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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Resenha: A Magia no Mundo Greco-Romano, de Henri Hubert

   Sinopse: O sétimo volume da coleção Biblioteca Durkheimiana traz o estudo monográfico de Henri Hubert sobre a magia na Antiguidade clássica, em edição bilíngue francês/português acompanhada de estudos de especialistas e anexos que ampliam o alcance da obra. A Magia no Mundo Greco-romano foi publicado originalmente como verbete de um dicionário em 1902, e nele Hubert procura entender o que é a magia e como se manifestou na Antiguidade clássica, a partir de ampla documentação e da análise de fontes não textuais, como as representações picturais, os amuletos e as esculturas as mais variadas. O verbete tornou-se referência obrigatória sobre o tema no âmbito francófono logo após sua publicação, observa o organizador e tradutor da obra Rafael Faraco Benthien. A obra compõe um retrato preciso acerca de tudo o que se sabia sobre a documentação mágica antiga no início do século XX.

Ficha Técnica


   Autor: Henri Hubert
   Ano: 2021 (publicado originalmente em 1902)
   Editora: EdUSP
   Páginas: 280
   
   Essa obra, que originalmente se destinava a compor o verbete de "Magia" em um dicionário sobre o mundo Greco-Romano, é um verdadeiro compilado de referências históricas, e conta com uma extensa bibliografia consultada, o que denota o amplo conhecimento do autor acerca do tema - muitas dessas referências remontam ao período da Antiguidade ou mais tardio, e raramente dispõem de uma tradução para o inglês (grande parte dos títulos citados nas notas de rodapé estão em latim, alemão ou francês).
   A linguagem pode se mostrar densa e cansativa em certos momentos, e a quantidade massiva de notas com as fontes bibliográficas torna a leitura um processo significativamente mais complexo caso você queira conferir quais são as obras referidas, ou se há algum raro comentário. Essa é uma versão bilíngue, com as páginas à esquerda no idioma francês, e as páginas à direita traduzidas para o português, mas meu progresso ainda assim foi vagaroso e desafiador.
   Há muitas informações interessantes, e o respaldo arqueológico e histórico de Henri Hubert - apesar de tornar a leitura laboriosa - confere convicção e factualidade ao texto, deixando pouco espaço para dúvidas quanto à veracidade do que está sendo tratado. É um tratado descritivo sobre a magia com fundamentos sólidos, que mesmo dispondo de poucas páginas considerando a extensão do tema, consegue explicar suas diversas nuances, a relação com a religião, e o que a caracteriza.
   A percepção do autor sobre alguns aspectos da magia e religiosidade pode ser percebida em determinadas passagens, e reflete o contexto histórico e o pensamento mais conservador da época em que estava inserido - uma compreensão acerca disso deve impedir pequenas frustrações ou incômodos em leitores que, assim como eu, tenham uma relação pessoal com os temas abordados. Mas num geral, o extenso embasamento bibliográfico deixa pouco espaço para opiniões pessoais ou visões tendenciosas, sendo um verbete verídico e bem elaborado, ainda que relativamente arcaico, a respeito da magia no mundo Greco-Romano.

A adicionar pilhas de referências às futuras leituras,
   Alannyë Daeris.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Resenha: Religio Romana Handbook, de Lucius Vitellius Triarius

   Sinopse (na língua original): The Religio Romana Handbook: A Guide for the Modern Practitioner, 2nd Edition, is the first volume in the series, "The Modern Roman Living Series," by Lucius Vitellius Triarius. It is a guide for the practitioner of the cultus deorum Romanum, the ancient Roman religious system as practiced in the modern time. Not a congregational religion, the cultus deorum Romanum is a religious system based on individual practices, household and ancestor worship, and religion of the state.
This work is a compilation of writings, articles, opinions and beliefs from many practitioners of the Religio Romana in Nova Roma, the global Roman Reconstruction effort in our modern age. It has been compiled to assist those interested in learning more about the cultus deorum Romanum and related Roman culture, both ancient and modern, and has been designed to be of practical use by the religio practitioner and reference guide for the non-practitioner.
Unlike the ancient Greek belief system, the ancient Romans believed that achieving peace and harmony in society required maintaining a positive relationship with the gods and goddesses by all to achieve that equilibrium, as the gods and goddesses walked among us daily. Each person was responsible for doing their part, whatever that part was. If you are new to the religion or a seasoned practitioner, this handbook provides you with detailed information on most aspects of the religio on how you can begin participating the global movement to bring much needed sense and balance to our modern world.

Ficha Técnica


   Autor: Lucius Vitellius Triarius
   Ano: 2013
   Editora: -
   Páginas: 273

   Li, reli e continuo retornando a essa obra há meses para consultar seus fundamentos, e compreender melhor os alicerces dessa religião que admiro e tenho orgulho em dizer que é onde minha ancestralidade tem suas raízes. Se você tem interesse em reviver ou conhecer o culto moderno ideal dentro do paganismo romano, embasado em aspectos tradicionais e sólidos, essa obra é uma leitura obrigatória! É perfeita para dar os primeiros passos, e igualmente apropriada para se aprofundar com seriedade nos conceitos e práticas reconstrucionistas da Religio Romana.
   Religio Romana Handbook é o guia mais completo que conheço sobre a conexão cotidiana com os Deuses e as crenças antigas do Império, e inclui não apenas o panorama histórico para introduzir os leitores ao que é o reconstrucionismo romano, mas também orações, sugestões de rituais e atividades para os festivais e para o culto doméstico, instruções de como montar seu lararium (altar) e os instrumentos necessários, sacrifícios e oferendas dentro do paganismo antigo e atual, tabelas de correspondências, e uma lista bem extensa de divindades do panteão, acompanhada de detalhes sobre cada uma delas.
   Um dentre os vários pontos que considerei muito positivos são as citações em latim, sempre acompanhando a tradução correspondente em inglês, e também as referências clássicas e indicações de leituras para quem, assim como eu, aprecia explorar as fontes usadas pelos autores, ainda mais quando se tratam de obras do passado. São mais de 570 referências apresentadas na bibliografia! Até o glossário de termos latinos no final é incrível, e sozinho consegue ser capaz de elucidar sobre diferentes facetas do pensamento e filosofia romana sobre a própria religião, acrescentando imensamente para nós que buscamos reintegrar a pietas como virtude pessoal.
   Vi algumas críticas ao autor por compilar nesse livro algumas informações disponíveis no site Nova Roma, mas dou muito crédito ao autor pelo esforço em organizar tudo, em especial quando o resultado se mostra uma obra muito clara, concisa e descomplicada, que fornece detalhes adicionais valiosos e até reflexões muito inspiradoras.

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Quer complementar suas práticas com ingredientes artesanais consagrados?
Edição de fevereiro da Revista A Folha da Íbis já disponível no site!

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A honrar os Lares,
   Alannyë Daeris.

sábado, 29 de agosto de 2020

Introdução à Bibliomancia

   A bibliomancia é uma prática divinatória extremamente tradicional no ocultismo e em outras manifestações religiosas pelo mundo, mas cuja utilização parece ter diminuído muito nos tempos modernos devido à acessibilidade de outros métodos de previsão do futuro, como o próprio Tarot que se tornou muito popular no comércio.
   Na Roma Antiga, havia a prática de sortes, ou "sortilégios", e algumas das atividades divinatórias se especializavam em sortes Homericum, sortes Virgillianae e sortes Sanctorum, usando respectivamente os textos de Homero (Ilíada e Odisseia), Virgílio (Aeneid), e da Bíblia. Na Idade Média, essa tradição continuou, e os sortilégios citados acima se tornaram ainda mais populares.
   O termo "bibliomancia" abrange várias técnicas diferentes para obter informações de livros, e pode ser sinônimo de:
- Stichomancia ("stichos" = linha, verso): divinação a partir de versos ou linhas escolhidas aleatoriamente em páginas de livros.
- Rapsodomancia ("rhapsode" = poema, canção, ode): divinação a partir da leitura de uma passagem aleatória de um poema.
- Chartomancia ("charta" = papel): divinação a partir de cartas, manuscritos, documentos, ou papéis soltos em geral. Lembra "cartomancia", pois os baralhos são imagens impressas em papel... ainda que configurem técnicas divinatórias muito diferentes na realidade.

Divinação com Livros na Prática


   Podemos detalhar o processo geral de uma previsão bibliomântica nos quatro seguintes passos:

1. Escolher o livro "sagrado", ou mais adequado para a questão. Qualquer livro que você sinta que possa servir para a prática serve, e se for uma obra importante pra você, melhor ainda. Com o tempo, você desenvolverá seu senso crítico e intuitivo, e a escolha do livro tenderá a se tornar muito mais fácil. Mas também há a possibilidade de escolher o livro aleatoriamente.

2. Determinar a página que será usada para a obtenção da previsão. De preferência, quando for abrir na página, esteja de olhos fechados. É normal que uma oração ou que sua questão seja falada em voz alta antes de determinar a página. Algumas sugestões de métodos:
• Apoie o livro na lombada (onde tem a costura) e deixe que se abra sozinho. Se você prefere métodos tradicionais, esse é o mais indicado, pois é assim que a bibliomancia era feita nos tempos clássicos e medievais. Funciona melhor com livros de capa dura.
• Esvazie a mente e abra de qualquer jeito, sem pensar. Esse método não é tão recomendado pois podemos influenciar sem querer na hora de abrir.
• Jogue dados para determinar o número da página; a quantidade de dados depende do tamanho do livro. Esse é só um exemplo para obter números aleatórios, mas se você tiver outro de sua preferência, como um gerador de números no computador, pode usar também.

3. Escolher a frase intuitivamente. Aqui há três métodos para você escolher:
• De olhos fechados, use o dedo indicador para apontar para o livro, e só então abra os olhos. A frase que seu dedo estiver indicando é resposta para sua questão.
• Abra os olhos e "bata o olho" em uma frase. Não desvie o olhar, a primeira frase que lhe chamar atenção é a que responderá sua questão.
• Jogue um marcador para determinar aleatoriamente a frase; pode ser um cristal pequeno, uma semente, uma pedrinha, enfim. Escolha um objeto pequeno para evitar confusões quando ele cair sobre o livro, e lembre-se de purificar e consagrar antes do uso.
   
4. Interpretar a mensagem. O último passo pode ser também o mais complicado, mas tenha paciência e confie no que sua intuição lhe diz. Não leve a frase ao pé da letra, e saiba que o contexto específico envolvendo a questão deve ser levado em consideração.

Considerações Finais


   Há vários meios de aprimorar ou incrementar a experiência de consultar os livros para prever o futuro ou buscar orientações espirituais. Prepare o ambiente e a si próprio como de costume, usando os instrumentos que mais lhe agradam. Incensos, velas, músicas, cristais e outros objetos podem ser incluídos para elevar a energia do ambiente e facilitar o acesso à intuição. Se possível, purifique o livro antes de utilizá-lo para a divinação, para evitar que energias acumuladas influenciem negativamente na leitura.
   Se você dispõe de livros sobre temas específicos, pode utilizá-los para previsões direcionadas. Por exemplo, caso queira descobrir qual a erva que mais lhe auxiliaria em dado momento ou situação, use uma enciclopédia botânica. O mesmo serve para grimórios ou livros das sombras pessoais, desde que contenham várias páginas de anotações. E como em outras práticas divinatórias, a prática leva a um entendimento muito mais avançado e íntimo desse método, abrindo os horizontes do oraculista para novas possibilidades.

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A consultar os livros,
   Alannyë Daeris.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Ornitomancia, parte 1 - Augúrios Tradicionais na Religio Romana

   A ornitomancia, ou divinação com aves, é uma prática divinatória que existe desde que existe divinação como ato mágico e intencional - afinal, pássaros eram, e ainda são, vistos como mensageiros divinos, capazes de fazer a conexão entre a terra e os céus, ou seja, mundano e divino.
   Por sua existência generalizada nos povos da antiguidade, esse tipo de divinação ocorreu de forma muito particular em cada cultura ou religião. Os gregos a praticavam desde tempos primordiais, pois aparece em vasos arcaicos e é citada por Hesíodo e Homero. Tribos Indígenas norte-americanas, druidas célticos, até entre os mesopotâmios há relatos de divinação envolvendo aves. Mas foi na espiritualidade do povo romano que essa arte se aperfeiçoou em muitos níveis, recebendo um local de destaque na estrutura social e religiosa do Império. Portanto, começaremos os estudos na ótica tradicional da Religio Romana, antes de partirmos para a ornitomancia moderna.
   Antes da fundação da cidade em si, já haviam sacerdotes denominados augurs, que "praticavam os auspícios" através da observação de aves. Nas Tábuas de Iguvine (que datam do terceiro século antes de Cristo), há inscritos religiosos que apresentam, dentre outras práticas, a da ornitomancia nas tribos latinas. A própria lenda de criação de Roma é baseada em um augúrio, no qual Romulus e Remus atuam como os augurs.
   O termo "auspicium" se referencia ao processo técnico da divinação, e o termo "augurium" se referencia à interpretação, a ação favorecida pelos deuses, o aconselhamento resultado da divinação. Existiam inclusive colégios sacerdotais dedicados a supervisionar essa atividade, que tinha papel central em grande parte das decisões públicas e privadas tomadas na sociedade romana - por exemplo, assuntos de guerra, comércio, e religião. No entanto, os augúrios romanos também eram praticados com outros animais ou fenômenos da natureza, e nesse texto manteremos o foco na divinação com aves e pássaros.
   Para os romanos, apenas algumas espécies de pássaros indicavam sinais divinatórios, e essas eram denominadas aves augurales. A mensagem varia de acordo com a espécie observada. Tradicionalmente, alguns dos pássaros incluíam: corvos, pica-paus, corujas, urubus, e águias. Havia uma hierarquia de importância também, com alguns pássaros representando sinais menos relevantes em relação a outros.
   Os sinais podiam ocorrer naturalmente, por vontade dos deuses (oblativa), ou podiam ser requisitados pelo sacerdote (imperativa). No caso dos avibus auspicia, os auspícios de aves, eram subdivididos em duas categorias:

• Alites, do vôo. Incluíam a região do céu em que o pássaro estava (pois os sacerdotes delimitavam quadrantes no céu), altura e tipo de vôo, comportamento das aves e local onde possa ter parado para descansar.
• Oscines, da voz. Incluíam o timbre, volume e direção do som. O tipo de chamado também tinha grande impacto no augúrio.

   Para a divinação imperativa, ou seja, requisitada pelos homens, primeiro se fazia a delimitação do espaço ritualístico (templum), que deveria ser quadrado e ter apenas uma entrada, e em seguida a purificação do ambiente. Depois, o augur se virava de frente para a direção Sul e fazia a enunciação de pedido de augúrio, sob rigoroso silêncio durante todo o processo.
   Há um protótipo para requisição de augúrio descrito na inauguração do rei Numa Pompilius, que dita que o sacerdote (augur) pergunta para a divindade: "Se for da justiça divina que certa coisa seja feita, mande-me um sinal", e então fala o auspicia que deseja ver, ou seja, o pássaro ou movimento que confirma a mensagem esperada. Assim que a confirmação é observada, o rei é coroado.
   Cícero também relata uma divinação por ornitomancia na história de Attius Navius, que serve como um ótimo direcionamento, ainda que simples,  para a prática da ornitomancia: "Ele havia nascido em uma família muito pobre. Um dia, perdeu um de seus porcos. Prometeu aos deuses que se o encontrasse, ofertaria a eles as maiores uvas de seu parreiral. Depois de recuperar o porco, ele ficou de pé no meio do seu vinhedo, de frente para o sul. Dividiu o céu em quatro seções e observou os pássaros: quando eles apareceram, ele andou naquela direção e encontrou uma uva extraordinariamente grande, que ofertou aos deuses. Sua história ficou imediatamente famosa, e se tornou o augur do rei. Portanto, é considerado o patrono dos augurs."
   A interpretação dos sinais era muito vasta e complexa, por vezes gerando sentimentos muito fortes nos sacerdotes quando indicavam mensagens negativas. Nesse caso, havia muitas técnicas aceitas oficialmente para evitar o augúrio, e negar a previsão. Entretanto, se tornaram fonte de manipulações e fraudes quando usadas por pessoas que desejavam alterar decisões públicas, ou que afetavam outros indivíduos. Algumas delas incluíam recomeçar do zero o processo de divinação, recusar com um gesto de mãos, evitar olhar para o auspício, alegar que pode ter havido um erro, declarar que não aconteceu, ou insinuar que os outros não prestaram atenção. Obviamente, essas técnicas devem permanecer no passado, onde nem mesmo deveriam ter existido!

Muitas informações do livro "De Divinatione", de Cicero.
Muitas informações daqui.
Algumas informações daqui.

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A dar amor ao meu filho de penas,
   Alannyë Daeris.

sábado, 2 de maio de 2020

Genius Loci - Os Espíritos da Terra, Guardiões dos Lugares

Afresco romano do Templo de Isis, em Pompeia, feito antes de 79 d.C. Está atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fonte da imagem, editada pela autora.
Afresco na Casa do Centenário em Pompeia,
acima da lararia, circa 50 d.C. Ao fundo, o
deus Baco ao lado do Monte Vesúvio; abaixo,
a cobra que representa o Genius Loci se
aproximando do altar para trazer sua
prosperidade e abundância. Fonte.
   Na tradição romana clássica, um Genius Loci (plural Genii locorum) é um espírito protetor, atrelado a algum lugar. Esse conceito parte de um princípio animista, se referindo à terra e aos espíritos do lugar como o próprio espírito da terra; no animismo, há a crença de que tudo possui alma, então o Genius Loci é essa alma associada com lugares e fenômenos geográficos.
   Por costume, esse espírito era representado em estátuas e pinturas como uma pessoa segurando uma cornucópia, uma tigela para libações (patera), ou uma cobra, como na imagem ao lado. A cobra tinha uma grande importância na representação de genii, e quase sempre estava presente. A simbologia vem do fato que a serpente é um animal da terra, que rasteja; representava a prosperidade e a abundância para os romanos, e também indicava o intelecto da casa, ou do dono do lar. Em casas de casais, duas cobras eram pintadas no altar. Em Pompeia, há um afresco que mostra um homem profanando um local sagrado, e duas cobras o atacando - ou seja, a cobra era capaz de proteger a pureza dos seus espaços sagrados. Locais importantes como vulcões ou rios também possuíam seus próprios genii locorum. Para os romanos, era muito importante agradecer apropriadamente os genii locorum por bençãos concedidas, e por sua existência.

Afresco romano no lararium da casa de Iulius
Polybius em Pompeia. As duas figuras ao lado
são os Lares, ao centro está o Genius loci, e
a cobra-genius se enrolando no altar também
indica a prosperidade e o intelecto na casa.
Fonte.
   As tropas provinciais de Roma expandiram a ideia de genii representando o Estado em si; por exemplo, na Britânia (província que ficou sob domínio dos romanos de 43 - 410 d.C), foram encontrados altares para os genii de Roma, Roma Aeterna (Eterna), Britannia, e além disso, haviam genii específicos para cada legião, coorte, ala e centúria do exército romano. Não parando por aí, eram erigidos altares também para o praetorum (tenda do general em um castrum, castellum ou acampamento militar) e para os vexillationes, destacamentos temporários de pessoal para lidar com situações de emergência.
   Sob a liderança de Augustus, foi criado um culto doméstico ao Genius do próprio imperador, que era realizado juntamente à nume (numen) da casa, e divindades cultuadas pelo grupo familiar. Nesse contexto, surge o culto imperial, no qual o povo prestava culto ao Genius do imperador em vez da pessoa em si. As dedicatórias inscritas em homenagem aos genii locorum não estava resumida somente ao exército e ao imperador, pois na área que correspondeu à Gália Cisalpina sob o domínio do império, foram encontrados numerosos altares em nome dos genii de autoridades, e pessoas respeitadas num sentido geral.
Genius romano desconhecido,
encontrado em Boscoreale, 
próximo a Pompeia, do
primeiro século a.C. Fonte.
   Em adição ao "genius principis" do imperador, haviam altares aos genii de patronos de homens livres, oficiais, camponeses, donos de escravos, membros de guildas, vilas, outras divindades, parentes e amigos. Até mesmo casais podiam ter suas dedicatórias, e nesse caso, era cunhado "Para o Genius e Juno", sendo Juno o termo aplicado para um espírito feminino/de uma mulher.
   Por fim, sobrevivem da época do império centenas de dedicatórias e inscrições votivas ou sepulcrais, encontradas em praticamente toda a área do Império Romano. Portanto, é atestado que houve de fato um culto muito importante e popular cercando os genii. As frases principais eram abreviadas, como por exemplo:

• GPR ou GENIOPR - genio populi Romani - Ao genius do povo Romano.
• GHL - genio huius loci - Ao genius do lugar, da casa, do ambiente.
• GDN - genio domini noster - Ao genius do nosso mestre.

   Muitas outras culturas possuíam a crença em espíritos da terra, relacionados com lugares, rios, montanhas, florestas ou aldeias, ainda que levem outros nomes e sejam vistos com diferenças de modo folclórico. Na mitologia nórdica, por exemplo, há os Landvættir, que são espíritos diretamente associados com a terra, e agem como guardiões, assim como o Genius Loci romano. Para os nórdicos - tanto na antiguidade quanto ainda nos dias de hoje em áreas na Islândia -, a prosperidade da terra depende dos Landvættir, portanto são tratados com imenso respeito e reverência. Estão geralmente ligados a rochedos ou pedregulhos grandes e bonitos. 
   No Japão, há os kami, que são espíritos ou fenômenos que são cultuados na religião de Shinto. Podem ser elementos de lugares naturais, forças da natureza, ou entidades que expressam as qualidades de locais, bem como espíritos de pessoas falecidas locais que eram veneradas.
   Em certas culturas, esses espíritos assumem qualidades faéricas. Na Escandinávia, há os hustomten, ou "gnomos da casa", que podem ser considerados um tipo de Genius Loci. Eles são noturnos, tímidos e medem menos de 1 metro, mas raramente são vistos, ainda que frequentemente sejam percebidos com os sentidos. Eles servem à fazenda, e não aos moradores dela, mas se forem bem tratados, podem fazer milagres muito benéficos, como curar os animais de enfermidades da noite para o dia, ou dobrar os resultados da colheita. Porém, podiam ser muito vingativos se desrespeitados, punindo severamente os camponeses com suas capacidades sobrenaturais. Ofertavam-lhes uma tigela de mingau de aveia, ou leite, biscoitos e manteiga, para expressar gratidão pelo seu esforço.
   Em um contexto moderno, o Genius Loci não necessariamente é um espírito guardião, mas pode ser considerado apenas o espírito do local, seja uma casa ou um local público, natural ou artificial. Muitas vezes é percebido apenas como a energia do ambiente, um conjunto de sensações associados com aquele espaço em particular. Pode ser um pouco complicado acessar os espíritos de certos locais e bairros, principalmente em áreas que foram muito modificadas pelo homem.
   Os genii locorum refletem as características mundanas dos lugares, então áreas perigosas, violentas ou com muita negatividade em geral, sempre resultarão em espiritos imprevisíveis e mais complicados de lidar. Mas o espírito está à mercê de mudar e evoluir com o tempo, especialmente para refletir mudanças que aconteceram no plano material. 

Conhecendo o Genius Loci do seu Lar


   Sim, a sua casa possui um Genius Loci, e você pode conhecer e trabalhar com esse espírito se quiser! Isso pode ser feito de várias maneiras, mas algumas ideias bem simples para se aproximar são:
• Oferte libações ou oferendas alimentícias ocasionalmente. Separe uma pequena quantia das refeições que você prepara em casa e deixe no altar para ele, por exemplo.
• Acenda uma vela branca ou verde e oferte para o Genius Loci. Chame por ele, e diga que quer honrá-lo e conhecê-lo.
• Faça uma oração sincera e agradeça a ele por sua existência - pode ser feito antes de refeições, ao limpar a casa, quando você estiver cuidando e fazendo a manutenção do seu lar.
• Medite com o espírito, e veja o que ele tem para lhe dizer.
• Comunique-se através de oráculos.
• Acenda incensos para honrá-lo.
• Crie uma representação artística do espírito e pendure em sua sala, cozinha, ou decore seu altar.
• Decore sua casa com objetos bonitos e simbólicos. Mantenha tudo limpo e organizado sempre que possível.
• Num futuro próximo, publicarei uma sugestão de ritual para evocação de genii locorum.

Duas representações artísticas do mesmo
altar em homenagem ao Genius Loci.
Encontrado na Britânia (atual Maryland
- Inglaterra), e data do século 2 ou 3 d.C.
A inscrição diz: "Ao Genius do lugar,
à Fortuna Portadora da Casa (Fortuna
Redux), à Roma Eterna, e ao Bom Destino,
Gaius  Cornelius Peregrinus, tribuna da
coorte, decurião de sua cidade natal de
Saldae na província de Mauretania
Caesariensis, de bom grado, de boa
vontade e merecidamente cumpriu seu
juramento. Que você viva muito, Volantius.
"
Fonte.
   Assim como era feito pelos romanos, você pode honrar o Genius Loci de sua casa com imagens que o representem em seu altar, oferendas honestas e orações, poemas ou canções. Você não precisa fazer um altar somente para o espírito (como é o caso do altar ao lado, dedicado para um Genius Loci), mas é interessante acrescentá-lo de alguma maneira no seu altar já existente para que também seja honrado. 
   Sempre que for purificar ou proteger sua casa de alguma maneira - especialmente com wards (barreiras energéticas), feitiços muito potentes ou com energias pesadas -, tente se comunicar com o Genius Loci do seu lar e informar a ele o que está sendo feito. Se você não tem muita intimidade com ele, não precisa pedir auxílio, mas peça permissão para realizar a atividade mágica. Faça uma oferenda a ele ao final, e reafirme que as atividades mágicas são feitas pensando no melhor para seu lar e para você, enfim. 
   Você pode conversar e meditar com o espírito da sua casa da maneira que preferir, e na frequência que mais for confortável para você. Acenda velas de vez em quando, ou oferte bebidas e comidas que achar apropriadas. O melhor é sempre tentar perguntar diretamente para o espírito o que ele gosta e como é a melhor maneira de trabalhar com ele, pois cada Genius Loci possui uma personalidade única, influenciada pela energia do lugar ao qual está conectado. 
   Lembre-se que um Genius Loci é um espírito, e espíritos podem se comunicar de muitas formas além de palavras. Fique atento para os sinais, e confie na sua intuição. Se acontecer alguma dúvida, pergunte diretamente para o espírito em meditação ou ao consultar algum método divinatório. Eles podem lhe avisar em sonhos ou de outras formas os tipos de desarmonia na sua residência e como resolver, indicar ataques mágicos que você recebeu ou foram impedidos de lhe atingir, e outras bençãos despercebidas se tornarão ocasionais.

Se Reconectando com os Genii Locorum locais!


   Escolha um local natural que você goste e fique próximo de sua casa. Pode ser seu pátio dos fundos, ou uma praça próxima. Quando estiver lá, leve uma vela verde, acenda, e saúde o Genius Loci do lugar. Respire fundo, e permita-se limpar sua mente, sentindo-se conectado e enraizado com o chão sob seus pés.
   Expresse seus sentimentos para o espírito do lugar, informando a ele seu desejo de se conectar e honrá-los. Pode ser que ninguém responda, e leve algumas tentativas antes de você receber algum retorno. Diva de antemão que o espírito pode aparecer com diferentes aparências, seja como um animal, ser humano, ou algo diferente. Para reforçar seu compromisso e demonstrar interesse, você pode ir até o local algumas vezes e fazer as seguintes atividades:

• Colete lixo que você vê nesse local ou em outras áreas da sua cidade. Leve uma sacola plástica e luvas com você na mochila ou no carro, e certifique-se de juntar algumas embalagens ou garrafas sempre que sair. Essa é uma maneira muito efetiva de mostrar aos espíritos da terra que você se importa.
• Plante flores e ervas que ajudem os animais polinizadores. Mas ter plantas em sua casa no geral já é ótimo, especialmente se forem nativas da sua região.
• Faça apenas oferendas biodegradáveis ou que não poluam o ambiente. Uma sugestão é ofertar água e fertilizantes orgânicos (de preferência líquidos) para os Genius Loci; mas atente para as outras oferendas que você faz na natureza também! Como você espera que os espíritos naturais se conectem com você, quando você polui o ambiente ativamente?
• Opte por comprar produtos orgânicos em feiras de pequenos produtores locais, para evitar consumir alimentos contaminados com agrotóxicos. Embora não seja uma atitude diretamente relacionada com os Genius Loci, você estará ajudando o meio ambiente e cuidando do seu organismo e da sua família.
• Estude sobre folclore local, aprenda mais sobre os animais e plantas nativos, esteja alerta às frutas da estação, conecte-se de alguma forma com a natureza que lhe cerca. 

   Uma ideia muito boa e efetiva para trabalhar com os Genius Loci é traçar um perfil desses espíritos e os lugares aos quais estão conectados. Para criar o perfil, você pesquisará a geografia local, a fauna e a flora do lugar, os acontecimentos históricos que possam ter se passado ali, enfim. Você também pode descobrir sobre as tribos pagãs que habitaram esse lugar antes da colonização e suas crenças, pois isso pode trazer um entendimento sobre a energia natural do ambiente e as práticas mágicas que eram realizadas ali. Ao conhecer os animais e plantas, você já tem acesso a uma grande gama de simbolismos e correspondências mágicas para trabalhar com o espírito e a energia do local. Para conseguir uma imagem atualizada de qualquer área no mundo, você pode usar o Google Earth. Você pode usar as próprias coordenadas exatas na magia, por exemplo, ao escrever em um papel para usar como taglock (link mágico com o espírito). Aqui há mais informações e um exemplo detalhado de uma criação de perfil de Genius Loci em inglês.
   Quando você estiver mais acostumado a lidar com esses espíritos, tente visitar outros locais interessantes de sua região, especialmente aqueles que sejam famosos por serem sagrados ou históricos. Busque conhecer esses espíritos, e aprender mais sobre a natureza e a espiritualidade através deles. Observe a arquitetura, as cores e a vibe do lugar, e deixe que sua percepção lhe mostre as correlações. 
   E seja respeitoso, especialmente com os espíritos de locais que você somente vai para visitar. Sempre que retirar uma pedra, uma flor, ou um galho de algum lugar, agradeça, faça uma oferenda simples, nem que seja de água. Nenhum espírito é obrigado a lhe ajudar, portanto, seja gentil e respeitoso antes mesmo de pedir por alguma coisa, para garantir um bom relacionamento e evitar problemas futuros por ingratidão e prepotência.

 Algumas informações gerais daqui.
Algumas informações daqui.
Informações do folclore escandinavo daqui.

A trocar experiências com as personificações dos lugares,
   Alannyë Daeris.