emergência.
   Sob a liderança de Augustus, foi criado um culto doméstico ao Genius do próprio imperador, que era realizado juntamente à nume (numen) da casa, e divindades cultuadas pelo grupo familiar. Nesse contexto, surge o culto imperial, no qual o povo prestava culto ao Genius do imperador em vez da pessoa em si. As dedicatórias inscritas em homenagem aos genii locorum não estava resumida somente ao exército e ao imperador, pois na área que correspondeu à Gália Cisalpina sob o domínio do império, foram encontrados numerosos altares em nome dos genii de autoridades, e pessoas respeitadas num sentido geral.
Genius romano desconhecido,
encontrado em Boscoreale, 
próximo a Pompeia, do
primeiro século a.C. Fonte.
   Em adição ao "genius principis" do imperador, haviam altares aos genii de patronos de homens livres, oficiais, camponeses, donos de escravos, membros de guildas, vilas, outras divindades, parentes e amigos. Até mesmo casais podiam ter suas dedicatórias, e nesse caso, era cunhado "Para o Genius e Juno", sendo Juno o termo aplicado para um espírito feminino/de uma mulher.
   Por fim, sobrevivem da época do império centenas de dedicatórias e inscrições votivas ou sepulcrais, encontradas em praticamente toda a área do Império Romano. Portanto, é atestado que houve de fato um culto muito importante e popular cercando os genii. As frases principais eram abreviadas, como por exemplo:

GPR ou GENIOPR - genio populi Romani - Ao genius do povo Romano.
• GHL - genio huius loci - Ao genius do lugar, da casa, do ambiente.
• GDN - genio domini noster - Ao genius do nosso mestre.

   Muitas outras culturas possuíam a crença em espíritos da terra, relacionados com lugares, rios, montanhas, florestas ou aldeias, ainda que levem outros nomes e sejam vistos com diferenças de modo folclórico. Na mitologia nórdica, por exemplo, há os Landvættir, que são espíritos diretamente associados com a terra, e agem como guardiões, assim como o Genius Loci romano. Para os nórdicos - tanto na antiguidade quanto ainda nos dias de hoje em áreas na Islândia -, a prosperidade da terra depende dos Landvættir, portanto são tratados com imenso respeito e reverência. Estão geralmente ligados a rochedos ou pedregulhos grandes e bonitos. 
   No Japão, há os kami, que são espíritos ou fenômenos que são cultuados na religião de Shinto. Podem ser elementos de lugares naturais, forças da natureza, ou entidades que expressam as qualidades de locais, bem como espíritos de pessoas falecidas locais que eram veneradas.
   Em certas culturas, esses espíritos assumem qualidades faéricas. Na Escandinávia, há os hustomten, ou "gnomos da casa", que podem ser considerados um tipo de Genius Loci. Eles são noturnos, tímidos e medem menos de 1 metro, mas raramente são vistos, ainda que frequentemente sejam percebidos com os sentidos. Eles servem à fazenda, e não aos moradores dela, mas se forem bem tratados, podem fazer milagres muito benéficos, como curar os animais de enfermidades da noite para o dia, ou dobrar os resultados da colheita. Porém, podiam ser muito vingativos se desrespeitados, punindo severamente os camponeses com suas capacidades sobrenaturais. Ofertavam-lhes uma tigela de mingau de aveia, ou leite, biscoitos e manteiga, para expressar gratidão pelo seu esforço.
   Em um contexto moderno, o Genius Loci não necessariamente é um espírito guardião, mas pode ser considerado apenas o espírito do local, seja uma casa ou um local público, natural ou artificial. Muitas vezes é percebido apenas como a energia do ambiente, um conjunto de sensações associados com aquele espaço em particular. Pode ser um pouco complicado acessar os espíritos de certos locais e bairros, principalmente em áreas que foram muito modificadas pelo homem.
   Os genii locorum refletem as características mundanas dos lugares, então áreas perigosas, violentas ou com muita negatividade em geral, sempre resultarão em espiritos imprevisíveis e mais complicados de lidar. Mas o espírito está à mercê de mudar e evoluir com o tempo, especialmente para refletir mudanças que aconteceram no plano material. 

Conhecendo o Genius Loci do seu Lar


   Sim, a sua casa possui um Genius Loci, e você pode conhecer e trabalhar com esse espírito se quiser! Isso pode ser feito de várias maneiras, mas algumas ideias bem simples para se aproximar são:
• Oferte libações ou oferendas alimentícias ocasionalmente. Separe uma pequena quantia das refeições que você prepara em casa e deixe no altar para ele, por exemplo.
• Acenda uma vela branca ou verde e oferte para o Genius Loci. Chame por ele, e diga que quer honrá-lo e conhecê-lo.
• Faça uma oração sincera e agradeça a ele por sua existência - pode ser feito antes de refeições, ao limpar a casa, quando você estiver cuidando e fazendo a manutenção do seu lar.
• Medite com o espírito, e veja o que ele tem para lhe dizer.
• Comunique-se através de oráculos.
• Acenda incensos para honrá-lo.
• Crie uma representação artística do espírito e pendure em sua sala, cozinha, ou decore seu altar.
• Decore sua casa com objetos bonitos e simbólicos. Mantenha tudo limpo e organizado sempre que possível.
• Num futuro próximo, publicarei uma sugestão de ritual para evocação de genii locorum.

Duas representações artísticas do mesmo
altar em homenagem ao Genius Loci.
Encontrado na Britânia (atual Maryland
- Inglaterra), e data do século 2 ou 3 d.C.
A inscrição diz: "Ao Genius do lugar,
à Fortuna Portadora da Casa (Fortuna
Redux), à Roma Eterna, e ao Bom Destino,
Gaius  Cornelius Peregrinus, tribuna da
coorte, decurião de sua cidade natal de
Saldae na província de Mauretania
Caesariensis, de bom grado, de boa
vontade e merecidamente cumpriu seu
juramento. Que você viva muito, Volantius.
"
Fonte.
   Assim como era feito pelos romanos, você pode honrar o Genius Loci de sua casa com imagens que o representem em seu altar, oferendas honestas e orações, poemas ou canções. Você não precisa fazer um altar somente para o espírito (como é o caso do altar ao lado, dedicado para um Genius Loci), mas é interessante acrescentá-lo de alguma maneira no seu altar já existente para que também seja honrado. 
   Sempre que for purificar ou proteger sua casa de alguma maneira - especialmente com wards (barreiras energéticas), feitiços muito potentes ou com energias pesadas -, tente se comunicar com o Genius Loci do seu lar e informar a ele o que está sendo feito. Se você não tem muita intimidade com ele, não precisa pedir auxílio, mas peça permissão para realizar a atividade mágica. Faça uma oferenda a ele ao final, e reafirme que as atividades mágicas são feitas pensando no melhor para seu lar e para você, enfim. 
   Você pode conversar e meditar com o espírito da sua casa da maneira que preferir, e na frequência que mais for confortável para você. Acenda velas de vez em quando, ou oferte bebidas e comidas que achar apropriadas. O melhor é sempre tentar perguntar diretamente para o espírito o que ele gosta e como é a melhor maneira de trabalhar com ele, pois cada Genius Loci possui uma personalidade única, influenciada pela energia do lugar ao qual está conectado. 
   Lembre-se que um Genius Loci é um espírito, e espíritos podem se comunicar de muitas formas além de palavras. Fique atento para os sinais, e confie na sua intuição. Se acontecer alguma dúvida, pergunte diretamente para o espírito em meditação ou ao consultar algum método divinatório. Eles podem lhe avisar em sonhos ou de outras formas os tipos de desarmonia na sua residência e como resolver, indicar ataques mágicos que você recebeu ou foram impedidos de lhe atingir, e outras bençãos despercebidas se tornarão ocasionais.

Se Reconectando com os Genii Locorum locais!


   Escolha um local natural que você goste e fique próximo de sua casa. Pode ser seu pátio dos fundos, ou uma praça próxima. Quando estiver lá, leve uma vela verde, acenda, e saúde o Genius Loci do lugar. Respire fundo, e permita-se limpar sua mente, sentindo-se conectado e enraizado com o chão sob seus pés.
   Expresse seus sentimentos para o espírito do lugar, informando a ele seu desejo de se conectar e honrá-los. Pode ser que ninguém responda, e leve algumas tentativas antes de você receber algum retorno. Diva de antemão que o espírito pode aparecer com diferentes aparências, seja como um animal, ser humano, ou algo diferente. Para reforçar seu compromisso e demonstrar interesse, você pode ir até o local algumas vezes e fazer as seguintes atividades:

• Colete lixo que você vê nesse local ou em outras áreas da sua cidade. Leve uma sacola plástica e luvas com você na mochila ou no carro, e certifique-se de juntar algumas embalagens ou garrafas sempre que sair. Essa é uma maneira muito efetiva de mostrar aos espíritos da terra que você se importa.
• Plante flores e ervas que ajudem os animais polinizadores. Mas ter plantas em sua casa no geral já é ótimo, especialmente se forem nativas da sua região.
• Faça apenas oferendas biodegradáveis ou que não poluam o ambiente. Uma sugestão é ofertar água e fertilizantes orgânicos (de preferência líquidos) para os Genius Loci; mas atente para as outras oferendas que você faz na natureza também! Como você espera que os espíritos naturais se conectem com você, quando você polui o ambiente ativamente?
• Opte por comprar produtos orgânicos em feiras de pequenos produtores locais, para evitar consumir alimentos contaminados com agrotóxicos. Embora não seja uma atitude diretamente relacionada com os Genius Loci, você estará ajudando o meio ambiente e cuidando do seu organismo e da sua família.
• Estude sobre folclore local, aprenda mais sobre os animais e plantas nativos, esteja alerta às frutas da estação, conecte-se de alguma forma com a natureza que lhe cerca. 

   Uma ideia muito boa e efetiva para trabalhar com os Genius Loci é traçar um perfil desses espíritos e os lugares aos quais estão conectados. Para criar o perfil, você pesquisará a geografia local, a fauna e a flora do lugar, os acontecimentos históricos que possam ter se passado ali, enfim. Você também pode descobrir sobre as tribos pagãs que habitaram esse lugar antes da colonização e suas crenças, pois isso pode trazer um entendimento sobre a energia natural do ambiente e as práticas mágicas que eram realizadas ali. Ao conhecer os animais e plantas, você já tem acesso a uma grande gama de simbolismos e correspondências mágicas para trabalhar com o espírito e a energia do local. Para conseguir uma imagem atualizada de qualquer área no mundo, você pode usar o Google Earth. Você pode usar as próprias coordenadas exatas na magia, por exemplo, ao escrever em um papel para usar como taglock (link mágico com o espírito). Aqui há mais informações e um exemplo detalhado de uma criação de perfil de Genius Loci em inglês.
   Quando você estiver mais acostumado a lidar com esses espíritos, tente visitar outros locais interessantes de sua região, especialmente aqueles que sejam famosos por serem sagrados ou históricos. Busque conhecer esses espíritos, e aprender mais sobre a natureza e a espiritualidade através deles. Observe a arquitetura, as cores e a vibe do lugar, e deixe que sua percepção lhe mostre as correlações. 
   E seja respeitoso, especialmente com os espíritos de locais que você somente vai para visitar. Sempre que retirar uma pedra, uma flor, ou um galho de algum lugar, agradeça, faça uma oferenda simples, nem que seja de água. Nenhum espírito é obrigado a lhe ajudar, portanto, seja gentil e respeitoso antes mesmo de pedir por alguma coisa, para garantir um bom relacionamento e evitar problemas futuros por ingratidão e prepotência.

 Algumas informações gerais daqui.
Algumas informações daqui.
Informações do folclore escandinavo daqui.

A trocar experiências com as personificações dos lugares,
   Alannyë Daeris.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Calendário Kemético Fixo do Hemisfério Sul

Imagem do Templo de Hathor em Dendera. 

   Hoje trago um calendário para celebrações egípcias/keméticas adaptado para o Hemisfério Sul; não é totalmente completo e há muitas outras festividades antigas que não foram incluídas, mas para quem deseja ter um norte para incluir as celebrações egípcias em suas práticas, funciona perfeitamente!
   Os festivais keméticos não possuíam uma data fixa, e na verdade, havia dois calendários vigentes no Egito Antigo - um deles seguia o movimento da estrela Sirius, e o outro, voltado para as tradições religiosas, era baseado na Lua. Por esse motivo, esse calendário fixo determina uma data específica para as celebrações, ancorado no Solstício de Inverno, de forma que não seja necessário calcular anualmente as mudanças de datas. Mas se você for voltado para o reconstrucionismo, talvez esse calendário seja inadequado para suas práticas.
   Esse calendário foi desenvolvido com um foco nos principais deuses egípcios, portanto, pode não ser tão abrangente quanto outros calendários encontrados pela internet - mas está adaptado para o hemisfério sul, o que é muito difícil de encontrar por aí -, e você pode incluir suas próprias celebrações e datas importantes para complementá-lo (ou deixar de lado aquelas que você não considera essenciais para seu culto pessoal).
   Incluirei os nomes de festivais específicos em inglês entre colchetes para facilitar a busca pelas celebrações. Os nomes das divindades estarão em sua forma original, kemética, e não nas versões helenizadas.
   O original em inglês pode ser encontrado aqui; no entanto, acrescentei algumas datas e celebrações para complementá-lo, que fazem parte do meu calendário em honra aos Netjeru.

   Janeiro


08: Jubilação de Toda a Terra [Jubilation of the Entire Land]
12: Água ritualística para aqueles que estão no outro mundo (Ahku)
12: Nascimento de Sobek
16: Celebração de Menhuy (Amun, the Hidden One)
20: Oferenças na presença de Ra
26: VI Shomnu acaba
26: Festival do Vestimento - 7 dias [Feast of Dressing]
27: Aniversário de Wesir
28: Aniversário de Heru-Wer
29: Aniversário de Set
30: Aniversário de Aset
31: Aniversário de Nebthet

Fevereiro


01: Wep Ronpet
02: I Akhet começa
02: Festival de Todos os Nomes [Feast of All Names]
09: Celebração de Sobek e Yinepu
11: Celebrações de Ra, Khnum e Sobek, para Akhu
13: Celebrações de Ra e Sobek
19: Celebração de Sobek-Ra
20: Festival do Abano [Wag Festival]
21: Celebração de Djehuty e Saq-Heru
22: Festival de Purificação de Ra
27: Celebração de Shemsety (Aset)
28/29: (I Akhet 28) Oferendas para Amun, Mut e Khonsu de Isheru (acontece no último dia de fevereiro).

Março


02: I Akhet acaba
03: II Akhet começa
05: Procissão de Sobek para ver Sua Mãe Nit (2 dias)
05: Celebração de Djehuty
06: Celebração de Weret-Hekau, Sobek e Djehuty
07: Festival Opet (11 dias) - Amun-Ra e Mut
10: Procissão de Bast
18: Celebração de Aset
18: Procissão ao Pôr do Sol para Ra
20: Celebração do Olho de Heru
25: Celebração de Sobek
26: Nascimento de Heru-sa-Aset.

Abril


01: II Akhet termina
02: III Akhet começa
04: Saq-Heru
04: Celebração de Sekhmet
10: Procissão de Aset
11: Celebração de Amun (2 dias)
12: Celebração de Amun, Nit e Tutu
19: As Lamentações de Aset e Nebthet em Abdju [The Lamentations of Aset and Nebthet]
20: Celebração de Seshat

Maio


01: III Akhet termina
02: IV Akhet começa
02: Procissões de Sobek, Heru e Amun (6 dias)
06: Celebração de Sobek
07: Festival do Falcão Crescente (Heru-Wer/Heru-sa-Aset) (16 dias) [Feast of the Soaring Falcon]
15: Celebração de Bast e Sekhmet Perante Ra (2 dias)
16: Festival de Lavrar a Terra/Festival de Peret [Ploughing the Earth Festival]
23: Festival de Encerramento (do Festival do Falcão Crescente)
25: Festival de Cortar a Terra (orações e oferendas ao nascer do sol) [Feast of Cutting the Earth]
25: Celebração de Nit
27: Mistérios de Wesir: Defesa de Wesir de Set [Defence of Wesir From Set]
28: Mistérios de Wesir: Noite da Morte e Lamentações de Aset e Nebthet [Night of Death and the Lamentations of Aset and Nebthet]
29: Mistérios de Wesir: Luto e Destruição do Asno e da Serpente [Mourning and Destroying the Ass and Serpent]
30: Mistérios de Wesir: Vigília Noturna
31: Mistérios de Wesir: Celebração de Sokar-Wesir
31: IV Akhet termina

Junho


01: I Peret começa
01: Mistérios de Wesir: Festival da Comida no Altar (Libações para Wesir) [Feast of Food On The Altar]
02: Mistérios de Wesir: Elevando o Pilar Djed [Raising the Djed Pillar]
03: Festival de Coroação de Wesir no Duat e Heru-sa-Aset em Tawy (Dia de Todos os Reis) [Coronation of Wesir in the Duat and Heru-sa-Aset in Tawy]
04: Festival de Embriaguez do Olho de Ra
04: Saq-Sobek e Saq-Heru-sa-Aset
06: Celebração de Amun
12: Atendendo Todos os Discursos de Sekhmet [Answering Every Speech of Sekhmet]
20: Retorno da Deusa Distante/Navegação de Hethert
26: Estabelecimento da Vaca Celestial e Descida da Pomba [Establishment of the Celestial Cow and Descent of the Dove]
26: Festival de Oferendas de Ação de Graças (3 dias)
28: Saq e Juramentos de Djehuty
30: I Peret termina

Julho


01: II Peret começa
06: Elevando o Djed para Wesir
07: Invocando e Ofertando para Akhu
08: Celebração e Procissão de Nit
10: Nascimento de Sobek
11: Procissão de Sobek
14: O Dia que Set Mata o Rebelde [The Day Set Kills the Rebel]
16: Aset é Acordada pela Majestade de Ra [Aset is Awakened by Ra’s Majesty]
21: Celebração de Amun e Ptah (10 dias)
28: Celebração de Wesir e Akhu
30: II Peret termina
31: III Peret começa
31: Festival de Tawy
31: Saq-Amun e Saq-Heru
31: Grande Festival de Queima [Great Burning Festival]

Agosto


04: Procissão Noturna de Nit
05: Procissão de Yinepu e Seus Adoradores
06: O Olho de Ra Chama os Shemsu [The Eye of Ra Calls the Shemsu]
08: Dia de Julgamento em Iunu (Akhu)
09: Procissão de Djehuty
11: Saq-Wesir (Libações para Wesir)
12: Saq-Djehuty e Seus Espíritos [Saq-Djehuty and His Spirits]
13: Dia de Construir Saúde e Longevidade [Day of Making Health and Long Life]
15: Celebração de Heru-Behdety
17: Celebração de Nut
18: Aniversário de Nut
21: Aniversário de A.pep. (amaldiçoar e destruir Isfet)
24: Celebração de Heru
28: Festival de Amun de Ra Adentrando o Céu [Amun’s Festival of Ra Entering the Sky]
29: III Peret termina
30: IV Peret começa

Setembro


02: Isidis Navigium (2 dias)
03: Festival de Mastigar Cebolas para Bast
16: Aniversário de Heru-sa-Aset
22: Ostara (Wesir-Ra)
22: Festival de Zep Tepi/Renovando o Ano
23: Saq-Sobek e Saq-Min
25: Matando os Filhos de Bedesh (Heka de proteção)
26: Oferendas para Akhu
28: IV Peret termina
28: Festival de Todos os Criadores
29: I Shomu começa
29: Orações ao Pôr do Sol e Festivais para Todos os Nomes [Sunset Prayers and Feasts for All Names]

Outubro


*:Primeira segunda de outubro: Festival de Seshat (Dia Mundial da Arquitetura)
01: Celebração de Amun-Ra (4 dias)
08: Festival de Vestir Yinepu (Yinepu/Akhu) [Feast of Clothing Yinepu]
12: Coroação de Heka (12 dias)
14: Celebração de Sobek
28: I Shomu acaba
29: II Shomu começa

Novembro


01: Belo Festival do Vale (Amun, Mut, Khonsu e Akhu) (12 dias) [Beautiful Feast of the Valley]
07: Saq-Amun e Procissão de Heka
12: Festival de Todos os Nomes
13: Celebração de Menhyt e Bast
13: Purificação de Sekhmet
20: Festival de Ação de Graças de Amun
25: Festival de Purificação
25: Procissão e Oferendas em Djedu (Wesir, Aset, e Heru-sa-Aset)
27: Procissão de Shu para Recuperar o Wedjat: Djehuty a Acalma [Procession of Shu to Retrieve the Udjat: Djehuty Calms Her]
27: II Shomu acaba
28: III Shomu começa
30: Festival de Hekate Trivia

Dezembro


13: Celebração de Vitória para Amun
15: Procissão Secreta de Ma'at e Ra
21: Celebração de Hethert, Olho de Ra (Dia da Fuga do Olho) [Feast of Hethert, Eye of Ra (Day of the Eye’s Escape)]
26: Celebração de Amun-Ra, Rei dos Deuses
27: III Shomu acaba
27: Queima da Chama da Viúva (Aset) [Burning the Widow’s Flame]
28: IV Shomu começa
30: Aset Webenut (Aset Luminosa)

Com ajuda da Vultus Persefone!

• ☾ •

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A ofertar henu,
   Alannyë Daeris.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Grande Rito de Anúbis para Purificação

Mortalha do Período Ptolomaico Tardio, ou Período Romano. Parte do acervo da Glencairn’s Ancient Egypt Gallery. Imagem editada pela autora.
   Anúbis é o Senhor dos Mistérios e seu portfólio é bastante abrangente. Uma de suas mais fortes atribuições é a purificação, e este simples ritual tem o objetivo de purificar a você e seu altar.
   Caso queira, você pode modificá-lo para o culto ao deus-chacal, ou utilizá-lo como um rito de abertura para festivais ou outros ritos mais complexos. Adapte os encantamentos de acordo com sua necessidade e/ou gosto. Não é um ritual histórico, porém tem base nos ritos clássicos egípcios dos quais se tem conhecimento, e é similar aos ritos de Kemetismo moderno.
   Não há necessidade de saber o ritual de cor. Você ler os encantamentos em voz alta durante o rito, mas leia atentamente o ritual várias vezes antes de botar em prática.

Você vai precisar de:


Dica de imagem para imprimir e usar.
 Encontrada na capela norte do
Templo de Hathor e Maat em
Thebas.
• Duas tigelas purificadas e consagradas.
• Sal grosso. O ideal é o Sal Kosher. Se não for possível, use sal marinho e/ou não-iodado. Evite usar sal de cozinha.
• Incenso natural e/ou óleo essencial de Olíbano, Cipreste, Cedro ou Mirra para aromatizador. Use os incensos de vareta somente em último caso.
• Duas oferendas: uma de comida para ser feita no início, e uma de bebida para ser feita no final. Outras oferendas podem ser feitas, mas essas duas são essenciais. Se estiver em dúvida, você pode ofertar café, cervejas fortes, água gelada, vinho, chocolate quente, licores fortes ou rum; oferendas alimentícias podem ser pão, chocolate, carnes, ou comidas apimentadas e de sabor marcante em geral.
• Uma vela, preferencialmente preta, dourada ou branca. Você pode untá-la com o óleo essencial ou perfume se quiser.
• Uma pena ou uma estátua da deusa Ma'at.
• Uma fita ou um pedaço retangular de tecido vermelho.
• Estátua ou representação visual de Anúbis. Pode ser uma imagem impressa, mas nesse caso recomendo colocar em um porta-retrato. Pequenas estátuas ou bibelôs de cães pretos servem também, desde que o objeto seja purificado antes do ritual.
• Um pedaço de tecido branco. Não precisa ser grande, mas precisa estar limpo. Linho ou tecidos não-sintéticos são o ideal.
• Uma vassoura. Preferencialmente consagrada somente para fins ritualísticos, mas se não for possível, higienize a vassoura que você tiver antes de utilizar.
• Óleo essencial, perfume ou colônia.
• Um instrumento musical (opcional). Sistro é o instrumento ideal.

☽❍☾

   Antes de começar o ritual, certifique-se de que o espaço onde você o realizará está limpo fisicamente. Se for em casa, varra o chão e passe um pano com água e sal grosso. Se for ao ar livre, retire folhas ou sujeiras em geral, e respingue água com sal com suas próprias mãos.
   Coloque um pouco de sal grosso na tigela. Abençoe seu sal com as seguintes palavras:

"Os Netjeru¹ abençoam meu natron²;
Pois o meu natron é o natron dos Netjeru.
Que o natron dos Netjeru me purifique
Como são purificados os Netjeru."

¹: Netjeru siginfica "Deuses" em egípcio antigo. Você pode substituir por "deuses".
²: Natron era uma mistura de sal coletada no Egito antigo muito utilizada em rituais, e é associado a purificação. Também era utilizado nas mumificações, que eram de responsabilidade de Anúbis.


   Acrescente água na tigela, abençoando-a também, com as seguintes palavras:

"Os Netjeru abençoam minha água,
Assim como abençoam meu natron.
Aquele que se banha no natron dos Netjeru
Puro está."

   Tome seu banho higiênico, mentalizando suas impurezas físicas sendo levadas pela água do chuveiro caindo em seu corpo; higienize todos os seus orifícios. Quando estiver completamente limpo, lave suas mãos, rosto e boca com a água salinizada da tigela que você preparou. Faça um breve bochecho com esta água, mas não engula. Você pode derramar o resto da água em sua cabeça, visualizando-se completamente limpo e purificado.
   Coloque uma roupa limpa (que você não tenha usado desde a última vez que lavou). Não use roupas que não estejam perfeitamente limpas! É preferível não utilizar roupas em vez de usar algo que não esteja limpo. A cor não importa muito, mas branco é preferível.
"Henu", uma das formas de reverência.
Essa é conhecida como o Henu de
adoração.

   Nesse momento, você pode preparar oferendas, ou organizar seu altar. As tigelas que você utilizou anteriormente podem ser lavadas agora para reutilização no ritual. 
   Evite se distrair, pois você está purificado e pronto para iniciar o ritual, e deve se manter focado. Você pode purificar o ambiente com um incenso, e/ou meditar um pouco.
   Quando estiver tudo pronto para começar, apoie-se em um joelho e faça uma reverência como a imagem de Anúbis ao lado. Ainda ajoelhado, recite o encantamento abaixo. Recite apenas a versão em egípcio ou em português, não ambas!

Iiu em Hotep, Yinepu, Imi-ut
 Venha em paz, Anúbis, Aquele Envolto em Bandagens
Iiu em Hotep, Yinepu, neb ta-djeser
 Venha em paz, Anúbis, Senhor da Terra Sagrada
Iiu em Hotep, Yinepu, tepy dju-ef
 Venha em paz, Anúbis, Aquele Sobre Sua Montanha
Iiu em Hotep, Yinepu, hery-seshta
 Venha em paz, Anúbis, Aquele Sobre os Mistérios

   Unja sua testa com um perfume, óleo essencial ou colônia, e diga:

"Yinepu, aqui estou
Me purifiquei com o natron dos Netjeru
Agora sou purificado em Tua magnificência
E abençoado por Tua fragrância.
Guardião, sagrado Guardião
Afaste deste templo tudo que venha em mal
E que tremam ao se aperceberem de minha pureza
Pois minha pureza é a pureza de Yinepu
E a pureza de Yinepu é a minha pureza.
Eu venho para cumprir meu ofício,
Pois meu coração é dos Netjeru
E a porta do meu templo está aberta
Para a honra de Yinepu."
   
   O ritual está iniciado oficialmente. Caso seu altar fique guardado ou coberto, você pode abri-lo ou descobri-lo agora. Acenda a vela de Yinepu, e diga:

"Venha, venha em paz, abençoado Yinepu!
O Olho de Heru brilha forte e renovado
E ateia fogo em tudo indesejado
Me renove em Tua luz,
E me purifique em Tua paz."

   Acenda o incenso com a vela, e diga:

"Eu clamo por Ti, Chacal Negro
Eu te saúdo com o aroma
Eu sou puro, eu sou puro
Pois eu me purifiquei perante o Olho de Heru
Para clamar por Ti, Ó Yinepu
Yinepu é puro, eu sou puro.
O fogo está posto, o fogo brilha
E leva meu perfume aos Netjeru
Que meu aroma te apeteça, Ó Yinepu."

   Apresente a oferenda de alimento, agora fazendo o henu de oferenda: estenda os braços para frente, com as palmas das suas mãos viradas para o teto.

"Aqui estou, Ó Yinepu
E aqui ofereço de coração
Tu, que Conhece os Mistérios,
Desvenda os meus, Chacal
Tira o peso do meu coração
E purifica meu ser."

   Encha a tigela com água. Levante-a acima de sua cabeça, enquanto fala:

"Eu ofereço a água primordial,
Para afluir em Teu santuário
E irrigar Tuas bênçãos
Ó Abençoado Yinepu."

   Acrescente o sal e misture. Diga:

"A água primordial que abençoa
Agora é a água que purifica
Teu templo é puro
Yinepu é puro
Eu sou puro."

   Molhe suas mãos na tigela, e respingue em seu altar e em volta de você, enquanto fala:

"Eu me aproximo de Ti
E trago as águas da regeneração
Eu asperjo a água da purificação
Livrando meu santuário das impurezas
Meu templo é puro
Teu templo é puro."

   Deixe a tigela de lado. Ajoelhe-se em frente do altar, levando sua cabeça e braços até o chão brevemente. Após essa reverência, diga:

"Reverência a Ti, Yinepu
Aquele que Julga os Corações
Eu me coloco ao chão em admiração
Aceite minha veneração sincera
Pois estou livre de impurezas
E abençoado por Ti, não tenho fraquezas."

   Faça o Henu novamente, e diga:

"Abridor de Caminhos,
Aquele Sobre a Montanha,
O Embalsamador,
O Grande Chacal,
Aquele que Habita as Câmaras dos Embalsamados,
O Envolto em Bandagens,
Eu te saúdo."

   Agora, você deve oferecer a pena ou a estátua de Ma'at. Essa é uma parte importante na ritualística egípcia, e deve ser realizada mesmo que você não participe do culto a esta divindade. Faça o henu de oferenda (braços estendidos para frente, com as palmas das mãos viradas para o teto) novamente, e diga:

"Eu me apresento a Ti,
E minhas mãos estão unidas sob Ma'at.
Ela está com você, pois Ela está em tudo
Eu sou provido com Ma'at,
Eu me movo em Ma'at,
Eu respiro em Ma'at,
Ma'at preenche meu corpo
Ma'at está em mim,
Ma'at está em Ti.
Eu ofereço Ma'at a Ti,
Em cântico ao Teu Ka,
Toda mentira é abolida."

   Se você tiver algum instrumento musical em mãos, toque-o. Você também pode cantar, cantarolar, bater palmas, ou tocar sinos. É um momento para música e dança. Oferte a Anúbis, sinta sua energia. Dance em volta do seu altar, celebre com a energia de Anúbis. 
   Quando sentir que é o momento de parar, abrace a estátua de Anúbis (ou sua representação), e enrole a fita vermelha em volta de seu pescoço. Diga:

"Tua beleza Te pertence, Chacal
Esteja adornado com Teu manto
E protegido de todos os Teus inimigos
Yinepu é Grande
Grande é meu amor por Yinepu
O Olho de Heru ascende, e Te protege
Ele protege Yinepu, ele guarda Yinepu
Ele faz Yinepu ascender e prosperar
O poder de Yinepu é o poder dobrado
O Olho de Heru a Ti foi dado
E Tua sagrada visão vai além do Duat¹."

¹:Duat é o nome dado ao submundo egípcio.

   Agora, prepare uma libação. Libação é o ato de oferecer líquidos aos deuses; verta água gelada na tigela vazia, e respingue na estátua ou imagem de Anúbis quatro vezes. Diga:

"Receba essa libação, Ó Yinepu
Eu trago a Ti água revigorante e fresca 
Bálsamo ao Embalsamador!"

   Umedeça o tecido branco na tigela com água, e lave a estátua. Se você estiver utilizando uma folha, toque de leve com o pano úmido, para não encharcar o papel. Ao terminar, passe o incenso em volta da estátua, dizendo:

"Puro, puro é Yinepu
Eu Te ofereço o aroma do Olho de Heru
O aroma do Olho de Heru inebria a Ti
Puro, puro é Yinepu
A Tua pureza é a pureza do Olho de Heru
A pureza do Olho de Heru é a Tua pureza
A pureza dos Netjeru é a Tua pureza
Yinepu é puro
É puro Yinepu
Puro é Yinepu
Yinepu é puro!"

   Unja a testa da estátua ou representação com o óleo, perfume ou colônia. Diga:

"Que este óleo em Tua testa Te alegre, Yinepu
Ó Abridor dos Caminhos
Eu Te preencho com o Olho de Heru,
Com esse óleo sagrado
Que ele renove Tuas forças, e Te adorne em nome de Wadjet
Que este aroma Te agrade
E que o Olho de Heru que é Sekhmet queime Teus inimigos
Abra os caminhos de Ra contra o mal."

   Faça a oferenda líquida, e se tiver outras oferendas, pode fazê-las agora também. Coloque junto da oferenda alimentícia feita anteriormente, e faça mais uma vez o henu de oferenda. Diga:

"Receba essa bebida, Yinepu
E prove o quanto ela é saborosa
Eu venho até Ti, Juiz dos Corações
Que essa bebida delicie Teu coração
E junto do alimento que oferto
Que seu Ka seja saciado através desse Olho de Heru
Receba essas oferendas, e que elas satisfaçam Teu coração a cada dia
Elevando as oferendas de Yinepu
Elevando provisões para Teu espírito
Teu pão pertence a Ti, Yinepu
Eu sou puro
Conceda a mim uma vida plena
Yinepu é puro!"

   Faça o henu de adoração mais uma vez, e saúde a Yinepu da forma como desejar. Você pode tocar um instrumento, ou um sino, antes e/ou durante o encantamento a seguir.

"Reverência a Ti, Yinepu
Senhor das Tumbas, Senhor das Chaves
Saudações a Ti, Que guarda Aset e Nepthys,
O Netjeru que guarda os mundos visíveis e invisíveis
Tu é Aquele que se estende a ambos
Yinepu é Grande!"

   Nesse momento, você pode entoar hinos em homenagem a Anúbis, ler textos ou poemas que enalteçam o deus, ou atividades similares em honra a Ele. Também é recomendado fazer uma oração, ou meditar. Se você tem algo para conversar ou pedir a Anúbis, é a hora de abrir seu coração. 
   Ao terminar, você pode consumir as oferendas. Caso queira, você pode falar logo antes de ingerir:

"Ó Guardião dos Portais
Heru volta ao seu Olho em nome da Reversão de Oferendas
Eu vim performar esse rito em Tua honra
E Tua honra abençoa a mim
Que essas oferendas tragam prosperidade
Assim como o Olho de Heru prospera eternamente em Ti."

   O ritual está chegando ao fim. Você pode fazer algum agradecimento se quiser. Ao sentir que é a hora, fique de frente para o altar e ande para trás, enquanto varre o chão. Não há necessidade de tocar o solo com a vassoura, pois é uma limpeza ritualística, como se você apagasse suas pegadas. Diga:

"Todo o alvoroço acaba aqui,
E todos os Netjeru estão em harmonia.
Eu dei a Yinepu o Olho de Heru
E nenhum mal entrará nesse templo
Meus inimigos recuam perante Tua presença
Teus inimigos recuam perante Tua presença
Yinepu é Grande
Grande é Yinepu
Meu amor por Yinepu é grande
Saudações do mais sincero amor
Em hotep, Yinepu."


Esse rito foi criado por mim e inspirado nesse ritual.

𓀃𓀊𓃣
   Alannyë Daeris

terça-feira, 11 de agosto de 2015

As Nove Virtudes Nórdicas


   O paganismo nórdico, conhecido como Ásatrú Vanatrú, é uma religião reconstrucionista que busca a conexão com o culto aos Deuses nórdicos antes da intervenção cristã. Esse culto constrói-se sobre um conjunto de nove virtudes, as quais devem ser observadas, seguidas e vividas no cotidiano dos pagãos que queiram honrar com suas atitudes os Deuses.
   Não é necessário ser um Asatruar para compreender e seguir essas nove virtudes, pois elas contemplam a todos os pagãos que desejam ter sua vida dedicada a cultuar e honrar os Deuses verdadeiramente.

☽❍☾

   ☾ Coragem.
   A coragem não refere-se somente às situações de batalha ou luta. É toda a ousadia de viver, de tomar a iniciativa, de fazer o que é certo, de não se curvar ou se submeter. Ter coragem é ter bravura de realizar o que é certo. 
   É preciso coragem para que todas as outras virtudes sejam realizadas, ou seja, a coragem é essencial para qualquer Asatruar. Com a coragem, há o conhecimento sobre os limites, medos, defeitos e qualidades; e assim, através desse conhecimento, pode-se ir mais longe e melhorar em todos os aspectos.

   ☾ Verdade.
   É a virtude de ser sincero, e honesto mesmo nos momentos mais difíceis ou complicados. Ser justo também encaixa-se nessa virtude, pois justiça é agir com verdade e com clareza. Ter uma palavra cujo valor seja reconhecido entre as pessoas e os Deuses é essencial; se você não é alguém honesto, quem poderá confiar em você? 

   ☾ Honra.
   Ser honrado é ter coragem de manter sua palavra, de conhecer a si mesmo e compreender seus defeitos e qualidades. Também está relacionado com ter a capacidade de respeitar o próximo, assim como respeita-se a si mesmo. É ser sincero, ter nobreza de caráter, agir com verdade e coragem - não mentir, e ter força para enfrentar as consequências.
  
   ☾ Lealdade.
   A principal força de um Asatruar é sua família, seu clã - que não necessariamente está diretamente ligado aos laços sanguíneos -, assim como os Deuses. Um pagão honrado presta sua lealdade aos Deuses, ao seu clã, suas crenças, suas tradições, bem como à si mesmo e à sua própria palavra. Sem lealdade, não existe honra, e vice-versa. Também está relacionada a não negligenciar as responsabilidades ou quebrar tratos e promessas.

   ☾ Disciplina.
   É o esforço necessário para atingir quaisquer que sejam seus objetivos. Sem disciplina, não pode haver qualquer outra virtude. Com ela, se tem foco, e pode-se obter os benefícios a longo prazo através do esforço e do sacrifício no momento atual.
   Essa virtude não aplica-se somente ao próprio Asatruar, mas também deve ser cobrada daqueles com os quais ele convive, para que todos possam ter os melhores resultados possíveis em tudo o que estiverem envolvidos.

   ☾ Hospitalidade.
   A hospitalidade tem consigo a verdade e a honra como base. É a capacidade de ajudar, de ser gentil e de compartilhar de boa vontade o que é seu para aqueles que tenham necessidade. Inclui ser um bom anfitrião, ajudar aqueles que precisam, ter atitudes sinceramente humildes e amigáveis para com os outros.
 
   ☾ Laboriosidade.
   Determinação, esforço para realizar o que é desejado. A laboriosidade depende da disciplina, bem como da coragem para que se faça o que for preciso em busca de obter o que se quer, seja algo material ou não. Trata de trabalho, empenho, e do orgulho pelo que se faz quando existe a dedicação.

   ☾ Independência/Autossuficiência.
   Inclui o auto-conhecimento necessário para que se tenha liberdade, para que se tome as rédeas da própria vida. É a não-dependência de ninguém, mesmo do próprio clã ou família, em nenhum sentido. 
   A autossuficiência também requer a capacidade de lidar com as consequências de suas atitudes, de haver disciplina, honra, laboriosidade, verdade e coragem para viver. Um Asatruar não culpa ninguém pelo que ocorre em sua vida, pois sabe que tudo são consequências ou acasos; portanto, a independência ajuda a lidar com os retornos que provém da liberdade.

   ☾ Perseverança.
   A coragem para persistir lutando pelo que se almeja. Força, coragem, foco nos objetivos, superação de limites e de restrições. Sem persistência, nada pode ser alcançado ou realizado; desistir não é uma opção enquanto exista a possibilidade de lutar.

A vivenciar a sabedoria dos Deuses,
   Alannyë Daeris Aiodunn.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Hino de Odin

Eu sou o ímpeto da guerra, o acender e a fagulha.
Sou os ânimos que se exaltam e se espalham em um campo de batalha.
O ribombar dos tambores, o bater dos machados nos escudos,
Sou o crocitar dos corvos, o olhar de Hugin e Munin através dos nove mundos.
Estou além da memória e do pensamento, pois trago a vitória ao sedento.
O sacrifício que emprego me atinge como os mais fortes ventos,
E cada gota do meu sangue é uma dádiva aos que testemunham.
O silêncio da Yggdrasil faz ecoar meu sofrimento,
Mas a sabedoria é válida sobre qualquer lamento.
Assim, uma vez mais eu perco uma parte de mim,
E meus olhares, embora limitados, têm o alcance dos corvos que me acompanham.
Eu sou o sangue que flui em seus desejos,
Sou a sabedoria que procuras através de ensejos.
Viva sob os nove virtudes, tenhas a nobreza em seu ser,
A coragem para que conheça a verdade;
Que, sobretudo, lhe norteiem a honra e a fidelidade
De manter sua palavra e os juramentos perante mim.
Seja a disciplina seu elemento de ordem,
A hospitalidade mantida para com os seus,
E a independência para com você mesmo.
Tenha a laboriosidade e a perseverança como guias,
E eu estarei ao seu lado até os últimos dias.
Lutaremos juntos, e nosso suor se misturará pelo abismo.
O medo deve ser domado, e o ódio, libertado.
Ouça minhas palavras, guerreiro, e saiba que não te abandono
Enquanto a Valknut, com orgulho, tu carregares contigo
Terei teu futuro no Valhalla para que festejes comigo.
Não temas o que não conheces; luta, e sacrifica-te, para que, tão logo, disso não esqueças:
Tudo o que puderes, domines, conquistes, e saibas. Conheças!
Como eu, por nove noites na Yggdrasil, estive sozinho
Em minha busca de sabedoria e de conhecimento, em nada permiti empecilhos.
E hoje desfruto do florescer de todo o meu empenho.
Faça-me de exemplo, e busque seu caminho
Pois, ao decorrer do mesmo, eu estarei contigo.
Sou Odin. Sou o ar pesado do conflito, e o silêncio agradável do estudo.
Sou a magia das runas, sou o conhecimento adquirido.
Sou quem lhe acompanhará em cada batalha,
E quem lhe apoiará ao quebrar todas as muralhas.
Estou contigo desde sua primeira luta até o último suspiro do Ragnarök.
Os bravos e corajosos viverão para sempre.

A lutar com honra em nome de Odin,
   Alannyë Daeris Aiodunn.

sábado, 9 de maio de 2015

Mito da Criação: Mitologia Asteca


   A mitologia asteca é uma das mais ricas e repletas de diferentes deidades, possuindo caráter politeísta. Existe uma enorme gama de deidades, também pelo fato de que o povo asteca incorporava aos seus cultos os Deuses de povos que eram conquistados.
   O mito de criação asteca possui diferentes versões, pois era transmitido de forma oral entre o povo, porém há um consenso sobre a história mais recorrente, que é a descrita no decorrer deste texto. É conhecida como "A Lenda do Quinto Sol".

   Haviam existido cinco eras de criação e destruição do mundo. Durante cada uma destas eras, diferentes deidades tiveram domínio sobre a terra, os quais foram destruídos e divididos entre outros inúmeros sóis - ou seja, alusão às estrelas e ao universo.
   Ometeotl, o criador do universo, era tanto macho quanto fêmea. Este deu à luz as quatro direções, personificadas como deidades: norte, sul, leste e oeste. Para criar os humanos, era necessário um sacrifício, e cada deidade sacrificou-se em nome de sua própria criação.
   O primeiro mundo foi criado por Tezcatlipoca, e era habitado somente por gigantes, mas acabou quando os gigantes foram devorado por onças.
   O segundo mundo, conhecido como mundo do sol, foi criado a partir do sacrifício de Quetzacoatl, e era povoado por seres humanos. Foi assolado por enchentes, furacões e catástrofes, e seus habitantes refugiaram-se em árvores, tornando-se macacos.
   O terceiro mundo era feito majoritariamente por água, e foi criado pelo deus Tlaloc. Os povos que habitavam este mundo comiam apenas sementes aquáticas, até que o deus Quetzacoatl fez chover fogo e cinzas sobre o mundo. Desta forma, os seres que não pereceram tornaram-se aves e outros animais.
   O quarto mundo foi criado por Chalchiuthlicue, irmã e esposa de Tlaloc. Também era repleto de água. Seu planeta foi destruído por enchentes, e todos os seres que o habitavam tornaram-se peixes e animais aquáticos.
   Após todos estes acontecimentos, os Deuses reuniram-se em Teotihuacán para definir finalmente quem se sacrificaria para criar o quinto mundo, que deveria prosperar. O deus Huehueteotl, senhor do fogo e da idade, acendeu uma grande fogueira cerimonial, para que o sacrifício fosse feito e o último mundo fosse criado. No entanto, nenhuma deidade possuía coragem de ofertar a si mesmo, e foi decidido por todos que a deidade que deveria sacrificar-se era Tecucitecatl. No momento de adentrar as chamas, este vacilou, e uma deidade de menor importância - Nanahuatzin -, conhecida por ser humilde e de poucos recursos, lançou-se na fogueira sem hesitar.
   Ao ver que Nanahuatzin havia sacrificado-se e se tornado o Deus-sol do quinto mundo, Tecucitecatl retoma a coragem e adentra a fogueira cerimonial, decidindo acompanhá-lo, tornando-se o Deus-Lua. Os Deuses reunidos sacrificam-se para criar a água preciosa, o elemento essencial para o sangue, e a vida é criada no quinto mundo - ou seja, a própria Terra. Por este motivo, os sacrifícios eram necessários: para honrar ao ato realizado pelos Deuses no momento da criação dos humanos, e também para manter os Deuses do Sol e da Lua em seu movimento essencial à vida.

A contemplar a criação,
   Alannyë Daeris Aiodunn.