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sábado, 30 de agosto de 2025

Resenha: Il Grande Libro delle Sibille, de Irene Angelini

   Resenha (no idioma original): Il mondo delle Sibille è molto eterogeneo, i mazzi si differenziano non solo per i simboli e i significati ma persino per il numero di carte da cui sono composti; ciò ha impedito, di fatto, che l’uso e il simbolismo delle Sibille fosse trattato in modo completo ed esaustivo. Spesso, infatti, tutto ciò che si ha a disposizione per iniziare lo studio di un nuovo mazzo sono quei libriccini che lo accompagnano nei quali si trovano a stento le parole chiave associate a ciascuna carta e una o due stese divinatorie scritte frettolosamente. Il Grande Libro delle Sibille è il risultato di anni di studio e di pratica. Irene Angelini ha voluto riunire in questo libro, oltre alle nozioni storiche e culturali che è riuscita a reperire negli anni, anche gli esercizi e le strategie che le hanno permesso, di avanzare nella conoscenza della cartomanzia. Il saggio descrive i significati di nove dei mazzi di Sibille più famosi e usati, soffermandosi, anche sugli aspetti storici, simbolici e persino estetici. È descritta in modo esteso la Sibilla dei Saloni, famoso e raffinato mazzo francese di 52 carte. Inoltre presenta diversi esercizi per allenare l’intuito e la “seconda vista”.

Ficha Técnica 


   Autora: Irene Angelini
   Ano: 2022
   Editora: Libraio Editore
   Páginas: 360

   Esta publicação recente é um colírio para os olhos dos apaixonados pela cartomancia tradicional - desenvolvida na Europa entre o séc. XVIII e o início do séc. XX -, os baralhos de Sibillas italianas, francesas, germânicas; decks históricos como o Sola Busca, Tarô de Mantegna, Grand Etteilla, e outros oráculos pertencentes à mesma tradição, como o Biedermeier e o Lenormand. Irene Angelini discorre sobre a origem e autoria desses baralhos e muitos outros, pontuando as principais diferenças entre tais baralhos e as Sibillas. O livro é ricamente ilustrado a cores com as cartas relatadas no texto, e traz também outras gravuras relacionadas ao tema.
   Até o presente momento, não há outra referência literária mais completa sobre a tradição sibillina, o contexto histórico que abarca o desenvolvimento desses oráculos específicos, juntamente ao seu simbolismo e significados. Por experiência própria ao pesquisar sobre o assunto, que abarca uma vastidão incomensurável por tratar de muitas dezenas de baralhos (vários deles obscuros e dos quais só nos restam as cartas, nem sempre completas), e pelo quão difícil é encontrar referências consistentes e informações detalhadas sobre eles, afirmo com veemência que a autora desempenhou um ótimo trabalho de pesquisa para compor essa obra. Caso você queira começar a desbravar a história da cartomancia com as Sibillas, faça de Il Grande Libro delle Sibille seu ponto de partida!
   Além de apresentar e discursar sobre mais de dez baralhos no capítulo incipiente, Irene dedica o segundo capítulo para elucidar sobre a prática da cartomancia, com exercícios de respiração e meditação, e outras instruções pertinentes para estabelecer uma relação com as cartas, incluindo associações instintivas e significados pessoais. O terceiro capítulo se inicia com a explanação de cuidados espirituais comuns entre cartomantes, como a purificação e consagração do deck, o uso de incensos ou defumadores, e a ritualística da consulta oracular. Subsequente a isso, são apresentadas várias tiradas interessantes para uso com as Sibillas, e alguns exemplos de jogos.
   No quarto capítulo, a Sibilla dos Salões, também conhecida como Sibilla Francesa, é detalhada com profundidade. Há uma ilustração grande de cada uma das cartas, e as duas páginas de texto relatam o que esses emblemas podem representar, seus significados oraculares e conselhos para a posição normal e invertida, e alguns apontamentos sobre combinações. Este é oráculo que possui um estudo mais aprofundado no livro, visto que a Sibilla Francesa foi um marco na tradição sibillina, e pode servir de referência para a compreensão das outras sibillas, em termos gerais. 
   Por fim, no quinto capítulo, oito baralhos são detalhados com gravuras integrais de todas as cartas e significados oraculares sucintos para a leitura. Vale mencionar os exemplares, que são: o Il Libro del Destino, o Petit Lenormand, o L'Oracolo Romantico, a "Sibilla Gitana" (um deck estilo Biedermeier alemão de J. C. Jegel, 1870) e que possui provérbios para a posição normal e invertida, a Antica Sibilla Italiana, a Sibilla Originale ou Vera Sibilla Italiana, a La Sibilla della Fortuna, e o L'Oracolo del Danubio. Uma lista de combinações de naipes e valores numéricos aplicáveis a todas as Sibillas que possuem tal associação (ex.: quatro ases, duas rainhas, dois setes) encerra o conteúdo.
   No que se refere à barreira da linguagem, é válido mencionar que não sou falante do idioma italiano, apenas consigo compreender o básico ao ler e ouvir; visando facilitar o entendimento, optei por utilizar o aplicativo Google Lens no celular para fotografar as páginas e traduzir o conteúdo, o que permitiu uma leitura descomplicada. Pelo pouco que posso julgar da escrita, acredito que sua linguagem seja dotada de clareza e objetividade, sendo mesmo um exemplar que pode apetecer a curiosos e estudiosos sobre sibillas, ou cartomancia em geral. Caso você esteja buscando especificamente uma fonte introdutória para aprender a Sibilla Francesa - Sibilla dos Salões, considere incluir Il Grande Libro delle Sibile na sua lista de leitura, pois um total de 116 páginas dele (equivalente a um terço!) são dedicadas a esse deck. Para mim, decerto será um material de apoio que revisarei esporadicamente ao longo dos anos vindouros.

A exorar por mais literatura sibillina,
   Alannyë Daeris.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Resenha - A Ciência dos Magos, de Papus

   Sinopse: Publicado na França em 1892, este pequeno compêndio do conhecimento esotérico está fundamentado na obra de grandes mestres ocultistas da Antiguidade e, sobretudo, da Renascença, como Cornelius Agrippa, Jacob Boehme, Paracelso e Robert Fludd. Nos antigos santuários ocultistas, onde era ensinada a ciência desses sábios, o estudo e o manejo das forças astrais constituíam parte do saber transmitido pelos alquimistas e místicos do passado.
   Em contraposição ao materialismo científico do século XIX, Papus defende essa antiga ciência, resignificando o papel da espiritualidade na vida humana. À medida que o cientificismo moderno era cético quanto às forças que interligam o microcosmo, o macrocosmo e o mundo divino, o autor mostra que há uma conexão íntima e eterna entre o homem, a natureza e Deus.

Ficha Técnica


   Autor: Papus (Gérard Anaclet Vincent Encausse)
   Ano: 1892 (publicação original), 2022 (edição brasileira)
   Editora: Ajna
   Páginas: 160

   Logo de início, é digno prestar elogios ao trabalho da editora Ajna, pela publicação desse livro inédito no Brasil - mesmo se passando em torno de 130 anos desde sua publicação original, esse ensaio estupendo não havia sido traduzido e lançado para o público brasileiro até então. Acredito que o autor dispense introduções, sendo um dos grandes nomes do ocultismo moderno, cuja produção literária foi e continua sendo referência ainda hoje no âmbito das artes mágicas.
   O propósito de Papus ao longo dessa obra é esclarecer conceitos básicos e estruturais a respeito do ocultismo, desmistificando e elucidando questões pertinentes para neófitos e interessados no campo esotérico. Considerado por muitos como uma ótima introdução às ciências ocultas, expondo as leis astrais, a relação entre o microcosmo e o macrocosmo, o corpo astral e sua interação com os planos sutis, dentre outros temas pertinentes para a compreensão teórica do esoterismo contemporâneo. Destarte, Papus visa argumentar contra o materialismo científico e ceticismo intelectual que predominava no século XIX, empregando um linguajar objetivo, racional e técnico na exposição de suas ideias metafísicas.
   Note que este livro não se propõe a ensinar práticas de magia, mas sim, os fundamentos que viabilizam e constituem as forças e manifestações astrais, bem como suas interações com a matéria. É um escrito sucinto, didático, com um linguajar fluido e descomplicado, como se lecionasse para um querido aluno - apesar do teor complexo e abstrato de certos temas presentes nesse tratado, Papus se atém a sintetizar tais conceitos sem maiores enredamentos ou digressões. Portanto, a extensão do texto é curta, mas seria mais apropriado o uso do termo "compacto", pois agrega conhecimentos preciosos definidos sem qualquer prolixidade.

A rever bases e conceitos,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Resenha: Graeco-Egyptian Magic, de Tony Mierzwicki

   Sinopse (na língua original): Stemming from years of study, practice, and workshops, Graeco-Egyptian Magick outlines a daily practice involving planetary Hermeticism, drawn from the original texts and converted into a format that fits easily into the modern magician's practice. In Tony's own words: "As a magickal system, Graeco-Egyptian magick represents the last flowering of paganism before it was wiped out by the Christian juggernaut. It is a hybrid system that blended ancient Sumerian and Egyptian magick with the relatively more modern Greek and Judaic systems". A recreation of a planetary system of self-initiation using authentic Graeco-Egyptian magick, as practiced in Egypt during the first five centuries C.E. Including results of four years of workshops in the USA and Australia, this is a practical intermediate level text aimed at those who are serious about their spiritual development and already have grounding in basic spirituality, but beginners who carefully follow the instructions sequentially should not be deterred.

Ficha Técnica


   Autor: Tony Mierzwicki
   Ano: 2006
   Editora: Megalithica Books
   Páginas: 256

   Se você busca aprofundar seus estudos em práticas greco-egípcias como aquelas referidas nos Papiros Mágicos, foco de interesse de qualquer estudioso do ocultismo no contexto da Antiguidade, mas já compreende que um processo de adaptação e modernização se faz necessário para trazer tais conhecimentos para nossa realidade contemporânea... Basta dizer que essa obra de Tony Mierzwicki será um colírio para seus olhos, e uma ótima referência em sua jornada oculta. O autor desenvolve um sistema de magia planetária eficaz e elegante valendo-se principalmente do PGM (Sigla latina para "Papyri Graecae Magicae", ou em português, Papiros Gregos Mágicos), uma coletânea de textos egípcios do período Greco-Romano, abrangendo desde meados de 200 a.C. a 400 d.C., e que contém uma diversidade de fórmulas mágicas, rituais, encantamentos, amuletos e hinos. Em adição, também estabelece paralelos com as Katádesmoi - "Curse Tablets", ou "Placas de maldição" greco-romanas; com os Hinos Órficos e Homéricos; e apresenta citações de Cícero, Ptolomeu e comentários de época sobre suas obras, e trechos do Corpus Hermeticum.
   Esse sistema proposto possui um fundamento tradicional claro, visando uma reconstrução histórica de práticas mágico-espirituais, com intenções de se manter fidedigno às suas referências originais, unindo os campos da teurgia e da taumaturgia como os Antigos o faziam. Mierzwicki não busca conceitos mágicos modernos para tratar das práticas tradicionais, e sim, mergulha fundo em conceitos tradicionais para fundamentar a prática moderna - o que certamente o separa do frequente anacronismo atrelado a tantos autores contemporâneos de magia e ocultismo. Em suas explicações introdutórias, agradou-me muitíssimo sua sugestão ao leitor: esforçar-se em recriar a mentalidade dos magos greco-egípcios, estudando somente as referências que estariam disponíveis para eles na época, como textos e imagens sobre divindades e esferas planetárias limitando-se até o século IV a.C.
   Em aspecto literário, a escrita de Mierzwicki é elegante, contém simplicidade sem pender para a superficialidade, discorrendo sobre conceitos complexos de forma perfeitamente compreensível e fluida - a seriedade de suas pesquisas, felizmente, não produz uma obra sisuda, complexa, ou demasiadamente acadêmica, como frequentemente ocorre em outros livros nesse campo. Desde a introdução, torna-se evidente o propósito de oferecer um sistema mágico-espiritual autenticamente histórico e simples, de fácil implementação e condução individual (ou coletiva, se assim desejado), nos moldes de um passo-a-passo descomplicado para obter desenvolvimento pessoal e alcançar harmonia em todos os níveis: mental, emocional, material e espiritual. 
   O autor inclui um guia para auxiliar nas pronúncias de encantamentos, um fator relevante para a correta condução dos feitiços, e busca elucidar algo a respeito dos possíveis significados das expressões citadas. Oferece a tradução de textos herméticos e gnósticos, efetuando comparações entre esses pontos de vista, e categoriza as informações pertinentes em tabelas. 
   Alguns conhecimentos básicos são indicados para o melhor aproveitamento dessa obra, e são eles: meditação, visualização ativa e passiva, encantamentos (especificamente, o ato de proferi-los por meio de canto ou de vocalização harmônica), e um entendimento mínimo sobre astrologia e mitologia greco-egípcia. Portanto, recomendaria a leitura para quem já possui algum domínio sobre tais habilidades e saberes, ou disposição em desenvolvê-los paralelamente à execução do sistema de Mierzwicki. Cabe citar a ênfase dada pelo autor à importância de unir o estudo teórico e a prática, por suas características sinergísticas e complementares, e o fato de manter uma aproximação racional e responsável referente aos conhecimentos que compartilha.

A transitar pelas esferas,
   Alannyë Daeris

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Resenha: Thoth, The Hermes of Egypt - Patrick Boylan

   Sinopse (na língua original): The title of the essay has been chosen partly to suggest from the beginning an important and intelligible aspect of Thoth to the general reader, and partly to remind the student that a god who, at first sight, might seem to be a divinity of purely Egyptian importance, was, nevertheless, associated with such a widely flowing current of ancient thought as the speculation of the Hermetic writings.

Ficha Técnica


   Autor: Patrick Boylan
   Ano: 1922
   Editora: Oxford University Press
   Páginas: 226


   Publicado há mais de um século, Thoth, The Hermes of Egypt segue sendo a melhor e mais completa obra de referência acadêmica para o estudo acerca do Senhor dos Hieróglifos e Escriba Divino. O autor se concentra no Egito Dinástico, e apesar do que o título pode sugerir, há pouca menção aos sincretismos e manifestações posteriores de Thoth como Hermes Trismegistus no período Greco-Romano. Boa parte das fontes textuais pertencem ao período Ptolomaico, e para averiguar o pensamento teológico de períodos mais antigos, os Pyramid Texts (Textos das Pirâmides) foram empregados, bem como algumas citações relevantes do Book of the Dead (Livro dos Mortos).
   Dividido em capítulos que exploram diferentes aspectos de Thoth, como seu nome, a participação nos mitos Osirianos, sua relação com as Enéadas e como representante de Ra na Barca Solar, seus símbolos, sua importância como autor dos hieróglifos, suas características como Criador, o papel que desempenha na magia e no Ritual Egípcio, seus templos e locais de culto, os epítetos atribuídos, associações com outros deuses, dentre outros assuntos, realizando um exame completo das atribuições e conceitos que permeavam a relação dos egípcios com Thoth.
   Considero essa obra suficientemente acessível para leitores que não estejam acostumados com a linguagem mais acadêmica da área da egiptologia - ainda que o idioma seja uma barreira para falantes exclusivos da língua portuguesa, visto que não há uma tradução do inglês até a data da publicação dessa resenha. Entretanto, não havendo uma fonte melhor de estudos para tais conhecimentos básicos sobre Thoth, o esforço para desvendar esse livro é certamente recompensador. Para quem gosta de hieróglifos acompanhados de suas traduções, inclusive no caso dos epítetos, encontrará citações desse tipo em abundância nessa publicação - e elas são contextualizadas por meio de explicações sobre a dimensão mito-simbólica dos elementos presentes, e as relações estabelecidas com outras passagens e crenças da teologia egípcia.
   Desde o primeiro capítulo, que aborda os nomes de Thoth, encontramos uma quantia valiosa de notas de rodapé e fontes para aprofundamento dos estudos; contudo, infelizmente, uma boa parte dessas referências são obras em outras línguas estrangeiras, como o alemão e francês, que somam uma grande fatia dos estudos publicados sobre Egiptologia na virada do século XIX para XX - e na atualidade, muitas dessas referências são difíceis de localizar ou acessar. Felizmente, outras notas do autor ocupam um espaço significativo das páginas em determinados momentos, e agregam informações relevantes adicionais (ou teorias) sobre o assunto tratado no texto, o que pontua de forma muito positiva na minha opinião.
   Não importa a origem do seu interesse sobre Thoth - se é uma relação pessoal e devocional, ou apenas uma simples curiosidade por esse deus egípcio tão especial... Você terminará a leitura versado na multidimensionalidade de Thoth como uma divindade soberana, reverenciada com louvor e importância desde períodos antigos na história do Egito, atrelada a papéis teológicos de grande relevância. É um exemplar enxuto em extensão de páginas (entre 215-228pg de acordo com a edição) se considerarmos a profundidade do conhecimento genuíno que contém, embasado consistentemente nas fontes originais registradas por escribas e sacerdotes ao longo dos séculos.

A empregar as palavras em amor ao Residente na Biblioteca,
   Alannyë Daeris

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Resenha: Myth and Symbol in Ancient Egypt, de R. T. Rundle Clark

   Sinopse (na língua original): This classic study remains the best single introduction to the Egyptian mythological world. The Egyptians lived apart from the rest of the ancient world and it is this isolation that makes their ideas so difficult to appreciate and interpret. Egyptian though was presented in terms of mythology: myth was used to convey insights into the workings of nature and the ultimately indescribable realities of the soul.

Ficha Técnica


   Autor: Robert Thomas Rundle Clark
   Ano: 1959
   Editora: Thames and Hudson
   Páginas: 292

   Essa é uma das leituras recomendadas pela Kemetic Orthodoxy (Ortodoxia Kemética) e configura uma verdadeira jornada pela mitologia e simbologia egípcia, detalhando-a do início ao fim. Dividido em capítulos que elucidam a natureza das divindades, suas relações entre si por meio dos mitos, e o pensamento egípcio por trás desses conceitos, Myth and Symbol in Ancient Egypt é um livro obrigatório para se aprofundar nos mistérios do Nilo.
   É uma obra instigante e encantadora, não somente pelos temas que aborda de forma exímia, mas também por elucidar as transformações ocorridas no entendimento egípcio acerca de divindades e aspectos mitológicos, apresentando e aprofundando os principais mitos keméticos e as personagens divinas que os compõem. Uma fonte de estudos e pesquisas valiosíssima, pois ilustra visual e textualmente os assuntos abordados em cada capítulo - incluindo passagens que são extraídas de livros keméticos importantísimos, como os Textos das Pirâmides e Livro dos Mortos -, com trechos que são descritos em detalhes pelo autor, trazendo diferentes perspectivas sobre os conceitos-chaves neles contidos.
   Myth and Symbol conta com 18 fotogravuras em preto e branco, 40 desenhos de cenas em traços vazados, uma tabela com símbolos religiosos, e um mapa dos centros de culto na terra das Pirâmides. Seus capítulos passam por uma tabela cronológica do Egito, os Deuses e o esquema mitológico, os conceitos de divino ao longo da história, mitos sobre as principais divindades e alguns símbolos importantes dentro da religiosidade kemética.
   Como uma introdução ou contextualização do panorama religioso do Antigo Egito, serve perfeitamente ao seu propósito. Pode ser considerada uma obra tanto datada devido à sua idade, com nomes de divindades que caíram em desuso (Ma'at como "Mayet"), e algumas afirmações que hoje são compreendidas de forma diferente - como ocorre com a própria não-linearidade do pensamento mito-religioso egípcio -, mas isso não é um impedimento para sua apreciação, pois a grande parcela das informações que compartilha seguem válidas e consistentes na Egiptologia ainda hoje, e é baixa a margem de obsolescência do seu conteúdo.

A corujar com adoração as Aves do Céu,
   Alannyë Daeris

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Resenha: Ancient Egyptian Magic, de Bob Brier

   Resenha: Ancient Egyptian Magic is the first authoritative modern work on the occult practices that pervaded all aspects of life in ancient Egypt. Based on fascinating archaeological discoveries, it includes everything from how to write your name in hieroglyphs to the proper way to bury a king, as well as:
- Tools and training of magicians
- Interpreting dreams
- Ancient remedies for headaches, cataracts, and indigestion
- Wrapping a mummy
- Recipes for magic potions and beauty creams
- Explanations of amulets and pyramid power
- A spell to entice a lover
- A fortune-telling calendar
These subjects and many more will appeal to everyone interested in Egyptology, magic, parapsychology, and the occult; or ancient religions and mythology.

Ficha Técnica


   Autor: Bob Brier
   Ano: 1998
   Editora: William Morrow & Company
   Páginas: 320

   Antes de partirmos para os elogios, conheçamos o autor - Bob Brier é um egiptólogo de renome e grande divulgador do tema, que já publicou outros sete livros, conduziu pesquisas em sítios em quinze países e é um pesquisador sênior na Long Island University. Ancient Egyptian Magic é um ótimo livro de introdução sobre a magia no Egito Antigo, abrangendo diversos assuntos que tangem esse tema tão amplamente inserido na vida da civilização kemética.
   Não espere uma obra fantasiosa e repleta de misticismo sobre a magia egípcia - esse é um trabalho literário sério, fidedigno e de altíssima qualidade, embasado em fontes confiáveis, pesquisas acadêmicas, e informações obtidas via registros históricos e arqueológicos. Os capítulos de Ancient Egyptian Magic são bem organizados e criam uma progressão de assuntos substancialmente engajante, que captura a atenção do leitor conforme transita por diferentes áreas de interesse, que complementam umas às outras.
   O único defeito desse incrível exemplar literário é a falta de uma tradução para o português até o momento dessa publicação - nada relacionado ao conteúdo impecável! -, que torna mais difícil seu acesso para quem não domina o idioma. Ainda assim, Briar apresenta temas complexos com um linguajar descomplicado, simplificando a compreensão para todas as variedades de leitores, e facilitando o desafio para quem engatinha nessa língua.
   O livro possui um dos raros calendário de dias de sorte e azar com suas fortunas, trata sobre os principais mitos egípcios, amuletos, sonhos, como funcionava o funeral do faraó, bem como práticas mágicas e medicinais variadas que eram empregadas por essa civilização na Antiguidade. Se destaca por proporcionar um contato bastante próximo com a magia e a ritualística antiga, demonstrando frequentemente com imagens e traduções de textos egípcios.
   Vale muito a leitura para interessados em conhecer mais sobre o tema mágico-religioso, e como foi o cerne que fundamentou a cultura e sociedade kemética ao longo dos milênios. É também uma fonte de referências importantes para aprofundamento de estudos sobre o Antigo Egito. Um dos melhores livros que já li sobre o assunto até então - se não o melhor!

A adaptar fórmulas obscuras,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 21 de março de 2023

Resenha: Magia de Sigilos, de Laura Tempest Zakroff

   Sinopse: Sigilos são símbolos mágicos projetados para influenciar a nós mesmos, as outras pessoas e o mundo ao nosso redor. Rastreando essa prática através da história, arte e cultura, este livro ilustrado oferece uma abordagem inovadora e moderna para a prática da magia de sigilos de maneira acessível e intuitiva. Você aprenderá como manifestar sua vontade por meio de seus próprios designs e ainda vai poder explorar os significados tradicionais e modernos das formas, símbolos, números, letras e cores, enquanto aprende sobre como adicionar significado pessoal a seus sigilos. Este livro ajudará a melhorar suas técnicas de desenho, usando exercícios para desafiá-lo a obter uma visão metafísica e uma inspiração mais profunda – tudo para guiá-lo a desenvolver seu próprio poder pessoal com a arte vigorosa de fazer magia, usando diferentes tipos de sigilos. Inclui métodos de aplicação, dicas para escolher materiais e considerações importantes para criar sigilos mágicos temporários e permanentes.

Ficha Técnica


   Autora: Laura Tempest Zakroff
   Editora: Alfabeto
   Ano: 2018, edição brasileira de 2021
   Páginas: 256
   
   Se você já é um apreciador, ou tem interesse em conhecer mais sobre os sigilos mágicos, eis aqui um livro que certamente lhe será útil em sua jornada de aprendizado. Com uma linguagem simples, extremamente acessível e bem humorada, a autora introduz aspectos históricos e artísticos e ensina em detalhes suas técnicas para a criação de sigilos. Quem torce o nariz para a magia de sigilos, talvez possa mudar sua percepção sobre essa ferramenta após a leitura, devido ao fato de que o estilo de sigilação de Laura é único e se diferencia em gênero, número e grau dos que são conhecidos na atualidade. Enquanto a magia de sigilos contemporânea está atrelada à Magia do Caos, a autora sugere uma maneira mais intuitiva, livre, simbólica e estética de criar sigilos, enraizada no processo criativo dos nossos ancestrais - que casa muitíssimo bem com caminhos mágico-espirituais como a Bruxaria e a magia natural.
   Há uma seção logo no início investigando a respeito das marcas e símbolos mais comuns em diversas culturas, explorando seus significados e contexto histórico. Em seguida, o livro aborda os formatos e símbolos que usamos cotidianamente, que conhecemos e reconhecemos - triângulos, círculos, espirais, quadrados, corações -, e sugere dicas para desenhá-los. Longe de ser uma leitura cansativa, as informações são organizadas de forma clara e compreensível, não tem "enrolação", e o conteúdo escrito é sempre complementado com imagens, exemplos e exercícios úteis para a prática da sigilação. A estética visual do livro é muito bonita, apropriadamente decorado, com letras grandes e confortáveis.
   Além de desenvolver um sistema de criação de sigilos à parte do popularmente difundido que se baseia nos estudos de Austin Osman Spare, Laura incentiva o leitor a colocar a mão na massa e praticar, inserindo linhas abaixo de cada símbolo para a adição de significados, e uma seção formada por palavras-chaves sugeridas e espaços em branco para que preencha com seus próprios padrões simbólicos. Eu particularmente achei essa seção genial, e gostei bastante de poder traçar minhas marcas e correspondências pessoais. Durante todo o livro, ela instiga a ampliação do repertório simbólico de quem lê, o exercício da autonomia, e a liberdade de criar sua magia seguindo seus parâmetros criativos, em vez de ser um ato mecânico e repleto de parâmetros a serem seguidos.
   O processo artístico e criativo para elaboração de sigilos é ensinado na teoria com uma simplicidade satisfatória, e junto da parte ritualística, Laura oferece orientações sobre como ativá-los e utilizá-los das mais diversas formas - tanto as mais comuns como desenhar e untar, como algumas mais diferentes, como plantar ou bordar seu sigilo, fazer tatuagens definitivas ou de henna, sigilos corporais/de movimento, etc. São oferecidas sugestões valiosas sobre qual o melhor método de utilização de cada tipo de sigilo, de acordo com a finalidade ou intenção, e inclusive, um capítulo no final orienta a respeito de suprimentos artísticos, para quem deseja adquirir alguns e praticar.
   A autora acrescenta exemplos de diferentes intenções, baseadas em um determinado contexto, e propõe a ponderação de como poderiam ser elaborados os sigilos para cada um desses propósitos apresentados. Ela incentiva que o leitor crie sigilos para as intenções fornecidas nos exemplos, como um exercício de fixação do conteúdo, e depois mostra quais foram suas criações para cada situação, explicando os elementos utilizados e como chegou no resultado final.
   É um guia altamente informativo de leitura rápida, objetivo e de fácil assimilação sem deixar a desejar no conteúdo, e que fornece ferramentas incríveis para que qualquer pessoa, iniciante ou experiente, possa adentrar no mundo da magia de sigilos sem precisar de nada além de materiais simples e a própria imaginação. É importante notar que há variações significativas entre o sistema de Laura e de outros autores, como o fato de que ela não trabalha com o conceito de "energizar/carregar" o sigilo, pois a própria criação artística substitui essa etapa. Considero um livro interessantíssimo para quem deseja ampliar seu repertório na magia de sigilos, expandir as possibilidades, ou ter novas referências e ideias para essa prática tão acessível e contemporânea.

A traçar linhas e curvas,
   Alannyë Daeris

sábado, 7 de janeiro de 2023

Resenha: The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice, de Robert K. Ritner

   Sinopse: The first critical examination of magical techniques and the practice of the magician in Ancient Egypt, revealing their widespread appearance and pivotal significance for all Egyptian 'religious' practices from the earliest periods through the Coptic era, influencing as well the Greco-Egyptian magical papyri.

Ficha Técnica


   Autor: Robert Kriech Ritner
   Ano: 1993
   Editora: Oriental Institute of the University of Chicago
   Páginas: 322

   O livro sobre o qual tenho imenso prazer de falar se trata de uma edição expandida e revisada da dissertação de doutorado de Robert K. Ritner - uma publicação acadêmica estupenda, ganhadora do Prêmio Heyman (1994) da Universidade de Yale. Ela se destaca por buscar compreender o conceito de magia (Heka) e suas mecânicas ritualísticas dentro do contexto egípcio, considerando a visão que os próprios praticantes tinham com base na mitologia, escritos da Antiguidade e achados arqueológicos.
   O autor, um renomado especialista no assunto, traça um panorama consistente e fidedigno do que era composta a magia dos egípcios, como ela se manifestava, e quais eram os princípios mitológicos que sustentaram essa prática por mais de cinco milênios, desde os períodos pré-dinásticos até a era copta, entrando em muitos detalhes a respeito de atividades realizadas, e explorando diversos aspectos que influenciaram no tema.
   É uma abordagem revisionista sobre a magia egípcia, que surge de análises metódicas de registros textuais e arqueológicos, revelando o fato de que não existia uma clara diferenciação entre a medicina, a religião e a magia, diferentemente do que os pesquisadores modernos concluíam até então - todas essas áreas de conhecimento estavam profundamente interligadas entre si. Somado a isso, desfaz a noção de que a magia egípcia era uma atividade marginal, realizada por indivíduos nefastos excluídos da sociedade; a magia era uma ocupação de sacerdotes e era acessada por todos da sociedade, sem exceções.
   A linguagem acadêmica empregada ao longo dessa obra requer uma significativa atenção e paciência, pois algumas passagens são de entendimento complexo, e mesmo a linguagem objetiva de Ritner nem sempre facilita para o leitor. Como uma boa dissertação, há uma quantia massiva de referências e notas de rodapé, que por vezes ocupam praticamente toda a página e desaceleram ainda mais o ritmo da leitura, mas são extremamente valiosas como um todo e fornecem a possibilidade de maior aprofundamento nas informações levantadas, com frequência nas suas fontes originais.
   Se você realmente se interessa pelas práticas mágico-religiosas do Egito antigo, e deseja compreender de maneira completa o que se pode afirmar com consistência e veracidade a respeito desses saberes arcanos e sagrados, The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice é o melhor desafio intelectual que chegará em suas mãos. É uma fonte primorosa de estudos e boas referências para apaixonados por magia, mitologia, religião, e história antiga.

A encarar uma aparentemente infindável lista de referências,
   Alannyë Daeris

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Resenha: Aradia, o Evangelho das Bruxas - Charles G. Leland

   Sinopse: Em Aradia: O Evangelho das Bruxas, Charles Godfrey Leland nos presenteia com o que podemos chamar de capítulo inicial de uma coletânea de cerimônias, feitiços e encantamentos. Nele, o autor traz a história de Aradia, bruxa enviada à Terra para propagar os ensinamentos da Bruxaria. No decorrer do livro, também são descritos os encantamentos, conjurações e invocações, no original em italiano, ensinados por sua mãe Diana, deusa das bruxas. Leland foi uma figura marcante para a história da Bruxaria. Poucos dias após o seu nascimento, uma velha ama holandesa levou-o ao sótão de sua casa e realizou um ritual. Ela colocou seu seio sobre uma Bíblia, uma chave e uma faca e, então, pôs velas acesas, dinheiro e um prato com sal sobre a cabeça. O propósito do rito era que o menino vencesse na vida e tivesse sorte para ser um escolástico e um sábio. Quando ainda criança, foi presenteado com histórias e contos de fantasmas, bruxas e fadas, o que o deixou fascinado pelo folclore e pela magia. Sua família vivia em uma casa que possuía empregados e, com um deles ― uma imigrante holandesa ―, ele aprendeu a respeito de fadas, e com outro ― uma negra que trabalhava na cozinha ―, acerca de vodu. Mudando-se para a Inglaterra, Leland deu início aos seus estudos a respeito dos ciganos ingleses, pois era particularmente interessado no folclore deles. Com o decorrer do tempo, ganhou a confiança do 'Rei dos Ciganos' na Inglaterra, Matty Cooper, com quem aprendeu a falar o romani, a língua dos ciganos, embora isso tenha ocorrido muitos anos antes de o povo cigano tê-lo aceito como um deles. Durante esse período, escreveu seus dois livros clássicos a respeito dos ciganos, sendo um deles Bruxaria Cigana, lançado no Brasil pela Madras Editora, e estabeleceu-se como a autoridade máxima nesse assunto. O leitor certamente irá se encantar com a bela história narrada em Aradia: O Evangelho das Bruxas. Boa leitura!

Ficha Técnica


   Autor: Charles Godfrey Leland
   Ano: 1889, 2004 (1° Ed. brasileira)
   Editora: Madras
   Páginas: 120

   Aradia, o Evangelho das Bruxas, é um compilado de mitos e encantamentos italianos reunidos pelo folclorista Charles G. Leland, que revelam a antiga tradição de Bruxaria que foi preservada secretamente no norte da Itália. É uma obra extremamente conhecida por seu impacto e relevância no movimento esotérico moderno, tendo sido publicada antes do renascimento e reavivamento da Bruxaria como uma prática conhecida, responsável portanto pelo resgate de saberes folclóricos e tradicionais sobre o Ofício das Bruxas.
   Histórias e mitos que foram transmitidos a Leland por informantes italianas preenchem as páginas, em sua linguagem italiana original e na tradução para o português. Pode-se observar nas entrelinhas dos textos algumas sugestões de encantamentos antigos, práticas mágicas tradicionais italianas, e todo um imaginário simbólico que se moldou através das influências de diversas tradições e culturas na antiguidade. Referências são traçadas pelo próprio Leland, que encontra paralelos em outras obras antigas.
   O mito de Aradia e os conceitos em torno dessa figura, principalmente focados na deusa Diana e em seu consorte Dianus Lucifero é instigante, delineado com auxílio de uma linguagem poética, vívida e com detalhes que incitam a curiosidade e a imaginação criativa. Apesar do título levar alguns a entenderem que seja um livro de instruções ou orientações sobre a prática de magia, o Evangelho das Bruxas se dedica a contar o folclore por trás das tradições de Bruxaria tradicional (Stregheria) que sobreviviam secretamente nas áreas rurais da Itália no século XIX.
   Considero esse livro uma leitura interessante e quiçá essencial para praticantes de Bruxaria, pois se trata de uma pesquisa antropológica e histórica que por meio da coleta de contos antigos e histórias nos ilumina a respeito da continuidade de determinadas práticas mágicas mesmo em períodos de censura, perseguição e ignorância. Alguns questionamentos são levantados sobre a veracidade das fontes e dos relatos obtidos pelo folclorista, mas pesquisadores da área consideram genuínos os relatos angariados por Leland, ainda que envoltos em mistérios.
   A essência da Bruxaria como uma arte dos indomados, uma ferramenta de necessitados e oprimidos é encontrada em sua plenitude nos versos rimados sobre a Deusa das Bruxas, que incita a resistência contra a tirania e a opressão, marcantes do contexto histórico em que a tradição se originou. Aradia é uma figura messiânica que representa os desfavorecidos em sua luta constante, e vem para nos ensinar os caminhos e os sortilégios de amor e liberdade da Grande Deusa.
   
A fazer dos limões um feitiço,
   Alannyë Daeris 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Resenha: Bruxaria e Magia na Europa - Grécia Antiga e Roma, de Daniel Ogden, Georg Luck, Richard Gordon e Valerie Flint

   Sinopse: Você sabe como a 'demonização' política da magia no fim do Império Romano se compara à associação da Bruxaria com o diabo? Sabe por que a magia chamou a atenção dos imperadores e príncipes? Será que eles não estavam mais satisfeitos em governar apenas os corpos e o trabalho de seus súditos, querendo controlar também suas paixões e credos? É possível que a magia antiga tenha sido afetada pelas várias influências de uma multiplicidade de deuses e cultos pagãos? Os gregos realmente acreditavam em seus mitos? Essas e muitas outras indagações serão respondidas em Bruxaria e Magia na Europa - Grécia Antiga e Roma, um livro que se vale de filosofia, direito e religião para fazer um percurso na história da Bruxaria, abordando desde a era heroica de Homero até o fim do império ocidental de Augustino e Teodósio. Encantamentos de amarração: placas de maldições e bonecas de vodu nos mundos grego e romano, Bruxos, bruxas e feiticeiros na literatura clássica, Magias imaginativas grega e romana, Demonizando a magia e a feitiçaria na Antiguidade Clássica: redefinições cristãs das religiões pagãs - estes e muitos outros assuntos são o ponto de partida deste livro que traz um registro histórico a respeito da Bruxaria e da Magia na Europa.

Ficha Técnica


   Autores: Daniel Ogden, Georg Luck, Richard Gordon, Valerie Flint
   Ano: 1994 (1° Ed.), 2004 (Trad.)
   Editora: Madras
   Páginas: 320

   Antes de mais nada, admito: tive algum receio ao adquirir esse livro, por experiências anteriores de cunho desagradável com obras da editora Madras, que conta com alguns títulos de conteúdo no mínimo duvidoso. Mas, ufa, esse não é um deles: trata-se da tradução de uma obra acadêmica composta por quatro autores reconhecidos na área, que exploram em profundidade diversos aspectos da magia no mundo greco-romano para fornecer um panorama consistente ao leitor.
   Magia e Bruxaria na Europa é dividido em quatro partes, cada qual de autoria de um dos co-autores, todos renomados professores e pesquisadores de história e antiguidades. O primeiro capítulo, por Daniel Ogden, faz a recepção introduzindo o conceito das placas de maldições greco-romanas, ou "defixiones", que estão interrelacionadas às famosas bonecas de cera. O segundo, por Georg Luck, explora a literatura clássica para delinear como eram imaginadas e percebidas as bruxas, magos e feiticeiras em obras do século V e VI, passando pelas personagens de mitos mais famosos da época (Circe, Medeia, Ericto, Canídia) e textos de Platão, Eurípedes, Heráclito, Hipócrates.
   No terceiro capítulo, composto por Richard Gordon, o foco se volta para uma análise da magia sob os parâmetros da lei, averiguando o casos de condenações por magia e em que se fundamentou a crescente criminalização de atividades místicas e mágicas na Grécia e Roma antigas, usando como evidência os registros que se tem acesso da época. E na última parte, a pesquisadora Valerie Flint elabora sobre o processo de "demonização" da magia, especialmente dos daemons gregos e as redefinições das atividades pagãs para um contexto cristão que ocorreu a partir do desenvolvimento do cristianismo, a partir do século II, fazendo referências interessantes às escrituras da Bíblia, textos de pensadores cristãos, e comentários de críticos contemporâneos.
   Como um todo, esse livro traduz de maneira acessível as conclusões do pensamento histórico moderno sobre esse assunto tão debatido no último século, mas há um aumento de passagens com significativa complexidade intelectual conforme os temas se aprofundam em cada uma das partes, desacelerando o ritmo de quem não está tão acostumado com certas terminologias. Certamente uma leitura mais densa em alguns momentos, mas extremamente produtiva para entender como a magia era praticada e percebida pelos Antigos, por meio de registros e fontes confiáveis de pesquisa.
   Quanto ao design, como era de se esperar de uma publicação de responsabilidade da Editora Madras, infelizmente há erros ortográficos e passagens com uma tradução duvidosa - em pelo menos 3 ocasiões, percebi traduções literais de palavras do inglês com mudança no sentido da frase. A qualidade da capa é péssima, em menos de um mês a minha já estava desbotada e desgastada como se eu tivesse lido o livro exaustivamente ao longo de muito tempo. Mas o conteúdo é impecável e recomendado a qualquer pessoa que se interesse pelo tema.

A averiguar fatos e opiniões,
   Alannyë Daeris

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Resenha: Vivendo a Wicca, de Scott Cunningham

   Sinopse: Vivendo a Wicca traz um olhar filosófico diante de questões teóricas e práticas da religião Wicca. Com este livro, você aprenderá a criar seus próprios rituais e símbolos, a desenvolver um Livro das Sombras e até mesmo se tornar um Sumo sacerdote ou Suma Sacerdotisa. Este clássico de Scott Cunningham também aborda ferramentas, nomes mágicos, iniciação, mistérios e a importância do sigilo em sua prática.

Ficha Técnica


   Autor: Scott Cunningham
   Ano: 2002 (1ª Ed. 1993)
   Editora: Gaia
   Páginas: 203

   Vivendo a Wicca é a continuação pouco conhecida para o clássico Guia Essencial da Bruxa Solitária, referência absoluta quando o assunto é introduzir a Bruxaria Moderna de maneira leve, objetiva e adequadamente inspiradora. Aqui, Scott Cunningham abrange outros pontos muito importantes na elaboração das práticas pessoais de quem não está inserido em um coven ou não deseja essa experiência grupal tão cedo, complementando aspectos que não haviam sido citados ou elaborados na primeira obra.
   Ainda que o título sugira que o foco é a Wicca, afirmo sem medo que as orientações contidas nesse breve mas maravilhoso livro são de enorme utilidade para praticantes solitários de diversos caminhos espirituais relacionados, e podem ser aplicadas em qualquer tradição de Bruxaria pela qual o leitor tenha afinidade, não somente a religião citada no título.
   Há orientações objetivas a respeito dos estudos e o processo de aprendizagem na Bruxaria, sobre o caminho devocional, informando sobre as orações e oferendas, como realizar rituais simplificados, e por fim, um capítulo inteiro dedicado para a elaboração de uma tradição própria, o que traz muitas ideias e sugestões interessantes para quem está nessa senda buscando evoluir suas práticas de maneira alinhada com os próprios princípios.
   Cunningham instrui sobre como desenvolver sua própria tradição pessoal de Bruxaria, incentivando e dando um precioso suporte para a criatividade de cada praticante - é uma leitura instigante, que sempre lhe fará refletir sobre os temas abordados, abrindo espaço para que você chegue às próprias conclusões sem proselitismo intelectual. Particularmente, considero uma obra perfeita para quem ainda está começando ou já pratica há algum tempo, mas ainda não se sente confiante para se considerar um praticante avançado na Arte.
   O único defeito de Vivendo a Wicca é sua quantidade de páginas, compondo um livro diminuto que poderia ser muito bem prolongado e aprofundado. Evidentemente a proposta é apenas fornecer panoramas para orientar e inspirar Bruxas e Bruxos solitários em sua senda, mas é uma leitura tão prazerosa e repleta de sábias instruções, que a li contando as páginas e desejando que não chegasse ao fim! E se você tem receio de ser um livro que fala apenas "mais do mesmo", afirmo que alguma coisa de bom você conseguirá extrair dessa leitura sim, mesmo que não seja de imediato.

A chegar mais perto de completar a coleção,
   Alannyë Daeris

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Resenha: Sonhando com os Deuses, de Scott Cunningham

   Sinopse: Necessitamos de um período de descanso físico e mental, temos sono e dormimos. A conseqüência desse ato tão natural podem ser os sonhos, pois no momento do sono entramos em um estado alterado de consciência em que nossos deuses e deusas podem se aproximar mais facilmente de nós. Essa é a visão do autor, que ensina rituais projetados para solicitar sonhos a nossas divindades pessoais, além de analisar teorias sobre os sonhos e sua importância para os antigos egípcios, sumerianos, babilônios, gregos, romanos, havaianos e nativos americanos. O autor recupera a visão dos antigos povos politeístas, segundo os quais os sonhos são experiências espirituais em que conselhos ou avisos são recebidos das divindades, e, mais importante, mostra como fazer para que nossas divindades pessoais nos visitem nos sonhos, transformando o sono em um processo mais elevado, um momento sublime para entrar em contato com o sagrado.

Ficha Técnica


   Autor: Scott Cunningham
   Ano: 2002 (1 Ed. 1999)
   Editora: Gaia
   Páginas: 174

   Quem me acompanha há mais tempo já deve ter percebido que sou uma ávida leitora das obras de Scott Cunningham, e qual não foi minha surpresa quando ouvi falar pela primeira vez sobre esse livro de autoria dele somente no ano passado! Tratei de adquirir em um sebo - pois é uma edição antiga e pouco conhecida -, e foi aí que me surpreendi de fato: essa obra de 2002 veio até mim lacrada na embalagem original, sem nunca ter sido lida antes. Sincronicidade!
   Esse é um livro curto, porém não se engane: é elaborado na medida certa, sucinto de forma agradável, sem se prolongar demasiadamente num assunto que pode ser profundo e complexo, o que não impede que seja ensinado de maneira simples e objetiva - como Scott faz com maestria, em sua linguagem agradável e fácil de acompanhar mesmo para completos leigos no assunto em questão.
   Qualquer indivíduo que busque se familiarizar com os sonhos por um viés espiritual, compreender a percepção de culturas antigas em relação ao tema, estar a par dos diferentes sonhos que existem e como diferenciá-los entre si, identificar as mensagens pessoais ou divinas que podem estar sendo transmitidas durante a noite... Precisa ler essa obra, que oferece tudo isso e muito mais.
   Cunningham explica a diferença entre variados tipos de sonhos e projeção astral, como se preparar para um sono sagrado, o que é a mente consciente e subconsciente, fornecendo também práticas para que o conhecimento seja aplicado pelo leitor. Não se tratam apenas de rituais e feitiços, mas também de dicas e sugestões para que possa registrar as experiências oníricas, e tirar sentido e significado dessas mensagens noturnas, sejam elas originadas pelo inconsciente ou pelo Divino.
   O livro se encerra com um apêndice que apresenta tabelas de correspondências para auxiliar na elaboração de práticas mágicas e devocionais próprias de cada praticante, como é comum nas obras de Scott, sempre interessado em estimular a autonomia e originalidade de cada caminho, incluindo também técnicas naturais para a indução de sono, para aqueles que possuem dificuldades nesse processo. Uma obra exemplar com direções magníficas para o entendimento e a prática de magia dos sonhos.

A agradecer ao meu Ancestral da Arte mais estimado,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 22 de março de 2022

Resenha: O Livro Mágico dos Cristais, de Ember Grant

   Sinopse
: Você se lembra da primeira vez em que viu um cristal ou uma pedra preciosa lapidada e ficou fascinado com seu brilho? A magia das pedras começa com a maneira como elas nos inspiram, nos confortam e despertam em nós um sentimento de assombro. Seja você um praticante experiente ou um iniciante, O Livro Mágico dos Cristais vai aumentar seus conhecimentos mágicos e liberar todo seu potencial para a magia, intensificando a sua conexão com o poder ilimitado dessas pedras extraordinárias, através de magias para a saúde, o amor, a casa, e também para solucionar problemas, desvendar sonhos, fazer viagens astrais e muito mais. Repleto de encantamentos, rituais, grades mágicas e outros métodos, este é um guia prático e profundo que vai ensiná-lo a usar as pedras de maneira criativa e inovadora!

Ficha Técnica


   Autora: Ember Grant
   Ano: 2018 (1ª Ed. 2013)
   Editora: Pensamento
   Páginas: 228

   Uma leitura objetiva e que oferece orientações práticas para a utilização dos cristais pelo viés da magia natural e Bruxaria moderna. Ideal para praticantes de magia iniciantes que estão desbravando o universo dos cristais, mas também pode oferecer ideias e informações úteis para quem já está nesse caminho há mais tempo. Como o título sugere, o foco da obra é ensinar como empregar os minerais e pedras em um caminho mágico, e para um livro de pouco mais de 200 páginas, considero que cumpre seu trabalho muito bem!
   Temas fundamentais na magia com cristais, como a purificação e outros cuidados relacionados, são abordados logo no início do livro, e vários exemplos são oferecidos para abranger diferentes leitores, suas preferências e crenças pessoais, o que é sempre louvável. Encantamentos, feitiços para diversas finalidades, ritualísticas variadas, grades de cristais, todos com estruturas compreensíveis e sem complicações desnecessárias - aprecio o quanto Ember Grant é objetiva e vai direto ao ponto, sem se perder em contextos e elaborações desnecessárias, falando somente o que é relevante para a compreensão do que é tratado.
   Nesse mesmo sentido, a autora não se compromete com explicações básicas sobre a prática de magia, assumindo que o leitor possui algum entendimento prévio do assunto, mas é importante notar que todos os feitiços e rituais ensinados no livro são de fácil realização, mesmo para quem não possui experiência alguma em Bruxaria. As instruções são claras e tangíveis, o design das páginas é bonito e atrativo aos olhos, e a organização do livro é muito bem estruturada, conduzindo o leitor pelos conteúdos de maneira que instiga a continuação da leitura e os elabora coerentemente.
   É um ótimo livro de referência para se ter em mãos, com sugestões de atividades úteis e interessantes com cristais, e também correspondências para orientar na escolha das pedras e minerais adequados para certos propósitos, auxiliando na incorporação da magia cristalina no cotidiano de qualquer pessoa. Iniciantes, praticantes experientes, curiosos, para todos há algo que O Livro Mágico dos Cristais pode acrescentar de bom, mas quanto mais experiência e entendimento sobre cristais, menor será a possibilidade de se descobrir coisas inteiramente novas com essa obra. Estudo o tema há anos, e mesmo assim foi uma leitura agradável com a qual aprendi algumas informações interessantes!
   Os capítulos que tratam da areia, pedras "normais" e vidro na magia me impressionaram positivamente, em especial por oferecer meios de empregá-los em práticas simples - e o potencial subentendido de aplicação em outras ritualísticas e feitiços variados. Um único ponto que poderia ser melhorado é a falta de ilustrações, pois em determinados momentos a autora fala sobre os formatos geométricos de pedras, estruturas cristalinas e não há um suporte imagético para ajudar na visualização. Mas fora isso, mesmo a relativa superficialidade das informações é algo que não configura necessariamente um defeito; O Livro Mágico dos Cristais ensina despretensiosamente, e em sua simplicidade e acessibilidade se revela digno para quem está formulando sua biblioteca mágica pessoal.

A cristalizar informações,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Resenha: A Dança Cósmica das Feiticeiras, de Starhawk

   Sinopse: Uma visão contemporânea da magia que ensina aos leitores o caminho prático de comunhão com a natureza através de exercícios que aliam técnicas da psicologia moderna com os ancestrais rituais de contato com o Espírito Feminino do planeta. "A Feitiçaria é uma religião que retira os seus ensinamentos da natureza e inspira-se nos movimentos do sol, da Lua e das estrelas, no vôo dos pássaros, no lento crescimento das árvores e no ciclo das estações."

Ficha Técnica


   Autora: Starhawk
   Ano: 1993 (1° Ed 1979)
   Editora: Nova Era
   Páginas: 351

   Um clássico de peso, sempre referenciado em guias de estudos e em rodas de conversas, discussões ou sugestões de leitura na comunidade Bruxa desde seu lançamento - e que recentemente recebeu uma repaginada e voltou às livrarias numa edição nova e maravilhosa da Editora Pensamento (que eu aceito de presente!)... É um prazer falar a respeito de um livro como A Dança Cósmica das Feiticeiras, em toda sua importância merecida e conquistada com uma linguagem bela, inspiradora e cristalina.
   Os temas discutidos no decorrer dessa obra são de grande relevância ainda nos dias de hoje, passados mais de 40 anos desse sua primeira publicação. São ensinamentos profundos trazidos com simplicidade e coerência, e os relatos que se mesclam à narrativa acrescentam muito valor ao conhecimento transmitido. É de uma beleza poética e inspiradora, que certamente trará vividas sensações e emoções às filhas e filhos dos Deuses antigos.
   Certas passagens e afirmações históricas são um tanto romantizadas para evidenciar as ideias que estão sendo transmitidas, mas é também muito perceptível que esse livro é fruto de seu período histórico, e reflete os movimentos sociais e culturais que estavam se estruturando naquele momento, bem como as mudanças pelas quais a Bruxaria estava passando na década de 70. Essa é uma obra de viés feminista, com percepções muito sóbrias e responsáveis a respeito do movimento e de como ele se relaciona com a espiritualidade.
   Existem diversos motivos para o sucesso absoluto de A Dança Cósmica como um livro essencial e básico para o estudo da Bruxaria e do Neopaganismo, que vão além de sua beleza e poesia ou das opiniões bem colocadas da autora; para alguns, são os rituais teatrais, as falas sobre a coexistência entre magia e ciência como visões válidas e complementares da realidade, ou as descrições e falas a respeito de covens e suas experiências únicas. Para outros, são os temas sociais e políticos que se mesclam de forma orgânica na narrativa proposta.
   Fato é que cada leitor ou leitora terá suas próprias impressões e sensações ao explorar essa obra; ela pode se revelar como sendo um guia, um manual de instruções, um Livro das Sombras, um diário, um conto inspirador e poético, ou tudo isso e muito mais... Mas gostando dela ou não, há que se concordar que abriu caminhos e contribuiu imensamente para a popularização da Bruxaria e, décadas depois, segue sendo uma leitura excepcional e indispensável para qualquer amante da Arte e da Religião da Deusa, seja para fins de aprendizado, contemplação, ou referência histórica.

A resgatar deslumbres de aprendiz,
   Alannyë Daeris.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Resenha: Practical Guide to Pagan Priesthood, de Lora O'Brien

   Sinopse: Whether you are currently a priest or priestess, are considering taking on such a role, or would like to be more informed about Pagan leadership so you can better support your community, this book helps you learn about the practical skills required and provides ideas on how you can acquire or improve them. Explore the two primary categories of priestly duties—pastoral and sacerdotal—and find a plethora of insight into specific topics, including group leadership, teaching, crisis counseling, communicating with deity, devotion to deity, intervention and healing, life rites, and community celebration. As Paganism continues to grow and new generations become leaders, this guide shares a practical picture of what the Pagan priesthood can be.

Ficha Técnica


   Autora: Lora O'Brien
   Ano: 2019
   Editora: Llewellyn Publications
   Páginas: 240

   Esse é um guia prático e objetivo sobre o tema do sacerdócio pagão na modernidade, indicado para todos aqueles que buscam entender melhor sobre o que é um sacerdote e o que é necessário para se tornar um. A autora concentra-se em parâmetros gerais a respeito do sacerdócio, e elucida com responsabilidade e coerência os principais temas relativos a esse ofício, independente do foco, panteão ou dos objetivos que você tenha em mente com seu sacerdócio - público ou privado, envolvendo algum projeto pessoal, dentre outras possibilidades exploradas no decorrer da obra.
   A autora divide o livro em duas partes, primeiro elucidando a respeito das atividades pastorais, que dentre outras responsabilidades, envolvem a interação com a comunidade e o acolhimento de indivíduos necessitados, mentoria e ensino de neófitos, liderança de grupos e de comunidades, e orientações para intervenção em situações críticas. Ela também explora as atividades sacerdotais, que tratam a respeito da devoção em covens, rituais religiosos, prática de magia e a ética dentro desse tema, comunicação com divindades e celebração de ritos de passagem.
   Por ter uma ampla abrangência, em alguns momentos será necessário que o leitor encaixe e adapte as sugestões levantadas pela autora para que se adequem ao seu contexto e perspectiva pessoal, mas uma boa parte dos temas abordados são de importante reflexão e certamente auxiliarão quem tem interesse em seguir adiante com seus votos. E para quem possui dúvidas sobre se um sacerdócio pagão é o caminho certo para seguir, dificilmente continuará tendo essas dúvidas ao final da leitura, pois o livro traz muitas reflexões válidas e contextualiza de maneira prática quais as atribuições, responsabilidades e expectativas relacionadas a um sacerdote ou sacerdotisa.
   Há uma preocupação evidente de Lora O'Brien a respeito da ética, estabelecendo regras quanto ao aspecto social do sacerdócio, e uma crítica pessoal que faço é que às vezes seu discurso soa forçado e exagerado, especialmente pelo contato que tive com relatos estrangeiros pouco elogiosos a respeito da autora e suas atitudes antiéticas e condenáveis em grupos e covens (que não dizem respeito a essa resenha, portanto não explorarei o assunto aqui), que contrariam por completo as declarações hiperbolicamente corretas e consideravelmente moralistas que faz no decorrer da obra. Não digo que o sacerdócio não possa ser político, mas ele não precisa ser.
   Possui outros detalhes que podem ser incômodos para alguns leitores de maior criticidade, especialmente o fato das referências bibliográficas da obra serem limitadas, e não haver nenhum respaldo histórico e acadêmico para contribuir com o entendimento do assunto, que remonta muitos séculos antes da Era Comum e contribuiria de maneira incomensurável aos leitores, pois modelos e exemplos reais são imprescindíveis para inspirar. Fora esses pontos que percebo como negativos, é uma leitura leve, rápida e estimulante em diversos aspectos. A inclusão de uma entrevista com outros sacerdotes ao final é um ponto positivo, pois achei incomum e ao meu ver é interessante trazer visões diferentes para contribuir dentro do assunto, ainda que a quantidade de opiniões pudesse ter sido maior.

A ponderar sobre responsabilidades,
   Alannyë Daeris.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Resenha: A Magia no Mundo Greco-Romano, de Henri Hubert

   Sinopse: O sétimo volume da coleção Biblioteca Durkheimiana traz o estudo monográfico de Henri Hubert sobre a magia na Antiguidade clássica, em edição bilíngue francês/português acompanhada de estudos de especialistas e anexos que ampliam o alcance da obra. A Magia no Mundo Greco-romano foi publicado originalmente como verbete de um dicionário em 1902, e nele Hubert procura entender o que é a magia e como se manifestou na Antiguidade clássica, a partir de ampla documentação e da análise de fontes não textuais, como as representações picturais, os amuletos e as esculturas as mais variadas. O verbete tornou-se referência obrigatória sobre o tema no âmbito francófono logo após sua publicação, observa o organizador e tradutor da obra Rafael Faraco Benthien. A obra compõe um retrato preciso acerca de tudo o que se sabia sobre a documentação mágica antiga no início do século XX.

Ficha Técnica


   Autor: Henri Hubert
   Ano: 2021 (publicado originalmente em 1902)
   Editora: EdUSP
   Páginas: 280
   
   Essa obra, que originalmente se destinava a compor o verbete de "Magia" em um dicionário sobre o mundo Greco-Romano, é um verdadeiro compilado de referências históricas, e conta com uma extensa bibliografia consultada, o que denota o amplo conhecimento do autor acerca do tema - muitas dessas referências remontam ao período da Antiguidade ou mais tardio, e raramente dispõem de uma tradução para o inglês (grande parte dos títulos citados nas notas de rodapé estão em latim, alemão ou francês).
   A linguagem pode se mostrar densa e cansativa em certos momentos, e a quantidade massiva de notas com as fontes bibliográficas torna a leitura um processo significativamente mais complexo caso você queira conferir quais são as obras referidas, ou se há algum raro comentário. Essa é uma versão bilíngue, com as páginas à esquerda no idioma francês, e as páginas à direita traduzidas para o português, mas meu progresso ainda assim foi vagaroso e desafiador.
   Há muitas informações interessantes, e o respaldo arqueológico e histórico de Henri Hubert - apesar de tornar a leitura laboriosa - confere convicção e factualidade ao texto, deixando pouco espaço para dúvidas quanto à veracidade do que está sendo tratado. É um tratado descritivo sobre a magia com fundamentos sólidos, que mesmo dispondo de poucas páginas considerando a extensão do tema, consegue explicar suas diversas nuances, a relação com a religião, e o que a caracteriza.
   A percepção do autor sobre alguns aspectos da magia e religiosidade pode ser percebida em determinadas passagens, e reflete o contexto histórico e o pensamento mais conservador da época em que estava inserido - uma compreensão acerca disso deve impedir pequenas frustrações ou incômodos em leitores que, assim como eu, tenham uma relação pessoal com os temas abordados. Mas num geral, o extenso embasamento bibliográfico deixa pouco espaço para opiniões pessoais ou visões tendenciosas, sendo um verbete verídico e bem elaborado, ainda que relativamente arcaico, a respeito da magia no mundo Greco-Romano.

A adicionar pilhas de referências às futuras leituras,
   Alannyë Daeris.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Resenha: Magic in Ancient Egypt, de Geraldine Pinch

   Sinopse (na língua original): The Egyptians were famous in the ancient world for their knowledge of magic. Religion, medicine, technology, and what we would call magic coexisted without apparent conflict, and it was not unusual for magical and practical remedies for illness, for example, to be used side by side. Everyone resorted to magic, from the pharaoh guarding his country with elaborate magical rituals to the expectant mother wearing amulets to safeguard her unborn child. In this book, Geraldine Pinch examines the connections between myth and magic and the deities--such as the goddess Isis, and the protective lion-demon Bes--who had special magical importance. She discusses the techniques of magic, its practitioners, and the surviving magical texts, as well as the objects that were used in magic: figurines, statues, amulets, and wands. She devotes a chapter to medicine and magic and one to magic and the dead. Finally, Dr. Pinch shows how elements and influences from Egyptian magic survived in or were taken up by later societies, right down to our own century.

Ficha Técnica

   Autora: Geraldine Pinch
   Ano: 1995
   Editora: Univ of Texas Pr
   Páginas: 191
 
   Uma obra de alto nível para uma genuína compreensão de diversos aspectos relativos à magia e à espiritualidade egípcia, dois temas intimamente relacionados e explorados com maestria, sem uma complexidade linguística desnecessária, apenas objetividade e clareza de ideias, resultando em uma leitura leve e fluida. O respaldo arqueológico é essencial, e reflete aspectos valiosos para a compreensão das práticas mágicas dos antigos egípcios, sejam os ritos efetuados por sacerdotes nos templos, ou de forma particular por magos e/ou pessoas comuns.
   Os textos mágicos e papiros são frequentemente referenciados em todos os capítulos, elucidando de maneira pragmática mas não simplista as fórmulas, encantamentos e visões por trás da magia kemética. Independentemente do nível de conhecimento do leitor sobre o assunto, há muito a se descobrir e explorar a partir desse livro, cuja riqueza de detalhes é impressionante, e se beneficia de uma coleção de imagens de artefatos em museus para auxiliar na visualização dos diversos objetos citados e como eram utilizados.
   A organização temática é bem elaborada e realiza uma progressão de saberes coesa e gradual, fornecendo uma percepção consistente acerca da magia praticada pelos keméticos, sem um misticismo indevido nem um academicismo limitante e preconceituoso. Os detalhes e informações levantadas são incríveis, pois revelam muitas características práticas (e úteis para magistas) de feitiços e encantamentos, amuletos, estátuas, gestos, varinhas e papiros, e faz uma análise precisa e bastante abrangente quanto às técnicas mágicas para diferentes finalidades, e como elas se encaixavam dentro da mentalidade kemética, usando sempre de fontes arqueológicas e históricas.
   O último capítulo aborda o impacto e a influência que a sabedoria oculta egípcia teve na cultura e nas crenças dos povos antigos e medievais, esclarecendo inclusive as infundadas teorias sobre o Tarô ter uma origem egípcia, e a errônea associação dos povos Romi (coloquialmente denominados ciganos) com o Egito. Aqui há algumas referências a sistemas mágico-filosóficos como o Hermetismo, a Cabala e outras tradições do período, mas apenas a um breve título de informação.
   Uma crítica que tenho em comum com outros leitores é que a autora menciona as datas em formatos que são pouco comuns na Egiptologia (para facilitar para o público geral, imagino) e não costuma indicar qual a dinastia ou período específico a que se refere, o que seria substancial para estudiosos e facilitaria na compreensão do contexto histórico. Mas dada a complexidade do tema, que se alterou bastante no decorrer da história egípcia e é complexo de se analisar quando adicionamos o viés temporal, julgo que o trabalho de Geraldine Pinch está impecável.

A ansiar por uma releitura,
   Alannyë Daeris.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Resenha: Tarô 3 - Oráculo e Métodos, de Nei Naiff

   Sinopse
: A trilogia Estudos completos do tarô tem como objetivo ensinar o conhecimento básico das cartas (história, simbologia, sistematização e interpretação), uma inigualável fonte de estudo e de pesquisa para o tarólogo contemporâneo. Este volume é destinado à chave oracular; nele são expostas as metodologias latino-americanas e europeias no trato da taromancia. O leitor entenderá as regras de lançamento para as cartas invertidas, para a combinação aos pares ou, ainda, como ler o antigo método italiano. É explanada a importância da estrutura de uma tiragem (geometria divina) e do posicionamento das cartas, bem como de sua relação com a pergunta “como interpretar?”. Além disso, esclarece quais aspectos são superstições e quais são verdadeiros. Nei Naiff também revela linguagens avançadas sobre dois temas recorrentes em consultas: amor e dinheiro. O livro traz conselhos importantes para uma boa leitura e interpretação correta do oráculo.

Ficha Técnica


   Autor: Nei Naiff
   Ano: 2019 (2° edição)
   Editora: Alfabeto
   Páginas: 384

   Como uma inveterada estudiosa de métodos oraculares, aprecio com gosto o trabalho que Nei Naiff desenvolve no livro de encerramento de sua trilogia, pois o faz de maneira impecável. Inicia a terceira obra falando sobre o oráculo, o tempo e o destino, a intuição, a projeção e a realidade, todos temas centrais quando falamos de uma tirada oracular. Aborda as formas geométricas em sua relação simbólica com a tarologia, para auxiliar o leitor a compreender qual o melhor formato para o tema que busca abordar de acordo com a geometria divina.
   Então segue para outros assuntos de enorme relevância, como direcionamentos para formular as perguntas, escolher a melhor tiragem, interpretar a carta no método, previsões, discorrendo até sobre o embaralhamento e escolha das cartas, para que não restem dúvidas. Os conselhos finais são pontuais e favorecerão enormemente os iniciantes que os levarem para a vida.
   Na parte 2, estão contidas as instruções acerca de diversos métodos para leitura de cartas, desde tiradas consagradas como a Mandala Astrológica, Péladan e Cruz Celta, até os métodos de escolha e disposição de cartas como o Método Europeu, Americano, Italiano e Básico, e a orientações sobre como aplicá-los nas tiradas já citadas.
   É louvável o fato de Nei ser o primeiro autor a reunir e explicar todas as metodologias e técnicas desenvolvidas para lançar as cartas do Tarô, sempre numa linguagem leve e objetiva. Exemplos de tiradas com imagens de diferentes Oráculos são apresentadas em todas as situações, para facilitar o entendimento dos conteúdos ensinados e auxiliar o leitor na compreensão de como as cartas são interpretadas na prática em cada posição ou método particular.
   E nas partes 3 e 4, os temas de amor e dinheiro são abordados a fundo, com descrições de cada um dos 22 arcanos maiores e suas possibilidades de interpretação dentro dessas áreas. É uma leitura pontual e esclarecedora do início ao fim - e pode-se dizer o mesmo da trilogia como um todo, essencial para quem deseja aprender o Tarô, e merecidamente renomada por sua qualidade.

A aplicar novos métodos,
   Alannyë Daeris.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Resenha: The Pictorial Key to the Tarot (O Tarô Ilustrado de Waite), de Arthur Edward Waite

   Sinopse: Estas cartas tornaram-se o baralho de maior autoridade já visto. A seriedade e a tradição deste tarô originam-se inicialmente da Ordem Mágica do Amanhecer Dourado e conduziram a tradição secreta ensinada pelos mistérios ancestrais. Waite deteve-se longa e carinhosamente sobre cada um dos 22 Arcanos. Essas são, naturalmente, as cartas que dão ao tarô a sua fascinação misteriosa. As raízes do tarô reportam-se à Kabbalah da antiguidade hebraica. O Tarô de Waite é cheio de símbolos que atraem nossa atenção apenas indiretamente - sua descoberta gradual é uma das surpresas deste livro.

Ficha Técnica


   Autor: Edward Arthur Waite
   Ano: 1911 (1ª edição) - 1999 (edição da imagem)
   Editora: Kuarup
   Páginas: 192

   O Tarô Ilustrado de Waite, sob o título original "The Pictorial Key to the Tarot", é um dos mais importantes livros sobre o tema, de autoria de Arthur Edward Waite - o criador do emblemático baralho de tarô que leva seu sobrenome. Esse manual lançado em 1911 originalmente acompanhava o baralho de Waite-Smith, e ainda hoje costumam ser vendidos juntos nas versões de algumas editoras.
   Nessa obra de linguagem rebuscada e com ares vitorianos, Waite desmente inúmeros mitos e narrativas fantasiosas sobre o Tarô e a sua origem - e é incrível perceber que ainda hoje muitos desses mitos ainda se perpetuam na comunidade esotérica. Se você já ouviu falar que o Tarô veio do Egito, nesse livro que você descobrirá quem foi o criador dessa teoria e como tudo isso começou. Waite também discorre sobre outros autores com obras relacionadas ao Tarô, como Etteilla e Papus, deixando claro suas visões e descontentamentos com o trabalho que fizeram.
   Já li muitas críticas quanto à complexidade da escrita do autor, e sua tonalidade que soa presunçosa ou altamente crítica em alguns momentos, mas aprecio a honestidade e é perceptível que tem pleno entendimento de suas afirmações, apesar de ser um linguajar realmente maçante que demorei a me acostumar. Embora esteja resenhando a versão em português, a versão que li foi a original em inglês, e é possível que a tradução para nossa língua tenha facilitado a compreensão.
   Após alguns capítulos curtos, mas densos, e de palavreado desafiador para leitores menos acostumados com a escrita do começo do milênio passado, o leitor é introduzido aos arcanos maiores e menores conforme a sequência proposta no tarô de Waite. A simbologia das cartas é indicada pelo texto, e alguns dos sentidos divinatórios para as cartas são oferecidos, incluindo para cartas invertidas - mas não espere descrições elaboradas e profundas, pois aqui há breves comentários apenas para instigar a percepção de quem lê. Depois das descrições, há um apanhado de interpretações divinatórias para todos os arcanos, e mais alguns significados adicionais para os menores.
   O método da Cruz Céltica, amplamente utilizado e estudado na modernidade, foi publicado pela primeira vez aqui nessa obra, junto de um estilo alternativo de tirada e um método bem elaborado de 35 cartas. Waite também oferece algumas sugestões de significados atrelados à repetição de cartas do mesmo número numa tirada (ex: dois 7, ou três rainhas). E para encerrar, cita uma bibliografia de livros escritos sobre as cartas até aquele período que poderiam ser pesquisados - mas não sem dizer ao leitor que "não recomendaria isso, pois suficiente já foi dito sobre Tarot" no livro dele. Presunçoso ou realista, dado o contexto? Talvez ambos, mas certamente antológico.

A explorar clássicos,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Resenha: The Complete Lenormand Oracle Handbook, de Caitlin Matthews

  Sinopse (na língua original): In this complete guide to Lenormand card reading, Caitlín Matthews explains the multiple meanings for each card, providing keywords so the reader can quickly build an interpretive vocabulary for Lenormand fortune-telling. She details how to lay spreads, starting with 3 or 5 cards and building to the Grand Tableau spread, which uses all 36 cards. She explores the significance of the playing card pips and suits on each card and how cards combine to create a variety of meanings. Matthews enables readers to learn the Lenormand card keywords so they can both read for themselves and express their interpretations to clients. Providing real case histories for readers to interpret, she also includes self-tests and practice exercises with answers to check at the end of the book. 

Ficha Técnica


   Autora
: Caitlin Matthews
   Ano: 2014
   Editora: Destiny Books
   Páginas: 416

   Essa é uma obra que muito já me foi recomendada quando o assunto é o estudo tradicional do Petit Lenormand, popularmente conhecido como Baralho Cigano. Sua quantidade mais extensa de páginas, recheadas de informações interessantes, podem assustar à primeira vista, mas esteja ciente de que esse livro busca fazer um apanhado geral de um assunto que pode ser muito mais desenvolvido em diversos aspectos. Tenho alguns elogios mas muito mais críticas, pois sinto que foi uma proposta executada de maneira superficial e que se beneficiaria de uma reorganização nas ideias e reedição da estrutura.
   Há ensinamentos de certa complexidade contidos no decorrer dos capítulos desse livro que exigem maior concentração e experimentações, um envolvimento prático extenso com as cartas. Pode ser difícil para leigos acompanharem o raciocínio em alguns pontos, em especial no início, pois a estrutura de organização dos temas não facilita muito o processo e acaba confundindo; e às vezes, o conteúdo em si se torna denso e cansativo, maçante demais para absorver. Os exercícios são interessantes, mas alguns no começo da leitura parecem causar mais dúvidas que entendimento, então recomendo que sejam reservados para quem já se arrisca a ler as cartas há um tempinho.
   The Complete Lenormand Oracle Handbook é um dos mais citados livros sobre o Petit Lenormand, pois faz um trabalho aceitável em categorizar e explicar sobre as cartas, técnicas e métodos tradicionais, começando na história e origem do oráculo. Trata com muitos detalhes a respeito das características de cada lâmina, sobre os naipes, formas de entendê-los, e como funciona a linguagem do Lenormand em pares e trincas para elaborar histórias e extrair sentido e contexto.
   Antes de tratar sobre métodos mais complexos como a Mesa Real, a autora se aprofunda na estrutura de caixa 9x9, e em métodos de análise como o espelhamento, knighting, e de casas, facilitando a compreensão na hora de transicionar para a leitura completa com 36 cartas. Mas não se limita nisso, e aborda também as técnicas para analisar distância e proximidade na Mesa, determinação de tempo, lugares, e orientações para conduzir leituras para si mesmo e para consulentes. Os apêndices ao final incluem exercícios, métodos e estudos, bem como referências rápidas para ajudar no processo de aprendizado, e num geral, são apêndices bons. Apesar do teor tradicional do livro, certas práticas ensinadas por Caitlin são de autoria dela, em especial algumas do capítulo 6.
   É preferível que já se tenha uma base de conhecimento sobre o baralho antes de iniciar a leitura. Não é uma obra perfeita, e há outras melhores, mas pode ser produtiva, excluindo alguns defeitos latentes como o devaneio completo que é o capítulo 8. Existem inconsistências nas descrições e palavras chaves das lâminas e as interpretações oferecidas nos exercícios, e há momentos em que conhecimentos básicos e avançados são misturados - não é um problema para quem já entende de Lenormand, mas para quem está aprendendo, pode ser muito confuso e penoso de acompanhar.

A desgostar de certas esquisoterices com o Lenormand,
   Alannyë Daeris.