segunda-feira, 25 de março de 2024

Epítetos de Shezmu

   Epítetos são títulos dados a divindades, que servem para representar certas faces específicas deles, e invocar determinadas características. Para saber mais, veja esse texto que trata sobre o assunto.
   Hoje, apresento uma lista de epítetos keméticos tradicionais conferidos a Shezmu (Šsmw), traduzidos e adaptados para nossa língua. Podem ser usados em orações, rituais, meditações e em quaisquer situações que você queira evocar ou invocar esse aspecto de Shezmu que está retratado no epíteto escolhido.
   Essa lista não contém todos os títulos associados com esse deus, e há muitos outros que podem ser encontrados, ou desenvolvidos na sua própria interação e culto a Shezmu. Agradeço à Rev. Tanebet da Kemetic Orthodoxy pela tradução dos epítetos para o inglês com base no guia Lexikon der ägyptischen Götter und Götterbezeichnungen, volume 8.

Epítetos Tradicionais


• Ele com raios luminosos para a Enéada
• Ele que faz os raios virem à existência para a Enéada
• Senhor dos óleos
• Senhor do perfume
• Senhor da carnificina
• Senhor do sangue
• De face feroz
• Destruidor do Maligno no Bloco
• Mestre da Perfumaria
• Carrasco de Wesir
• Senhor da Prensa de Óleos
• Senhor da Prensa de Uva
• Senhor do Vinho
• Matador de Almas
• Ele que faz Mesen agradável
• Feitor de todos os óleos preciosos
• Ele que desmembra corpos
• Grande assassino dos Deuses
• Senhor de Punt
• Senhor da terra Divina
• Ele que coleta tributos nas Duas Terras Divinas
• Senhor do Laboratório
• O grande deus no laboratório
• Chefe do Laboratório
• Chefe da Grande Casa (santuário no Alto Egito)
• Chefe da Casa em que os efluxos divinos de Wesir são enterrados
• Chefe da Casa de Tecido
• Chefe da Casa de Ouro
• Ele que faz o aroma do templo agradável
• Ele que incensa o Grande Trono
• Ele que faz o laboratório festivo para o falcão do Dourado
• O poder magnífico no Trono de Ra
• Ele que está em tipAd (?)
• Senhor do local de matança de Heru
• O leão cruel
• O grande touro
• Touro do grande Ra
• Ele com grande coração
• Ele com o braço estendido
• O corajoso
• Ele que é corajoso com seu braço
• Ele com grande poder
• Ele com braço poderoso
• Ele com dedos habilidosos
• Ele com mão habilidosa quando faz seu trabalho
• Ele com mãos habilidosas
• Ele com um par habilidosos de dedos
• Ele com mãos puras
• Ele com facas afiadas
• Ele com facas vermelhas
• Ele que queima incenso de Punt
• Ele que equipa o laboratório em perfeição
• Ele que apresenta à Senhora de Rechit com os itens que ela deseja
• Ele que faz o óleo festivo
• Ele que dá Mirra para a Grandiosa
• Ele que esfaqueia o corpo do maligno
• Ele que derrota o inimigo
• Ele que derrota os rebeldes
• Ele que corta o antílope Oryx em pedaços
• Ele que oferece os de coração retorcido como sacrifício
• Ele que mata o corpo dos rebeldes
• Ele que mata os animais selvagens do deserto
• Ele que mata todos os animais selvagens do deserto
• Ele que derrota os inimigos
• Ele que derrota seus inimigos
• Ele que derrota os rebeldes
• Ele que faz o aroma do escaravelho alado divino agradável
• Ele que fz o aroma das Deusas agradável
• Ele que faz o aroma do que criou seu corpo agradável
• Ele que agrada aos Deuses com seu cheiro
• Ele que agrada os Deuses e Deusas com seu cheiro
• Ele que agrada as Deusas com seu cheiro
• Ele que faz o óleo Hekenu agradável
• Ele que agrada os poderes elevados com o trabalho de seus braços
• Ele que faz o lutador para a regente agradável
• Ele que faz os Deuses se sentirem festivos com seu aroma
• Ele que satisfaz os Deuses com o suor de sua carne (unguentos)
• Ele que satisfaz os Deuses com o suor de seu corpo (unguentos)
• Ele que satisfaz os Deuses e Deusas com seu trabalho
• Ele que apraze os poderes divinos com pedaços da carne dos rebeldes
• O Rei do Alto Egito
• Regente da Terra de Deus
• Ele que nasceu de Nut
• Ele que foi parido de Nut
• Filho de Nut
• Filho de Ra
• Filho de Geb
• Ele que foi criado pelos poderes divinos
• O Grandioso
• O Matador/Assassino
• Chefe do matadouro (ou "açougue")
• Chefe do campo de batalha
• Ele que é poderoso em sua fertilidade
• Ele com poder sobre seus inimigos
• Ele com poder augusto
• O Mais Antigo
• Ele que cozinha o unguento magnífico para o Senhor da Coroa Branca (atef)
• Ele que cozinha o unguento para o Olho de Ra
• Ele que cozinha o unguento para Khenti-Amentiu
• Senhor do matadouro de Heru
• Ele que glorifica o Olho de Ra com sua fragrância
• Ele que glorifica a Dourada, Senhora de Dendera, com sua fragrância
• O desmembrador de Wesir
• Que faz perfeito o aroma de Behedety
• Que faz ser prazeroso para a Dourada, a Senhora de Dendera, com seu aroma
• Ele que agrada a Dourada com o que ela ama
• Ele que faz o Olho de Ra festivo com seu aroma
• Ele que faz o laboratório festivo para o falcão da Dourada
• Ele que faz festiva a Dourada dos Deuses de acordo com sua vontade
• Ele que satisfaz o Olho de Ra com o que emerge dele
• Ele que apraze o Poderoso com pedaços de carne
• Touro do Grande Ra
• Estolista (que veste os Deuses)
• Ele com braços radiantes quando trabalha no laboratório
• Ele que está com labdanum (resina aromática do Mediterrâneo)
• Ele com unguentos nos braços
• Ele com unguentos aprazíveis nos braços
• Ele que cozinha unguentos/óleos
• Ele que cozinha unguentos em pureza
• Ele que cozinha unguentos esplêndidos para o corpo de Deus
• Ele que cozinha unguentos para a grande Enéada
• Ele que cozinha cada óleo para as Coisas de Deus (partes do corpo de Wesir)
• O cozinheiro de óleos
• Ele em cuja mão o óleo Hekenu está
• Ele cujos recipientes hbbt são cheios do aroma de Deus
• Ele que mistura o óleo Hekenu para os Deuses
• Ele que cozinha o unguento
• Ele que glorifica o olho de Ra com sua fragrância
• Ele que está no barco ndwt

A inalar aromas festivos,
   Alannyë Daeris

quarta-feira, 13 de março de 2024

Conhecendo o Oráculo: Gypsy Witch Fortune Telling Cards

   O baralho do qual falaremos hoje é um exemplar distinto e bastante peculiar, que é publicado desde 1904, sendo atualmente distribuído pela US Games. O Gypsy Witch Fortune Telling Cards é uma amálgama interessante entre a cartomancia tradicional e o Petit Lenormand, possuindo 52 cartas ilustradas com imagens de estética vintage, previsões ou fortunas, número, naipe, e carta correspondente do baralho de jogos tradicional.
   Também possui 3 Jokers (coringas), um joker "grande", e dois "menores", sendo um preto e outro vermelho, que podem ser deixados no deck, retirados, ou utilizados para métodos de leitura pelo embaralhamento das cartas, como instruído no folheto. Constitui uma ferramenta versátil e que dialoga de forma próxima ao intérprete, podendo se adaptar bem ao seu estilo - seja ele mais puxado para a cartomancia tradicional francesa, mais próximo às escolas do Petit Lenormand, o popular Baralho Cigano, ou mesmo uma interpretação mesclada de ambos.
   As mensagens contidas nas lâminas são instruções referentes ao significado dos símbolos na tirada da Mesa Real, muito similar às instruções tradicionais do folheto que acompanha o baralho Petit Lenormand desde o século XVIII (denominado Método Philippe). A leitura da Mesa com o Gypsy Witch também se faz como no Lenormand, em que se dispõem todas as cartas e se averiguam as cartas próximas à significadora, e a relação de distância entre elas.
   Nessas instruções, percebe-se algumas variações na leitura dos símbolos dos dois oráculos citados. O GW possui 13 cartas distintas de outros baralhos oraculares da época dos quais tenho conhecimento: rosas, raio, vinho, ferrovia, ordem, noiva, porco, leão, olho, mãos dadas, vidro quebrado, rapieiras, e pastor. Outras de suas iconografias remetem a oráculos de cartas predecessores, como a Sibilla Italiana, que possui seis cartas equivalentes às do Gypsy Witch: No.18 Senhora, No.19 Senhor, No.26 Gato, No.38 Lareira (equivale à Imeneo), No. 42 Amor/Cupido e No. 48 Dinheiro.
   A proximidade entre o Petit Lenormand e o GW fica evidente na constatação de que o Gypsy Witch é composto de 35 cartas com símbolos também encontrados no Petit Lenormand, que possui 36 cartas, com a exceção da Cruz (36), a última lâmina e de teor bastante negativo nas escolas tradicionais européias de Lenormand. Por essa razão, quem já tem conhecimento do "baralho cigano", pode se familiarizar rapidamente com o Gypsy Witch - que se traduzirmos de forma livre, se denominaria 'Baralho da Bruxa Cigana para Leitura de Sorte'.
   O folheto do GW traz duas sugestões de tiradas, uma curta e outra longa. Ambas são dispostas em formato de quadrado, e as significadoras são retiradas do baralho para que sejam colocadas depois, segundo o gênero do consulente. A tirada curta leva 16 cartas organizadas como dois quadrados (um interno e outro externo), e a longa é organizada como um quadrado externo de 20 cartas, um médio de 16 cartas, um interno de 8 cartas, a significadora no centro dos três quadrados, e uma fileira lateral com 5 cartas.
   É um oráculo ideal para leituras com propósitos divinatórios, leitura de sorte e previsões, mas assim como outros baralhos similares (vide a Sibilla Italiana e o Kipper), não abrange muitas interpretações voltadas para aconselhamento e autoconhecimento em seu arcabouço tradicional. Infelizmente, pouquíssimo conteúdo é encontrado na literatura tradicional e em fontes na internet para que seja possível aprofundar os estudos desse baralho tão interessante, tornando-se necessário desenvolver uma prática própria e consistente para eventualmente adquirir entendimento e o domínio da ferramenta.

A explorar correlações cartomânticas,
   Alannyë Daeris

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Resenha: Myth and Symbol in Ancient Egypt, de R. T. Rundle Clark

   Sinopse (na língua original): This classic study remains the best single introduction to the Egyptian mythological world. The Egyptians lived apart from the rest of the ancient world and it is this isolation that makes their ideas so difficult to appreciate and interpret. Egyptian though was presented in terms of mythology: myth was used to convey insights into the workings of nature and the ultimately indescribable realities of the soul.

Ficha Técnica


   Autor: Robert Thomas Rundle Clark
   Ano: 1959
   Editora: Thames and Hudson
   Páginas: 292

   Essa é uma das leituras recomendadas pela Kemetic Orthodoxy (Ortodoxia Kemética) e configura uma verdadeira jornada pela mitologia e simbologia egípcia, detalhando-a do início ao fim. Dividido em capítulos que elucidam a natureza das divindades, suas relações entre si por meio dos mitos, e o pensamento egípcio por trás desses conceitos, Myth and Symbol in Ancient Egypt é um livro obrigatório para se aprofundar nos mistérios do Nilo.
   É uma obra instigante e encantadora, não somente pelos temas que aborda de forma exímia, mas também por elucidar as transformações ocorridas no entendimento egípcio acerca de divindades e aspectos mitológicos, apresentando e aprofundando os principais mitos keméticos e as personagens divinas que os compõem. Uma fonte de estudos e pesquisas valiosíssima, pois ilustra visual e textualmente os assuntos abordados em cada capítulo - incluindo passagens que são extraídas de livros keméticos importantísimos, como os Textos das Pirâmides e Livro dos Mortos -, com trechos que são descritos em detalhes pelo autor, trazendo diferentes perspectivas sobre os conceitos-chaves neles contidos.
   Myth and Symbol conta com 18 fotogravuras em preto e branco, 40 desenhos de cenas em traços vazados, uma tabela com símbolos religiosos, e um mapa dos centros de culto na terra das Pirâmides. Seus capítulos passam por uma tabela cronológica do Egito, os Deuses e o esquema mitológico, os conceitos de divino ao longo da história, mitos sobre as principais divindades e alguns símbolos importantes dentro da religiosidade kemética.
   Como uma introdução ou contextualização do panorama religioso do Antigo Egito, serve perfeitamente ao seu propósito. Pode ser considerada uma obra tanto datada devido à sua idade, com nomes de divindades que caíram em desuso (Ma'at como "Mayet"), e algumas afirmações que hoje são compreendidas de forma diferente - como ocorre com a própria não-linearidade do pensamento mito-religioso egípcio -, mas isso não é um impedimento para sua apreciação, pois a grande parcela das informações que compartilha seguem válidas e consistentes na Egiptologia ainda hoje, e é baixa a margem de obsolescência do seu conteúdo.

A corujar com adoração as Aves do Céu,
   Alannyë Daeris

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Pó Mágico para Proteção e Banimento

   Como uma grande parte dos feitiços que realizo e ensino por aqui, em especial os que possuem finalidade de banimento e proteção, esse me foi transmitido por Anúbis, durante meu sono. É um pó de confecção extremamente simples, com ingredientes de fácil acesso e que qualquer pessoa possui em casa. Além disso, tem uma imensa gama de possibilidades de uso, sendo um item altamente versátil para atividades mágicas. Apesar de levar sal em sua composição, eu categorizo esse ingrediente arcano como um pó mágico, e não um sal mágico, pois a base da confecção dele não é salina. Para maiores informações sobre pós e sais mágicos, leia esse texto.
   A atuação mágica desse pó se concentra em banir influências nocivas, afastar energias e pessoas indesejáveis, e proteger contra perigos físicos e espirituais. Ele pode ser incrementado de diversas maneiras: energizando com ajuda de cristais de proteção (turmalina negra, ônix, obsidiana, granada, olho de tigre, etc), acrescentando outras ervas de sua escolha para esses propósitos, pó de tijolo ou cascas de ovo moídas, ou escrevendo petições/sigilos em papel e queimando para adicionar no pó.
   Já os usos para o pó mágico são diversos, e variam entre espalhá-lo ao redor da casa, no batente das janelas e portas, no jardim ou nos limites da residência, salpicado dentro do seu veículo (debaixo do tapete do carro ou no baú da moto), uma pitada nos bolsos de roupas, dentro de bolsas ou carteiras, debaixo da palmilha dos seus sapatos ao sair de casa, ou ainda, disposto em um pires ou castiçal com uma vela preta acesa no meio, e somado em saquinhos mágicos e feitiços em geral com propósitos de proteção e banimento.

Você precisará de:
• Café em pó
• Pimenta preta ou branca em pó
• Sal grosso ou refinado
• Farinha de trigo
• Cinzas de incenso - se possível, de incensos naturais de ervas
• Um punhado de arruda e/ou louro (em pó, macerado ou bem picotado)
• Um recipiente de vidro higienizado para armazenar
• Opcional: Carvão ou raspas de caldeirão
• Opcional: Pó de tijolo vermelho e/ou cascas de ovo moídas

🕒 Horas e dias de Saturno ou Marte.
🌕 Lua minguante ou cheia.

   Reúna todos os ingredientes em seu altar ou espaço apropriado, e concentre-se. Purifique o recipiente de vidro com um método de sua preferência, e comece a acrescentar os ingredientes. As quantias são arbitrárias pois não existe uma proporção mais adequada, mas sugiro que a base do pó seja a farinha e o café em partes iguais, e depois os outros ingredientes em uma menor escala. Referente à pimenta, a cinza de incenso e os opcionais, uma ou duas colheres cheias de sopa bastam.
   Vá adicionando e mentalizando sua intenção para esse pó mágico. Você pode visualizar uma energia escura envolvendo o recipiente, trazendo as energias de defesa e expurgo de negatividade. Caso você deseje energizar com algum cristal, feche a tampa e coloque a pedra sobre ela, intencionando essa energização. Para consagrar, abra a tampa, "bafore" três vezes (solte o ar quente dos seus pulmões - não sopre, apenas deixe o hálito sair da boca) dentro do pó enquanto fala o encantamento entre baforadas:

"Pó de proteção, pó de banimento, pó de proteção
(uma baforada)
Consagro e ativo sua força com o ar do meu pulmão
(uma baforada)
Me defenda, me proteja, e afaste de mim todo o mal
(uma baforada)
Elimine o que me ameaça, seja ou não intencional"

   Está feito. Se possível, rotule com o propósito e a data de fabricação. O pó mágico pode ser usado imediatamente, ou se ainda desejar dar a ele um toque final, enterre por três dias antes do uso, ou energize na luz da lua minguante.

A amolar as facas do Senhor das Lâminas,
   Alannyë Daeris

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Feitiço 95 do Livro dos Mortos - Para estar na presença de Thoth

   O Livro dos Mortos (no inglês, Book of the Dead, ou em tradução mais aproximada do título egípcio original r(ꜣ)w n(y)w prt m hrw(w), "Book of Coming Forth by Day") é uma coletânea de textos funerários geralmente inscritos em papiros, que abrange um período entre 1550 b.C e 50 b.C, ou seja, desde o início do Novo Império até o Período Romano. Tais textos mortuários possuem uma característica mágico-religiosa, servindo para guiar e auxiliar uma jornada segura no submundo, garantindo a chegada do falecido no julgamento de sua alma, e o subsequente renascimento para a vida eterna.
   Apesar de ser popularmente referido como um livro, não há um cânone ou seleção específica de textos que compunham o Livro dos Mortos, pois os feitiços (spells) e ilustrações (vignettes) escolhidos variam bastante nos exemplares conhecidos. Sendo assim, o trabalho de enumerar e organizar os textos recaiu sobre os pesquisadores da modernidade, não devendo ser levado ao pé da letra como uma ordem fixa e rígida dos feitiços, que pareciam ser escolhidos a dedo pelos egípcios que requisitavam sua produção aos escribas, conforme as percepções pessoais de quais seriam os encantamentos mais úteis na jornada que realizariam pelo pós-vida.
   Nesse texto, além de uma brevíssima introdução sobre o Livro dos Mortos, me proponho a traduzir e apresentar um dos encantamentos que mais me cativa dentre a numerosa seleção de textos dessa coletânea: um feitiço com a finalidade de estar na presença de Thoth. Uma parte fundamental das práticas mágico-religiosas egípcias (ou Heka) consiste nos encantamentos, ou seja, o poder da fala. É o caso do spell 95, composto por um encantamento e uma vignette ilustrativa do falecido, efetuando a magia. Importante notar que nos feitiços funerários, o operador da magia é equiparado a Osíris, fazendo alusão direta ao processo mitológico de vida, morte e renascimento desse Deus.

Vignette do Spell 95 do Livro dos Mortos de
Ramose. Datado entre os séculos 14-13 a.C. Fonte.

Feitiço para estar na presença de Thoth


Palavras ditas por Wesir (Osíris), supervisor dos arquivistas do Senhor das Duas Terras, (seu nome/nome do falecido), Justificado(a).

Ele diz: "Eu sou o terror na tempestade e o guardião da grande cobra em guerra. Eu ataquei com a faca e cinzas esfriam os oponentes para mim. Eu agi em defesa da grande cobra em batalha. Eu fortaleci a faca afiada em posse daquela afiada que está na mão de Khepri na tempestade. Eu sou o Osíris, supervisor dos arquivistas do Senhor das Duas Terras, (seu nome/nome do falecido), Justificado, em paz."

Notas complementares:

• Nos espaços entre parênteses, estava inserido o nome de Ramose, o dono desse exemplar do Livro dos Mortos. Sendo assim, deve ser substituído pelo nome do operador da magia, identificando-o como Osíris, o Justificado.
• Apesar de configurar como um feitiço funerário, é possível adaptar o feitiço para outras práticas mágico-religiosas que visem conexão com Thoth - seja por meio de invocação ou evocação.
• Pela observação da vignette que acompanha o texto, é sugerível que oferendas sejam efetuadas junto ao feitiço, como de costume em atividades devocionais. Além da evidente oferenda de uma flor de lótus-azul (Nymphaea nouchali var. caerulea) por Ramose, há um recipiente para líquidos possivelmente contendo cerveja ou água, e um item branco que se assemelha a um pão ou algum tipo de comida.

A colher lótus para o Benfeitor Universal,
   Alannyë Daeris

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Tempo ao Tempo – Deixando a Magia Correr seu Curso

Publicado originalmente na Revista A Folha da Íbis, edição de Abril de 2020, por Alannyë Daeris. Revisado e atualizado em 05/2023.

   Como é difícil lidar com a ansiedade pós-magia, não é mesmo? Aquela sensação de nervosismo... ter dúvidas sobre se vai mesmo funcionar, se os resultados serão rápidos e da forma como você espera, se você fez tudo certo ou errou em alguma etapa... Nós vivemos presos ao conceito de tempo e espaço, mas para o espiritual, o tempo funciona de forma diferente. Portanto, quando colocamos nossa preocupação e ansiedade sobre nossos feitiços, criamos bloqueios inconscientes sobre as intenções, enviando uma mensagem contrária – de que aquilo não é o que queremos de verdade, associando a intenção a algo ruim. A energia que foi direcionada antes se torna conflituosa com a energia que foi enviada depois, e dependendo do contexto, as duas podem acabar por se anular.
   Isso não significa que você deve se desesperar toda vez que se pegar pensando algo como “nossa, espero que esse banho de ervas funcione mesmo”, ou “o que eu faço se esse feitiço não funcionar?”. Esses questionamentos são normais e até necessários, para que consideremos com nosso senso crítico o que foi feito, e possamos analisar com honestidade e transparência nossas atividades mágicas. Inclusive, são ponderações que podem ser acrescentadas em seu diário mágico (ou grimório, livro das sombras, etc), e que fornecem um bocado de compreensão sobre sua jornada espiritual, tanto na hora do registro quanto em oportunidades posteriores de rever tais anotações e compará-las com os resultados obtidos.
   Entretanto... se você frequentemente fica considerando as possibilidades de como seu feitiço pode falhar, ou procurando os erros que cometeu na hora H, isso já configura uma autossabotagem! Considere que você está gastando seu tempo, sua energia e seu esforço criando sentimentos negativos e direcionando-os para o feitiço que fez, e isso às vezes pode ser o suficiente para diminuir ou até anular o efeito do feitiço que criou, se for feito com frequência, ou se você ficar muito ansioso nesses momentos específicos! Longe de querer lhe instigar medo e ainda mais insegurança sobre suas práticas, a proposta aqui é ajudar você a evitar circunstâncias desfavoráveis para conseguir concretizar seus desejos, tendo consciência dos fatores que atuam contra eles.
   Algo similar pode acontecer quando você faz um feitiço e conta para outra pessoa, seja ela a favor das suas práticas no geral ou não. Se ela pensar ou sentir algo que não seja positivo, mesmo que seja inconscientemente ou sem intenção, são bloqueios que podem ser acrescidos sobre sua magia, e que quando se somam em quantidade, podem acabar por atrapalhar os resultados que você tanto queria. Evite compartilhar seus feitos mágicos abertamente, você pode não saber de fato qual será a reação íntima do ouvinte – a exceção são os casos em que você deseja energizar o feitiço através da interação da outra pessoa, mas é necessário propósito e um cuidado redobrado para isso!
   É importante comentar que se você é assombrado por preocupações, de maneira intensa e frequente, isso deve estar enraizado em algo mais profundo e desconhecido para você, então vale a pena tentar encontrar onde está a raiz do problema. Lembrando que ansiedade, medo extremo, paranoia e preocupação excessiva com sintomas físicos são assuntos sérios e requerem o devido acompanhamento de profissionais da saúde. O ideal nesses casos é buscar indivíduos capacitados para ajudar a reestabelecer sua saúde mental e emocional ao melhor estado possível. O autoconhecimento opera maravilhas quando bem conduzido, mas nem tudo pode ser resolvido de forma solitária, na base da reflexão isolada e sem o devido amparo.
   Na prática, não se preocupar com feitiços e resultados é muito mais fácil dito do que feito, todos sabemos muito bem disso... Minha recomendação é que você encontre maneiras de redirecionar seu foco sempre que perceber as dúvidas se aproximando, e recorde-se dos resultados positivos que já obteve em seu passado, como banhos de ervas eficazes, feitiços ou práticas mágicas em geral que manifestaram um efeito tangível e significativo - tenho certeza de que você possui um histórico com momentos impressionantes relacionados à magia! Quanto antes você se afastar de pensamentos duvidosos sobre os resultados, melhor, pois menos negatividade estará no caminho das suas intenções. Não devemos tentar reprimir os questionamentos, e sim aceitá-los com naturalidade, entendendo que fazem parte do processo e são compartilhados por todos nós no caminho oculto, mas também compreender que está em nosso poder evitar que o medo leve ao fracasso. Algumas dicas simples de feiticinhos para isso são:

• Acenda seu incenso preferido, ou algum com propriedades de purificação, clareza, limpeza. Concentre-se na fumaça, intencione que ela renove suas energias e dissipe os pensamentos adversos.
• Faça um aterramento, se possível, andando de pés descalços na grama. Estar na natureza é ótimo para se distrair das preocupações.
• Escreva todas as coisas que lhe preocupam conforme elas surgem em sua cabeça e queime-as para banir de sua vida. Pode ser feito em uma simples vela preta, sem necessidade de ervas e caldeirão.
• Coloque uma música que lhe faça se sentir bem para tocar bem alto, concentre-se nela com presença e se deixe levar.
• Medite com uma entidade ou divindade que você cultua, converse sobre a situação.
• Leia um poema que você gosta, ou entoe um hino para uma divindade/entidade de quem você é devoto.
• Faça um exercício físico simples e rápido. Corra pela casa, faça agachamentos ou polichinelos. Dê uma alongada antes, claro.
• Exerça alguma atividade de limpeza ou organização - varra um recinto, lave a louça, arrume aquele cantinho bagunçado, tire o pó da estante. Concentre-se e intencione que está reordenando seus pensamentos por meio dessa tarefa.
• Registre em seu diário mágico (ou livro das sombras, enfim) sobre a experiência, buscando ser honesto consigo mesmo(a).
• Pergunte a oráculos sobre a prática que foi realizada; se foi eficaz, se trará os resultados esperados, se algo foi feito inadequadamente, se há necessidade de um reforço posterior, orientações. Reflita sobre as respostas com atenção e evite abrir um monte de jogos em sequência sem analisá-los com calma, faça como se estivesse abrindo o oráculo para outra pessoa.
• Tire um cochilo, descanse, leia um livro. Faça uma atividade diferente, conforme o que você estiver precisando mais no momento. Quem sabe tomar uma ducha (ou um banho de ervas!), um chá, passear com o cachorro. Direcione seu foco para algo mais produtivo, coloque em dia aquilo que está procrastinando há dias.

A desapegar das certezas,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Método Oracular do Conflito na Relação

   Iniciar um relacionamento pode ser difícil... mas ninguém avisa que manter um namoro em harmonia também não é lá um mar de rosas! Esse jogo se destina a elucidar com profundidade sobre as raízes e as implicações de conflitos ou brigas em relações afetivas, e orientações sobre como resolver esses desentendimentos de forma saudável.
   A tirada a seguir foi criada originalmente para envolvimentos românticos, no entanto, pode ser aplicada com outros tipos de relações: análise de conflitos com amizades, familiares, colegas de trabalho, etc. E claro, é possível utilizar uma grande variedade de oráculos para esse método (Tarô, Lenormand, Sibila, Runas...), ao seu critério e gosto.

O Método


1. Você em relação ao parceiro(a).
2. O(a) parceiro(a) em relação a você.
3. Por que estão se desentendendo?
4. Há alguma razão oculta, não explícita, para esse conflito?
5. Expectativa. O que ele(a) espera que você faça.
6. O que você espera que ele(a) faça.
7. O que levará a um acordo.
8. O que pode piorar a situação.
9. O que fazer sobre esse conflito.
10. Existe algum outro fator influenciando nesse desentendimento?
11. Como encontrar um meio-termo e ajustar os desequilíbrios.
12. Tendência de futuro da relação.

A apaziguar ânimos e âmagos,
   Alannyë Daeris

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Epítetos de Nebetuu (Nebtuwi)

   Epítetos são títulos dados a divindades, que servem para representar certas faces específicas deles, e invocar determinadas características. Para saber mais, veja esse texto que trata sobre o assunto.
   Hoje, apresento uma lista de epítetos keméticos tradicionais conferidos a Nebtuwi (Nbt-ww), traduzidos e adaptados para nossa língua. Podem ser usados em orações, rituais, meditações e em quaisquer situações que você queira evocar ou invocar esse aspecto de Nebtuwi que está retratado no epíteto escolhido.
   Essa lista não contém todos os títulos associados com essa deusa, e há muitos outros que podem ser encontrados, ou desenvolvidos na sua própria interação e culto a Nebtuwi. Agradeço à Rev. Ma'atnofret da Kemetic Orthodoxy pela tradução dos epítetos para o inglês com base no guia Lexikon der ägyptischen Götter und Götterbezeichnungen, volume 8.

Epítetos Tradicionais


• A grande no céu
• Que preenche céu e terra com sua perfeição
• Senhora do céu
• O céu oposto
• A cabeça do horizonte
• Sol
• Ela com raios luminosos
• Deusa solar
• Que ilumina para si mesma as duas terras em frente a sua face
• Senhora da luz
• Raet na luz
• Que ilumina as duas terras
• A luminosa
• Vento
• O vento norte
• O belo vento norte
• Sétima terra/mundo
• A poderosa na terra
• Atribuindo vidas pelo país 
• Que preenche os céus e a terra com sua perfeição
• A regente das vizinhanças do sol
• Mantendo o país vivo pela ação de seus braços
• Por quem o país inteiro está em humor festivo
• Cabeça do distrito de Abydos em Abydos
• A magnífica e esplêndida do Templo de Khnum
• O Wedjat no campo de Khnum
• A senhoria de Esna
• Mestra de Abydos
• Mestra de Edna
• Mestra de Buto
• Mestra de Elkab
• Mestra de Pelusium
• Eles estão em Heliópolis
• Eles que em Thinis estão
• Está no meio de Tebas
• A casa está no meio dos Bas
• Que chegou em Esna
• Que chegou em sua festa em Esma
• Vinda de Kenset
• O olho de Ra na totalidade das Duas Terras
• Que iluminaram para si mesmos os dois países em frente de suas faces
• Senhora das Duas Terras
• Que ilumina as Duas Terras
• Que lidera as Duas Terras
• Em cuja corte o regojizo reina
• Que preencheu o palácio com sua beleza
• Senhora do palácio.
• Senhora de Bubastis em sht-ntr
• Senhora do pr-wr
• Mestra da casa do pai
• Mestra da casa da mãe
• Mestra do templo de Neith
• Enfermeira da casa de nascimento
• Mestra da família real
• Mestra da casa da chama
• A regente excelente na casa da mãe 
• A cabeça da Casa da Alegrias
• Que deixa Deus ascender em Seu templo
• Mestra das águas Isrw
• Ela com a grande margem
• Mestra do jardim de árvores
• Mestra do campo perfeito
• A primeira do vale
• Sua Majestade Ipet
• A vaca celestial
• Senhora das árvores
• Sua fragrância exala da flor de lótus
• Seu aroma consiste da planta de papiro
• Que vem como a água da inundação
• Deusa dos campos
• Que cria as plantas
• Mestra do país das frutas
• Mestra da nova terra
• Mestra das plantas
• Mestra do campo
• Mestra das Pradarias (Campos elevados)
• Regente do campo
• A cabeça da vegetação
• A cabeça do campo
• O campo cravejado de lápis lazuli
• Que faz a madeira da vida crescer
• A que cresce toda a comida
• Que eleva o grão completamente
• Que faz as plantas para sua casa
• Que amadurece o grão 
• A riqueza que está no grão
• Que ascende no começo
• Que cria a todos
• Toda boca come o que provém dela
• Que dá a completa altura ao grão 
• Que dá a luz ao que existe
• Que faz todas as coisas acontecerem
• Que faz todas as coisas ascenderem em seus locais
• A menina
• A grande menina
• Que induz as plantas para sua casa
• Ela com planos excelentes
• Ninguém entra no palácio sem seu conhecimento
• Um passo a frente na barca noturna
• A bela face
• Ela com face perfeita
• Ela com aroma agradável
• Seu corpo é feito de ouro
• Cujo cabelo é feito de lápis lazuli real
• Sua fragrância vem da flor de lótus
• Ela com face atentiva 
• As bochechas festivamente decoradas
• Seu aroma consiste na planta de papiro
• Ela atira sua flecha contra Apófis
• A perfeitamente decorada
• A Magnífica ou a Útil 
• A grande Magnífica
• A grande queima 
• A grande cobra
• A cobra de Ptah
• A coroa wrrt
• A serpente na testa de Ra
• A serpente frontal na testa de cada divindade
• A cobra
• A cobra de quem a criou
• A grande cobra
• A cobra de Ra
• O belo olho
• O Olho de Rá
• O olho de Ra no semblante das Duas Terras
• O grande Olho de Heru
• O Olho Wedjat
• O Olho Wedjat no campo de Khnum
• Para o Ka que você faz um banquete
• Para cujo Ka você abre a caneca de cerveja
• Seu nome é maior que o dos deuses e deusas
• Que cria as coisas úteis 
• Que cria a necessidade para todos
• Que toma a cabeça dos seus inimigos
• Que queima o inimigo de seu pai
• Que queima o inimigo com sua labareda de fogo
• Ela atira sua flecha contra Apófis
• Que derrota seu inimigo
• Seu desgosto é fome e sede
• Que dá a idade para quem ela ama
• Retorna o ar para as narinas do cansado de coração
• Mantendo o país vivo pela ação de seus braços
• Escoltando os Grandes Deuses
• Que atende aos pedidos 
• Que ouve o pedido de qualquer um
• A Protetora de Ra-Horakhty
• Que protege seu filho a quem ela ama
• Cujo coração está cheio de alegria
• A Senhora do Júbilo
• Regente do Júbilo 
• Sob cujo comando o Senhor aparece
• Que ama a dança 
• A Senhora da dança
• Senhora da canção (ou: da adoração)
• Senhora da música
• Para quem seu irmão dança
• Que dança para Shu
• Para cuja majestade se começou a dançar
• Para quem se começou a celebrar
• Mestra do campo
• A excelente regente na casa da mãe
• A regente na casa da vaca
• A regente nas vizinhanças do sol 
• Que manda seu filho para Rei
• Ela que no trono está 
• Que está sobre o grande assento do trono
• Seu trono é mais distante que o dos Deuses 
• Ela vem com seu irmão
• Seus filhos prosperam mais que os Deuses e Deusas
• O inimigo é seu irmão
• O Ra deu à luz
• A confidente de seu irmão
• A cobra de quem a criou
• Ela protege seu filho quem ela ama
• Quem conecta com seu pai Atum
• Que une com seu irmão
• Que une com seu irmão Khnum
• Seu filho é Hk3-p3-hrd
• A filha do mestre
• A filha de Ra
• A irmã de seu irmão
• Que satisfaz o coração de seu pai, Ra
• Que faz seu filho se tornar rei
• Que cria seu filho Heru com/em (...)
• Ela com grande popularidade
• Ela com grande popularidade entre os Deuses
• A muito popular
• Senhora do amor
• À visão dela Ra regozija
• Vê-la faz celebrar
• Senhora da dignidade
• A grande divindade
• A maior Deusa
• A Magnificente
• A Magnificente e Poderosa
• A Magnificente e Poderosa dos Deuses e Deusas
• A bela magnificente
• A mais sublime que os Deuses
• Ascendendo sobre os Deuses e Deusas
• Uma segunda não existe no céu e terra
• A sem igual
• A Bela
• A Dourada
• Senhora da beleza
• A grande queima
• Ela com grande calor
• Senhora da chama
• A mais poderosa que os Deuses
• A senhora perfeita
• A senhora dos Deuses
• A Senhora de todos os Deuses
• A Senhora dos Deuses e Deusas
• A Senhora das Deusas
• A Senhora das mulheres
• A Senhora de todas as coisas
• A Senhora das mulheres nobres
• A Senhora de homens e mulheres
• A Grande Anciã
• A Cobra de Ptah
• Olho de Ra
• Olho de Ra em todos os dois países 
• O grande Olho de Heru
• Que se localiza no peito de Ra
• A grande ao lado de Khnum
• Quem dança para Shu
• Cuja visão Ra ama
• O amor de Ra
• A amada de Ptah
• A amante de Ra
• A amada de Khnum
• A confidente da Senhora do Campo
• A serpente na testa de Ra
• A serpente na testa da cabeça de seu mestre
• A protetora de Ra-Horakhthy
• Sua visão faz Ra regojizar
• Retorna o ar ao nariz do cansado de coração
• Com quem o coração de Atum está satisfeito
• A Cobra de Ra
• Que se une com a cabeça do seu campo
• Enfermeira 
• A Enfermeira no local de nascimento
• A Nutridora
• Que abre/rasga as coisas
• Senhora da limpeza
• Para cujo Ka você faz uma festa
• Ela com numerosos festivais
• Que ama o dia agradável
• A Senhora do Festival
• Senhora dos festivais
• Senhora da embriaguez
• Que chegou em sua festa em Esna
• Para cuja majestade se começou um festival
• Para quem todo o país está em clima festivo
• Ela um passo a frente na barca noturna
• Ma'at na cabeça da barca de Ra
• Senhora dos Menits e do Sistro
• Ela com numerosas oferendas
• Para cujo Ka você abre a caneca de cerveja
• Senhora do grão
• Senhora da comida
• Senhora da comida e do alimento
• Que está no alimento 
• Que vem durante o dia
• Senhora do começo do ano
• Que aparece no início de cada década
• Que faz o ano perfeito
• Wadjet
• Wenut do Baixo Egito
• Wenut do Alto Egito
• Ma'at
• Menhit, a grande
• Raet na luz
• A grande Repit
• Rivenutet, a colorida de papiro
• Hathor a Grande
• As Deusas do campo
• Seshat a Grande
• Tefnut
• Temet
• Milhões, centenas de milhares e dezenas de milhares são
• No fim de quem estão milhares, centenas, dezenas e um

A abrir a cerveja para a Senhora Perfeita das Oferendas,
   Alannyë Daeris 

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Senet, o Jogo Egípcio da Travessia

   O Senet é um jogo de tabuleiro egípcio, mencionado desde 2620 a.E.C., com representações e sinais hieroglíficos que datam de períodos anteriores, como no início da Era de Bronze II. Existem outros jogos de tabuleiros egípcios, como o Mehen e o Shen (ou "Cães e Chacais"), mas o Senet é o mais conhecido, sendo referido inclusive na cultura popular e no entretenimento contemporâneo. Esse jogo variou muito pouco ao longo de sua história de aproximadamente 2000 anos, tendo sido deixado de lado somente no tardio Período Romano. Algumas evidências sugerem que tenha continuado a ser jogado por algum tempo na era romana, devido a grafites encontrados no telhado do Templo de Dendera, que data dessa época.
   Ele é popularmente traduzido como "jogo da travessia da alma" - referindo-se ao Ba, a essência vital que é representada por um pássaro com cabeça humana; saiba mais sobre os conceitos de corpo e alma no Kemetismo nesse texto. O propósito do Senet é efetuar com êxito a perigosa jornada pelo Duat (o submundo egípcio), alcançando assim os Salões das Duas Maa'ti, onde ocorre o julgamento da alma e a pesagem do coração - uma etapa necessária para ser agraciado com o renascimento e uma subsequente vida eterna nos Campos de Juncos. Tal associação simbólica com a travessia do espírito no além parece ocorrer em um momento posterior, após o jogo ter sido criado e difundido na civilização egípcia como um passatempo.
   O Senet é composto de 10 ou mais peças, dispostas em um tabuleiro retangular com 30 divisões quadriculadas, num formato de 3 colunas, cada uma contendo 10 casas. O tabuleiro costuma indicar a direção de início do jogo, geralmente no topo superior esquerdo, e era comum que as casas fossem decoradas com padrões ou desenhos simbólicos. As decorações das últimas 5 casas do tabuleiro eram distintas, e faziam menções à água ou conceitos benéficos; entretanto, a posição dessas casas e os hieróglifos nelas contidos variam de tabuleiro para tabuleiro. Junto aos tabuleiros de Senet, é comum a presença de "casting sticks", palitos lançados ao acaso, ou ossos (astragalos), que serviam como dados e eram usados para determinar a quantidade de casas percorrida pelos peões.
   Diversos tipos de tabuleiros têm sido encontrados por arqueólogos, alguns altamente sofisticados e decorados, com imagens de Deuses e cenas mitológicas nas laterais da caixa, gavetas para armazenar as peças. Os materiais usados para a confecção de tabuleiros variam entre pedras preciosas (como lapis lazúli) e outros tipos de pedras, faiança, marfim, madeira, ostraca ou pratos de terracota. Também há evidências de tabuleiros de Senet mais simples, sem inscrições, ou riscados no chão e em edifícios, possivelmente para partidas improvisadas. Nem todos os tabuleiros dos quais há registro acompanhavam peças como peões, palitos ou dados.
   Até o presente momento, não foi possível reconstruir de forma fidedigna o conjunto original de regras do jogo, pois não existem registros escritos ou instruções remanescentes sobre como era jogado, somente representações visuais de partidas, que trazem informações limitadas sobre a estrutura e funcionamento do jogo em si. Alguns parâmetros gerais sobre as partidas são mais aceitos; considera-se que cada um dos dois jogadores recebe uma quantia igual de peões no início da partida, e que o objetivo é alcançar o final do tabuleiro, a última casa. As peças provavelmente se movem em padrão de S, da esquerda para a direita e vice-versa. Algumas casas parecem causar efeito positivo ou negativo sobre os peões.
   O Senet é citado em textos, como no Capítulo 17 do Book of the Dead (Livro dos Mortos), e em outros papiros, que relatam muito pouco sobre a execução de uma partida. Ainda assim, os historiadores Timothy Kendall e R. C. Bell efetuaram reconstruções das regras, estimadas por intermédio de fragmentos de informações em textos egípcios, que dificilmente representam a jogabilidade original, mas sugerem possibilidades interessantes para uma adaptação moderna e "jogável". Você pode acessar nesse link, em inglês. Um outro material escrito, disponibilizado gratuitamente pela Universidade de Chicago, oferece um guia completo para fazer o seu e regras para jogar - leia nesse link.
   Os egípcios acreditavam que a travessia pelo Duat era repleta de desafios e povoada por entidades nefastas, que poderiam impedir a chegada do falecido ao local do julgamento, ou roubar partes de seu corpo e alma, condenando o indivíduo à danação - literalmente, uma questão de vida ou morte eterna. Em murais e afrescos em tumbas egípcias, existem cenas de partidas de Senet sendo jogadas por falecidos no além e seus familiares vivos, atestando que a temática do jogo por simples correlação simpática era suficiente para estabelecer uma ponte entre esse mundo e o próximo, conectando os vivos e os mortos por representar a transição entre os planos, trazendo os ancestrais para perto com auxílio do lúdico.
   Sendo assim, o Senet é um artefato que perpassa o secular para adentrar e se consolidar no sagrado, representando a importância do aspecto mágico-religioso em uma civilização que abraça com estima seus mitos, símbolos, invenções, brincadeiras, e percebe a imanência do divino em todas as camadas da realidade.

Referências

The Egyptian Game of Senet and the Migration of the Soul - Peter A. Piccione
Passing from the Middle to the New Kingdom: A Senet Board in the Rosicrucian Egyptian Museum - Walter Crist

A lançar dados com Shai,
   Alannyë Daeris 

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Resenha: Ancient Egyptian Magic, de Bob Brier

   Resenha: Ancient Egyptian Magic is the first authoritative modern work on the occult practices that pervaded all aspects of life in ancient Egypt. Based on fascinating archaeological discoveries, it includes everything from how to write your name in hieroglyphs to the proper way to bury a king, as well as:
- Tools and training of magicians
- Interpreting dreams
- Ancient remedies for headaches, cataracts, and indigestion
- Wrapping a mummy
- Recipes for magic potions and beauty creams
- Explanations of amulets and pyramid power
- A spell to entice a lover
- A fortune-telling calendar
These subjects and many more will appeal to everyone interested in Egyptology, magic, parapsychology, and the occult; or ancient religions and mythology.

Ficha Técnica


   Autor: Bob Brier
   Ano: 1998
   Editora: William Morrow & Company
   Páginas: 320

   Antes de partirmos para os elogios, conheçamos o autor - Bob Brier é um egiptólogo de renome e grande divulgador do tema, que já publicou outros sete livros, conduziu pesquisas em sítios em quinze países e é um pesquisador sênior na Long Island University. Ancient Egyptian Magic é um ótimo livro de introdução sobre a magia no Egito Antigo, abrangendo diversos assuntos que tangem esse tema tão amplamente inserido na vida da civilização kemética.
   Não espere uma obra fantasiosa e repleta de misticismo sobre a magia egípcia - esse é um trabalho literário sério, fidedigno e de altíssima qualidade, embasado em fontes confiáveis, pesquisas acadêmicas, e informações obtidas via registros históricos e arqueológicos. Os capítulos de Ancient Egyptian Magic são bem organizados e criam uma progressão de assuntos substancialmente engajante, que captura a atenção do leitor conforme transita por diferentes áreas de interesse, que complementam umas às outras.
   O único defeito desse incrível exemplar literário é a falta de uma tradução para o português até o momento dessa publicação - nada relacionado ao conteúdo impecável! -, que torna mais difícil seu acesso para quem não domina o idioma. Ainda assim, Briar apresenta temas complexos com um linguajar descomplicado, simplificando a compreensão para todas as variedades de leitores, e facilitando o desafio para quem engatinha nessa língua.
   O livro possui um dos raros calendário de dias de sorte e azar com suas fortunas, trata sobre os principais mitos egípcios, amuletos, sonhos, como funcionava o funeral do faraó, bem como práticas mágicas e medicinais variadas que eram empregadas por essa civilização na Antiguidade. Se destaca por proporcionar um contato bastante próximo com a magia e a ritualística antiga, demonstrando frequentemente com imagens e traduções de textos egípcios.
   Vale muito a leitura para interessados em conhecer mais sobre o tema mágico-religioso, e como foi o cerne que fundamentou a cultura e sociedade kemética ao longo dos milênios. É também uma fonte de referências importantes para aprofundamento de estudos sobre o Antigo Egito. Um dos melhores livros que já li sobre o assunto até então - se não o melhor!

A adaptar fórmulas obscuras,
   Alannyë Daeris