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terça-feira, 26 de novembro de 2024

Resenha: Graeco-Egyptian Magic, de Tony Mierzwicki

   Sinopse (na língua original): Stemming from years of study, practice, and workshops, Graeco-Egyptian Magick outlines a daily practice involving planetary Hermeticism, drawn from the original texts and converted into a format that fits easily into the modern magician's practice. In Tony's own words: "As a magickal system, Graeco-Egyptian magick represents the last flowering of paganism before it was wiped out by the Christian juggernaut. It is a hybrid system that blended ancient Sumerian and Egyptian magick with the relatively more modern Greek and Judaic systems". A recreation of a planetary system of self-initiation using authentic Graeco-Egyptian magick, as practiced in Egypt during the first five centuries C.E. Including results of four years of workshops in the USA and Australia, this is a practical intermediate level text aimed at those who are serious about their spiritual development and already have grounding in basic spirituality, but beginners who carefully follow the instructions sequentially should not be deterred.

Ficha Técnica


   Autor: Tony Mierzwicki
   Ano: 2006
   Editora: Megalithica Books
   Páginas: 256

   Se você busca aprofundar seus estudos em práticas greco-egípcias como aquelas referidas nos Papiros Mágicos, foco de interesse de qualquer estudioso do ocultismo no contexto da Antiguidade, mas já compreende que um processo de adaptação e modernização se faz necessário para trazer tais conhecimentos para nossa realidade contemporânea... Basta dizer que essa obra de Tony Mierzwicki será um colírio para seus olhos, e uma ótima referência em sua jornada oculta. O autor desenvolve um sistema de magia planetária eficaz e elegante valendo-se principalmente do PGM (Sigla latina para "Papyri Graecae Magicae", ou em português, Papiros Gregos Mágicos), uma coletânea de textos egípcios do período Greco-Romano, abrangendo desde meados de 200 a.C. a 400 d.C., e que contém uma diversidade de fórmulas mágicas, rituais, encantamentos, amuletos e hinos. Em adição, também estabelece paralelos com as Katádesmoi - "Curse Tablets", ou "Placas de maldição" greco-romanas; com os Hinos Órficos e Homéricos; e apresenta citações de Cícero, Ptolomeu e comentários de época sobre suas obras, e trechos do Corpus Hermeticum.
   Esse sistema proposto possui um fundamento tradicional claro, visando uma reconstrução histórica de práticas mágico-espirituais, com intenções de se manter fidedigno às suas referências originais, unindo os campos da teurgia e da taumaturgia como os Antigos o faziam. Mierzwicki não busca conceitos mágicos modernos para tratar das práticas tradicionais, e sim, mergulha fundo em conceitos tradicionais para fundamentar a prática moderna - o que certamente o separa do frequente anacronismo atrelado a tantos autores contemporâneos de magia e ocultismo. Em suas explicações introdutórias, agradou-me muitíssimo sua sugestão ao leitor: esforçar-se em recriar a mentalidade dos magos greco-egípcios, estudando somente as referências que estariam disponíveis para eles na época, como textos e imagens sobre divindades e esferas planetárias limitando-se até o século IV a.C.
   Em aspecto literário, a escrita de Mierzwicki é elegante, contém simplicidade sem pender para a superficialidade, discorrendo sobre conceitos complexos de forma perfeitamente compreensível e fluida - a seriedade de suas pesquisas, felizmente, não produz uma obra sisuda, complexa, ou demasiadamente acadêmica, como frequentemente ocorre em outros livros nesse campo. Desde a introdução, torna-se evidente o propósito de oferecer um sistema mágico-espiritual autenticamente histórico e simples, de fácil implementação e condução individual (ou coletiva, se assim desejado), nos moldes de um passo-a-passo descomplicado para obter desenvolvimento pessoal e alcançar harmonia em todos os níveis: mental, emocional, material e espiritual. 
   O autor inclui um guia para auxiliar nas pronúncias de encantamentos, um fator relevante para a correta condução dos feitiços, e busca elucidar algo a respeito dos possíveis significados das expressões citadas. Oferece a tradução de textos herméticos e gnósticos, efetuando comparações entre esses pontos de vista, e categoriza as informações pertinentes em tabelas. 
   Alguns conhecimentos básicos são indicados para o melhor aproveitamento dessa obra, e são eles: meditação, visualização ativa e passiva, encantamentos (especificamente, o ato de proferi-los por meio de canto ou de vocalização harmônica), e um entendimento mínimo sobre astrologia e mitologia greco-egípcia. Portanto, recomendaria a leitura para quem já possui algum domínio sobre tais habilidades e saberes, ou disposição em desenvolvê-los paralelamente à execução do sistema de Mierzwicki. Cabe citar a ênfase dada pelo autor à importância de unir o estudo teórico e a prática, por suas características sinergísticas e complementares, e o fato de manter uma aproximação racional e responsável referente aos conhecimentos que compartilha.

A transitar pelas esferas,
   Alannyë Daeris

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Heka (feitiço egípcio) para Desordem e Fragilidade Mental e Física - Papiro Edwin Smith, Spell 5 (verso)

   Traduzi e adaptei o feitiço egípcio a seguir, encontrado no Papiro Edwin Smith, o mais antigo dos papiros médicos, referente ao Spell 5. Ele se destina a impedir e eliminar doenças e desequilíbrios causados por influência espiritual de entidades e espíritos malignos - sendo um dos poucos exemplos de abordagem mágico-religiosa nesse papiro medicinal, e por estar localizado no verso, é possível que esse e outros 7 feitiços sejam uma adição tardia e não-relacionada ao texto médico original. Para mais informações sobre muuetu e espíritos malignos, leia esse texto. Porém, mesmo que não seja o caso de uma enfermidade ou uma desordem causada por obsessores e espíritos, é possível realizar esse Heka adaptado na intenção de restaurar o equilíbrio da mente e do corpo, e diminuir o impacto de distúrbios emocionais na vida do indivíduo.
   O papiro indica quatro divindades para realização do Heka: Sekhmet, Bast, Wesir (Osíris) e Nehebkau. O texto sugere que todas estão presentes na prática, mas não vejo impedimentos ou contraindicações caso deseje invocar somente um, dois ou três dos Netjeru citados para abençoar o feitiço, por razões de afinidade ou preferência.
   Em minha adaptação, estruturei o Heka no formato usual com que compartilho feitiços embasados na Bruxaria moderna, e acresci instruções além das mencionadas no texto original, buscando auxiliar na contextualização dessa magia existente desde meados de 1600 a.E.C - que comporta as dinastias 16 e 17 do Segundo Período Intermediário do Egito. É indicado no papiro que o conteúdo é uma cópia de um encantamento anterior, algo comum em textos mágicos e medicinais durante toda a história do Egito, e determinados elementos linguísticos reforçam a origem mais antiga deste Heka.
   Como é costumeiro em encantamentos egípcios, há alusões textuais a conceitos mitológicos por vezes obscuros, incluindo associações de Netjeru (divindades) com circunstâncias negativas que o praticante de magia deseja evitar, vide relação estabelecida entre Sekhmet e o adoecimento do corpo e da mente, e entre Osíris e as vísceras que eram retiradas na ocasião do embalsamento dos falecidos.

Instruções para o Heka

Você precisará de:
• Um retângulo longo de tecido branco ou bege, se possível, feito de linho ou algodão. Tamanho sugerido: pelo menos 7cm de largura por 50cm de comprimento.
• A tinta sugerida no feitiço original é resina de mirra, mas você pode usar nanquim, canetinha, ou caneta permanente "sharpie". Preferencialmente, de cor preta.

   Prepare o ambiente e a si mesmo realizando uma prática de purificação de sua preferência, respire fundo e concentre-se. Convide as divindades que participarão desse Heka: Sekhmet, Bast, Osíris (Wesir), e/ou Nehebkau. Segure o tecido em mãos, faça o henu de oferenda estendendo ambas as mãos à sua frente com as palmas voltadas para cima - leia mais sobre os gestos ritualísticos keméticos. Em seguida, escreva os nomes das divindades em hieróglifos em um dos lados do tecido; ou, se preferir explorar mais seus dotes artísticos, é possível desenhar os Deuses à mão livre. Para referência, demonstro a seguir os nomes hieroglíficos de todos os quatro Netjeru citados, somente uma dentre as muitas possíveis versões da escrita de cada Nome.


   Do outro lado do tecido, o encantamento a ser escrito:

"A proteção da vida de Neith está ao meu redor, dela que está acima daquele que escapou da semeadora. Bast é repelida da casa do homem."

   Assim que terminar de escrever, fale o seguinte encantamento enquanto segura a tira de tecido inscrita de ambos os lados:

"Histeria, histeria, você não possuirá minha mente ou meu coração para Sekhmet. Você não tomará meu fígado para Osiris, e as coisas ocultas em Buto não entrarão em meu trono na manhã da contagem do Olho de Hórus. Qualquer espírito masculino ou feminino, qualquer falecido ou falecida (muuet e muutet), sejam na forma de animais, sejam de quem os crocodilos se apoderaram ou quem a serpente mordeu, aqueles condenados à faca, ou que morreram em sua cama, e as entidades malignas da noite, sejam obliterados por esse Heka. Afastem-se permanentemente, nunca retornem, em nome de (Netjeru escolhido). Hórus, que está são apesar de Sekhmet, vigia ao redor da minha carne por toda a vida."

   Coloque o tecido ao redor de seu pescoço, podendo amarrá-lo para que permaneça no local, ou utilizar um broche ou alfinete para essa finalidade. Use com intenção quando sentir a necessidade de espairecer a mente, reforçar sua vitalidade, acalmar os ânimos, encontrar equilíbrio e harmonia a nível físico, mental ou emocional. Esse amuleto tem validade indeterminada, podendo ser mantido em seu altar ou guardado para reutilizações futuras. Recomendo repetir o encantamento verbal nas ocasiões em que emprega o amuleto de tecido novamente.

Fontes
- Wilson, J. A. (1952). A note on the Edwin Smith surgical papyrus. Journal of Near Eastern Studies, 11(1), 76-80.
- Ancient Egyptian Medical Texts, World History Encyclopedia. Acesso em 02/03/2024.

A atar as forças da desordem,
   Alannyë Daeris 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Feitiço 95 do Livro dos Mortos - Para estar na presença de Thoth

   O Livro dos Mortos (no inglês, Book of the Dead, ou em tradução mais aproximada do título egípcio original r(ꜣ)w n(y)w prt m hrw(w), "Book of Coming Forth by Day") é uma coletânea de textos funerários geralmente inscritos em papiros, que abrange um período entre 1550 b.C e 50 b.C, ou seja, desde o início do Novo Império até o Período Romano. Tais textos mortuários possuem uma característica mágico-religiosa, servindo para guiar e auxiliar uma jornada segura no submundo, garantindo a chegada do falecido no julgamento de sua alma, e o subsequente renascimento para a vida eterna.
   Apesar de ser popularmente referido como um livro, não há um cânone ou seleção específica de textos que compunham o Livro dos Mortos, pois os feitiços (spells) e ilustrações (vignettes) escolhidos variam bastante nos exemplares conhecidos. Sendo assim, o trabalho de enumerar e organizar os textos recaiu sobre os pesquisadores da modernidade, não devendo ser levado ao pé da letra como uma ordem fixa e rígida dos feitiços, que pareciam ser escolhidos a dedo pelos egípcios que requisitavam sua produção aos escribas, conforme as percepções pessoais de quais seriam os encantamentos mais úteis na jornada que realizariam pelo pós-vida.
   Nesse texto, além de uma brevíssima introdução sobre o Livro dos Mortos, me proponho a traduzir e apresentar um dos encantamentos que mais me cativa dentre a numerosa seleção de textos dessa coletânea: um feitiço com a finalidade de estar na presença de Thoth. Uma parte fundamental das práticas mágico-religiosas egípcias (ou Heka) consiste nos encantamentos, ou seja, o poder da fala. É o caso do spell 95, composto por um encantamento e uma vignette ilustrativa do falecido, efetuando a magia. Importante notar que nos feitiços funerários, o operador da magia é equiparado a Osíris, fazendo alusão direta ao processo mitológico de vida, morte e renascimento desse Deus.

Vignette do Spell 95 do Livro dos Mortos de
Ramose. Datado entre os séculos 14-13 a.C. Fonte.

Feitiço para estar na presença de Thoth


Palavras ditas por Wesir (Osíris), supervisor dos arquivistas do Senhor das Duas Terras, (seu nome/nome do falecido), Justificado(a).

Ele diz: "Eu sou o terror na tempestade e o guardião da grande cobra em guerra. Eu ataquei com a faca e cinzas esfriam os oponentes para mim. Eu agi em defesa da grande cobra em batalha. Eu fortaleci a faca afiada em posse daquela afiada que está na mão de Khepri na tempestade. Eu sou o Osíris, supervisor dos arquivistas do Senhor das Duas Terras, (seu nome/nome do falecido), Justificado, em paz."

Notas complementares:

• Nos espaços entre parênteses, estava inserido o nome de Ramose, o dono desse exemplar do Livro dos Mortos. Sendo assim, deve ser substituído pelo nome do operador da magia, identificando-o como Osíris, o Justificado.
• Apesar de configurar como um feitiço funerário, é possível adaptar o feitiço para outras práticas mágico-religiosas que visem conexão com Thoth - seja por meio de invocação ou evocação.
• Pela observação da vignette que acompanha o texto, é sugerível que oferendas sejam efetuadas junto ao feitiço, como de costume em atividades devocionais. Além da evidente oferenda de uma flor de lótus-azul (Nymphaea nouchali var. caerulea) por Ramose, há um recipiente para líquidos possivelmente contendo cerveja ou água, e um item branco que se assemelha a um pão ou algum tipo de comida.

A colher lótus para o Benfeitor Universal,
   Alannyë Daeris

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Varinhas Egípcias - Apotropaicas e Mágicas

Birth tusks do Império Médio (de 1981 a 1640a.C.),
atualmente expostas no Met Museum.
   Dentro da magia praticada pelos egípcios na Antiguidade, um dos aspectos mais interessantes são as "varinhas mágicas", também chamadas de "birth tusks" ('presas de nascimento' em tradução livre). Eram confeccionadas a partir de presas de hipopótamo - e muito raramente de pedra sabão -, cortadas ao meio e inscritas com símbolos, imagens de deuses e espíritos ligados à defesa, e hieróglifos destinados a intensificar ou legitimar a proteção desejada - e eram confeccionadas de forma única, nenhuma varinha sendo igual à outra.
   O material tradicionalmente usado tem relação com a divindade hipopótamo Taweret, pois além da presa ser a arma mais mortífera do animal símbolo da deusa, esses mamíferos são criaturas poderosas e que defendem com ferocidade suas ninhadas. Taweret é a guardiã do lar, das mães, padroeira do nascimento e das crianças, portanto sua presença em entalhes e desenhos no corpo da varinha Apotropaicas (protetiva) era frequente. Nas presas que foram encontradas com inscrições, esses escritos sempre fazem referência à proteção de crianças ou mulheres.
   Essas varinhas são bastante comuns em tumbas entre o Império Médio até o Segundo Período Intermediário, com a finalidade de proteger os falecidos em sua viagem para o Duat (pós-vida), mas também eram usadas para a defesa contra influências malignas que pudessem perturbar a mãe ou o bebê no momento do parto - e portanto o nome "birth tusks", pois são presas de hipopótamo associadas ao nascimento. A morte era reconhecida pelos egípcios como um renascimento, portanto, é natural que as varinhas protetoras estivessem presentes em ambas as transições da existência humana - no parto e na morte, o despertar para a vida eterna.
Varinha do Império Médio,
consertada ainda na
antiguidade. EA24426
   Um detalhe importante é fato dessas varinhas apresentarem sinais de uso e desgaste por manuseio, o que indica que não eram apenas artefatos estáticos, e sim utilizados pelos praticantes de magia (Heka). Há exemplares que foram cuidadosamente remendados após se quebrarem, o que indica que eram valiosas para seus donos de alguma forma. Não se sabe qual o papel exato das varinhas mágicas protetoras nos rituais egípcios, mas se pode especular que eram usadas por meio de gestos e movimentos - como o ato de traçar um círculo em torno da parturiente - e que se tocava algo com uma das pontas, pois é comum um desgaste nesse local específico nas varinhas encontradas por arqueólogos.
   Existem poucas ilustrações desses objetos na arte egípcia, e nas que existem e foram relatadas, eles são vistos nas mãos de enfermeiras, o que confirma a impressão de que são usados no momento do nascimento. Porém, não se sabe se também havia alguma ritualística efetuada no falecimento, ou se eram apenas colocadas junto ao morto.
   Diversas divindades, entidades e animais são representados nas varinhas mágicas, em especial os que se relacionam com fertilidade, nascimento, proteção, e magia. Além da deusa Taweret, o deus Bes e Set estão frequentemente presentes em desenhos. Os animais incluem sapos, serpentes, chacais, hipopótamos, e gatos. Outros seres mitológicos incluem grifos e representações do disco solar alado.

Varinhas de Serpente


Exemplo 1 e 2, e exemplo 3.
   No período do Império Médio, um outro artefato similar se desenvolveu no Egito e compôs o inventário dos praticantes de magia. Porém, somando ao fato de serem muito mais raras, as varinhas de serpente parecem ter uma finalidade diferente daquela desempenhada pelas presas de nascimento citadas anteriormente. Também é incerto o uso prático desses artefatos, mas sem dúvidas eram itens ritualísticos.
   Essas "serpent wands" possuem relação simbólica com o Uraeus, cobra que o faraó carregava em sua coroa e simbolizava sua soberania e proteção; mas provavelmente são representativas da deusa Weret-Hekau, cujo nome significa "grande em magia" e favorece aqueles que a praticam. Os materiais usados na confecção dessas varinhas varia entre madeira e cobre, como é o caso dos exemplos arqueológicos das imagens acima.

Informações sobre as birth tusks em Magic in Ancient Egypt, de Geraldine Pinch
Maiores informações sobre as serpent wands em Through A Glass Darkly: Magic, Dreams and Prophesy in Ancient Egypt - cap. 11, pg 205-226.

A estabelecer intenções com potência,
   Alannyë Daeris.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Execração de Apep (Apophis)

   Execrações são práticas mágicas keméticas de grande popularidade no Egito Antigo, bastante similares a banimentos. Como já mencionei com mais profundidade em outro texto sobre execrações, elas podiam ser realizadas contra pessoas, povos inimigos, ou para combater A.p.e.p, sendo esse último o tema a ser tratado aqui.
   A.p.e.p*, cujo nome significa algo como "Grande Cobra", é a entidade kemética que caracteriza e personifica o mal, a injustiça e a desordem, conceito denominado "isfet", que por sua vez é o conceito oposto de "Ma'at", que unifica e representa o bem, a justiça e a ordem. O deus-sol Ra trava uma batalha eterna e diária contra A.p.e.p e suas forças malignas, que desejam destruir a criação e lançar trevas ao mundo. Ra viaja pelos céus em sua barca solar, e durante a noite quando adentra no submundo, é quando a serpente o ataca para impedir que ele siga sua viagem, e portanto, que o Sol nasça mais um dia.
   Na antiguidade, os sacerdotes de Ra realizavam as cerimônias de execração contra A.p.e.p diariamente, e haviam festivais e datas destinadas a observações públicas e privadas, ou seja, práticas individuais para banir isfet. Algumas das associações de Apophis (o nome grego para a serpente) são os acidentes, terremotos, trovões, a escuridão, tempestades, doenças e morte em geral. Era essencial que todos orassem, e fizessem execrações para auxiliar os Netjeru nessa luta constante, pois A.p.e.p se regenera durante o dia, enquanto Ra navega pelo firmamento iluminando os céus.

Ritual de Execração de A.p.e.p


Ra na forma de felino,
esfaqueando A.p.e.p.
   O ritual a seguir é relativamente extenso mas de simples execução, e pode ser adaptado de acordo com seu contexto e práticas pessoais. Se destina à execração de A.p.e.p em festivais, na Lua Nova ou Cheia, Wep Ronpet (Ano Novo Kemético), e outras ocorrências rotineiras, mas nada impede que seja aplicado para outros feitiços de execração em geral - como para se livrar de hábitos prejudiciais, de pessoas perigosas ou de situações negativas. Toda a estrutura e os encantamentos verbais foram baseados no ritual diário realizado pelos sacerdotes no templo de Amon-Ra em Karnak, que conhecemos na modernidade por meio do The Book of Overthrowing Apep (Livro de Derrubar Apep), presente no Papiro Bremner-Rhind.
   Embora a ritualística esteja diretamente relacionada com Ra, em especial por questões mitológicas, você pode substituí-Lo por qualquer divindade egípcia com a qual possua proximidade, sem qualquer obrigação de executar esse ritual de execração sempre com Amon-Ra. Todos os Netjeru são inimigos de A.p.e.p, e todos podem ser invocados na batalha contra ele. Outra opção, se preferir manter Ra em seu ritual, é incluir nos encantamentos falados algumas referências às divindades que também participarão, e acender uma vela para cada uma, lembrando-se de saudá-las adequadamente no início.

Você precisará de:
• Um objeto simbolizando A.p.e.p, que será destruído ritualisticamente. Sugestões em ordem de preferência: um vaso de cerâmica; uma plaquinha de argila já seca; uma vela vermelha; uma serpente de massinha de modelar vermelha; ou um pedaço de papel.
• Uma caneta, lápis ou canetinha vermelha.
• Um pedaço de barbante ou fita.
• Uma faca, punhal ou athame. Se não for um instrumento mágico propriamente consagrado por você, purifique antes do uso.
• Natron; ou misture uma colher de sopa de sal e outra de bicarbonato de sódio para recriar esse ingrediente de purificação.
• Água gelada e/ou outras oferendas de sua preferência.
• Uma vela branca ou de cor correspondente à divindade que participará do ritual. Para Ra, vela amarela ou laranja.
• Um caldeirão ou recipiente à prova de fogo.*
• Álcool para acender o caldeirão.*
• Uma tigela, copo ou recipiente com água, para diluir o natron.

*Esses materiais só são necessários se você optar por um material que pode ser queimado, como o pedaço de papel, a plaquinha de cerâmica, ou a vela vermelha (que dispensa o álcool).

Na Prática


   Organize os itens em seu altar, ou no espaço que reservou para o ritual. Certifique-se de que não haverão interferências, e concentre-se. Dilua o natron (ou o sal+bicarbonato) no recipiente com água, e aspirja o ambiente e a si mesmo, dizendo:

"Eu estou puro, eu sou puro, eu estou puro. A minha pureza é a pureza dos Netjeru."

   Acenda a vela e saúde a divindade que participará do seu ritual de execração - com um gesto de saudação como o henu, por exemplo. Faça as oferendas e dê início ao ritual como for de seu costume.
   Usando a caneta vermelha, escreva "Apep" no objeto que o simbolizará. Identifique o objeto como a serpente maligna que cria o caos e a destruição, relembre de todas as coisas ruins que existem no mundo e que são atribuídas a A.p.e.p, e transmita para o objeto seu ódio, rejeição, fúria. Coloque o objeto no chão e cuspa nele quatro vezes, dizendo:

"Seja cuspido, isso é feito por Ra e seu Ka.
Ra surge em poder, Ra surge em vitória.
Ra surge exaltado, Ra surge preparado.
Ra surge em júbilo, Ra surge em triunfo.
Venha para que eu possa esmagar seus inimigos,
Venha para que eu dilacere o Mau-Disposto para Si,
Para que eu dê louvores ao seu poderio,
Para que eu exalte todas as suas manifestações luminosas."

   Disponha o objeto no chão e diga o seguinte encantamento:

"Levanta-se, Ó Ra, e esmague seus inimigos, mortos ou vivos,
Expanda seu brilho, Ó Ra, pois seus inimigos estão caídos.
Comtemple, Ra tem poder sobre A.p.e.p,
Suas chamas ardem contra A.p.e.p"

   Pise quatro vezes sobre o objeto com o pé esquerdo, e continue a fala:

"Que seu fogo recaia sobre todos os inimigos.
Seja poderoso, Ó Ra, contra seu inimigo!
Louvado seja, louvado seja, louvado seja"

   Pise mais quatro vezes, ainda com o pé esquerdo. Agora, amarre o barbante ou fita ao redor do objeto, dando nós firmes. Recite:

"Aqueles que devem estar atados estão atados,
Apep, o inimigo de Ra, está amarrado,
Que você não saiba o que lhe é feito, Apep.
Vire suas costas, há testemunhos contra si.
Cuidado, você que está atado,
Você está amarrado por Heru,
Você está acorrentado por Ra,
Você não deve se levantar,
Você está condenado por Ra."

   Com a faca em mãos, dê golpes, facadas e estocadas no objeto, enquanto recita o encantamento abaixo. Se o material escolhido por você foi o pote de cerâmica, quebre-o (jogando no chão ou usando um martelo) antes de começar a "esfaqueá-lo".

"Aprese, aprese, aprese, Ó Açougueiro,
Derrube o inimigo de Ra com sua faca,
Essa é a sua cabeça, Apep,
Cortada pelo sacerdote-guerreiro com sua faca,
Seja fatiado em pedaços pela sua maldade,
Seja fatiado por tudo que você fez,
Seja punido de acordo com o mal cometido.
Ra é triunfante sobre você,
E Heru o deixa cortado."

   A etapa a seguir deve ser realizada apenas se for escolhido um material queimável, como a vela vermelha, o pedaço de papel, ou a plaquinha de cerâmica. Coloque o objeto representante de A.p.e.p dentro do caldeirão e adicione bem pouquinho de álcool, tomando as devidas precauções (exceto no caso da vela, que deve ser acendida). Fale:

"Fogo esteja em si, A.p.e.p, inimigo de Ra.
Que o Olho de Heru tenha poder sobre a alma e a sombra de A.p.e.p,
Que a chama do Olho de Heru devore o inimigo de Ra."

   Ateie o fogo e diga:

"Seja completamente cuspido sobre, A.p.e.p,
Vá embora, se afaste, rasteje para longe, saia daqui!
Eu atei seus braços, eu lhe cortei,
 e Ra é triunfante sobre você, A.p.e.p.
(cuspa 4x sobre o objeto no caldeirão)
Vá para trás, seja aniquilado!
Verdadeiramente o queimei,
Verdadeiramente o destruí,
O condenei a todo mal,
Para que seja aniquilado,
Para que seja cuspido,
Para que seja completamente não-existente."

   Aguarde até que as chamas se extingam sozinhas, e não se preocupe se o objeto não for destruído, pois não faz diferença se restar alguma coisa.

   Independente do material escolhido, você pode prosseguir e incrementar o ritual como for de sua preferência. Quando for o momento de encerrar o ritual, aspirja o natron no ambiente e em si mesmo. Diga:

"Todo alvoroço acaba aqui, A.p.e.p está abolido,
E todos os Netjeru estão em harmonia.
O inimigo de Ra foi aniquilado, atado e atacado,
E nenhum mal entrará nesse templo,
Todos os inimigos recuam perante minha presença.
Louvado seja, louvado seja, louvado seja."

   Afaste-se do altar sem virar as costas, despeça-se das divindades invocadas, e faça um henu. Só então aproxime-se novamente e apague as velas, termine de organizar o altar. Os restos devem ser transferidos para uma sacola plástica e, se possível, levados até um lixo longe da sua residência.

Obs.: O nome de A.p.e.p está escrito no texto dessa forma incomum por questões religiosas, para execrá-lo na escrita assim como os egípcios o faziam em seus papiros. A tinta de cor vermelha, que simboliza tanto a vida quanto o mal e a destruição, era usada sempre que o nome de A.p.e.p era escrito, como uma medida de proteção e de ataque. Na modernidade, as rasuras servem o mesmo propósito.

FAULKNER, R. O. The Bremner-Rhind Papyrus - III. The Book of Overthrowing Apep. The Journal of Egyptian Archaeology, Vol. 23, No. 2 (Dec., 1937), pp. 166-185

A execrar definitivamente o inimigo de Ra, 
   Alannyë Daeris.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Resenha: Ancient Egyptian Magical Texts, de J. F. Borghouts

   Sinopse (na língua original): Now back in print after 25 years: A small but unusually exhaustive collection of magical texts from some of the most important ancient Egyptian manuals and stelae, translated and organized by the renowned Dutch Egyptologist J.F. Borghouts. Translations are helpfully annotated and indexed, and Borghouts has provided a succinct overview of Egyptian magic in his Introduction. Readers with Egyptian will find it easy to follow the references to the primary editions.

Ficha Técnica


   Autor: J. F. Borghouts
   Ano: 1978 (1° ed), 1997
   Editora: Brill Academy Pub
   Páginas: 125

   Uma leitura enxuta mas de grande valor para keméticos, magistas e todos aqueles interessados em magia egípcia (heka) ou antiga num geral. Nessas páginas estão traduzidos e organizados numerosos feitiços e encantamentos falados de vários períodos da civilização egípcia, angariados de manuais, papiros e estelas.
   Ainda que uma grande parte dos propósitos para os feitiços não seja relevante nos dias atuais (como os para afastar cobras, proteger contra animais em geral, ou para curar determinadas doenças), a compilação de receitas mágicas do Egito faraônico fornece uma perspectiva legítima e interessantíssima de como os antigos egípcios praticavam suas artes ocultas.
   É considerado um livro raro e pode ser difícil ou custoso de obter um exemplar físico. Se você espera um manual detalhado e estruturado aos moldes dos livros modernos de magia, saiba que esse livro não atenderá a essas expectativas. Mas se você busca exemplos de feitiços para entender como era efetuada a magia egípcia indo direto na fonte, esteja preparado para recepcionar o conteúdo com uma mente aberta e ávida por investigar mais a fundo.
   Todos os feitiços contam com preciosas referências para que os leitores possam se aprofundar e saber onde encontrar mais informações, portanto nesse aspecto se prova uma aquisição útil para quem se interessa de fato por Kemetismo e Heka, e deseja ir além.

A harmonizar intento e voz,
   Alannyë Daeris.